A noite caiu e após deixar Ácura na hospedaria Flames partiu ao encontro de Porã que estava treinando tiro com arco no coliseu, enquanto galopava ele percebeu que a cidade estava calma, muito calma para o que era de costume, era raro encontrar um homem com mais de quatorze anos por ali, todos tinham partido para a muralha em preparação para a batalha, no meio do caminho Flames ganhou os acenos de algumas pessoas que o reconheceram, a maioria das pessoas do reino já sabia seu nome e a sua fama, mas poucos sabiam como era a sua aparência.
Chegando no coliseu Flames encontrou Porã atirando em alvos de madeira e palha, ele estava longe, mas dificilmente errava, seu tiro era certeiro, tal como a maioria dos guerreiros de sua tribo, que era famosa pelo domínio do arco e flecha, as espadas não eram famosas entre os tribais que lutavam todas as suas batalhas com flechas na floresta, por esse motivo Porã era tão furtivo.
Ele m*l pôde esperar Flames se aproximar e já foi na direção dele.
- Achei que você iria voltar mais rápido. – Ele falou para Flames que havia dito a ele que voltaria em no máximo cinco dias quando foi mandado para as linhas de frente e havia ficado mais de quatorze.
- Eu achei que voltaria mais rápido, mas tem muita movimentação em volta das muralhas, precisávamos da maioria dos homens para fazer a guarda. – Flames explicou-se. – Mas agora vamos partir logo, o mais rápido possível, acho que amanhã.
- Precisamos, se os orc's passarem da ponte o meu povo será o primeiro a sofrer já que esse reino ainda é protegido por quilômetros de água. – Porã respondeu. – O amigo de Miguel está esperando a gente do outro lado, ele disse que ia primeiro para preparar algo, eu nem quis perguntar o que era.
- Então vamos nos apressar, preciso encontrar Guarduavel antes de irmos, vamos lá agora se estiver pronto. - Flames disse.
- Então vamos.
...
Flames e Porã partiram em galopes rápidos até a casa de Guarduavel que até onde ele sabia ficava em uma floresta afastada a cidade, toda a estrada estava escura e não havia sinal de vida em lugar nenhum, com meia hora de galope eles chegaram a floresta onde supostamente ficava a casa de Guarduavel, ele desmontaram dos cavalos e caminharam pelas margens da floresta por alguns minutos procurando a casa, era esquisito alguém querer morar naquele lugar, tão esquisito que mesmo tendo certeza do caminho Flames o revisou mentalmente para ter certeza de que ele não tinha se perdido, mas Guarduavel era tão estranho que escolher um lugar daquele para morar era algo que qualquer um esperava dele, com mais alguns minutos Flames viu alguém caminhando no meio da floresta com uma lanterna na mão, ele vinha por uma trilha caminhando a passos lentos, a noite estava fria e o vento castigava a luz da lanterna quase a apagando em várias vezes, Guarduavel usava roupas longas e de tecido escuro que sacudiam melancolicamente pelo vento que uivava ao atravessar a floresta, se Flames não o tivesse reconhecido poderia jurar que era uma assombração.
Flames colocou uma das mãos em chamas e se aproximou com cuidado para não o assustar.
- Flames? – Ele o reconheceu de longe.
- Senhor Guarduavel, como o senhor tem passado? – Disse Flames o cumprimentando com um aperto de mão.
- Estou muito bem, a que devo uma visita tão inesperada? – Respondeu o senhor com toda sua simpatia.
- Como o senhor ouviu na reunião eu estou partindo para Abises e Uthean falou que o senhor poderia ter algum discípulo que pudesse me ajudar nessa missão, alguém que conhece de florestas. – Flames disse.
- Me acompanhe, será melhor para tratar de qualquer assunto no calor da minha casa.
...
Flames o seguiu até a casa dele, era bastante diferente de uma casa comum, no lugar de subir paredes ele cavou um buraco no chão e o cobriu com vigas de madeira e palha, mas era um trabalho tão bem feito que fez Flames se questionar sobre o porquê todas as casas não haviam sido criadas daquela maneira.
Porã e Flames estavam sentados em uma mesa de madeira com Guarduavel e um dos seus discípulos, que parecia ser o único, todos tomavam um chá de ervas que Guarduavel fez que segundo ele dava mais força para o corpo e o protegia de doenças, mas seu efeito mais rápido era o alivio do frio que aquela noite trazia.
- Então você que alguém que reconheça o terreno para você? – Guarduavel perguntou.
- Sim, a floresta para onde vamos é muito diferente de todas que eu já fui, não sei nada sobre lá e quero que alguém com uma noção sobre terrenos me acompanhe para saber a melhor forma de reagir por lá.
- É muito inteligente pensar dessa forma, pelo jeito você está mesmo preparado. – Elogiou Guarduavel. – Acho que Nicolas o pode ajudar. – Ele olhou para seu discípulo, era um jovem magrelo com a cabeça raspada, tão branco que parecia que não via o sol há anos.
- Eu não conheço o território para onde vamos, pelo o que ouvi de Guarduável sobre lá parece ser bastante imprevisível, mas posso estudar o ambiente, seria interessante. – O Jovem respondeu, ele não parecia ter mais que quinze anos.
- Nicolas é meu melhor discípulo, olhe. – Ele tomou um pequeno caderno de anotações que Nicolas carregava com ele e abriu mostrando seu conteúdo, haviam vários desenhos de frutas, raízes, animais, plantas, todos com suas caraterísticas, efeitos, ambiente e utilidades escritas na base do desenho, como se ele estudasse tudo que ele encontrava na floresta. – Ele com certeza será útil.
Flames ficou admirado com os desenhos que viu, haviam plantas tão estranhas desenhadas ali, além dos animais que ele nunca havia visto antes, aquele garoto parecia mais esperto do que sua idade permitia. – Mas vamos ter que partir amanhã mesmo, será que você está disponível para isso?
- Acho que sim, posso arrumar minhas coisas agora.
- Perfeito.
...
Flames, Porã e Nicolas partiram de volta para Kings Town no fim da noite, Nicolas ia na garupa de Porã que também estava com um cavalo do exército, os grandes fazendeiros do reino mandavam vários cavalos para o exército para auxiliar na guerra como uma forma de pagamento pela p******o de suas terras, como recompensa o rei diminuía seus impostos já que a maioria dos homens que trabalhavam arando a terra também eram enviados para servir no exército.
Eles chegaram na hospedaria já tarde da noite, vieram o caminho todo observando o brilho fosco das estrelas no céu escuro, várias delas cruzaram o céu naquela noite e segundo as lendas aquilo significava que em algum lugar do mundo um semideus havia morrido e seu pai estava castigando os homens com uma chuva de estrelas, também significava que dias de azar estavam por vir.
Assim que chegaram Flames alugou um quarto na hospedaria, desde que começou a servir dinheiro não lhe era problema, passava tanto tempo servindo ao exército que m*l tinha tempo livre para gastar o ganhava. O dia seguinte seria longo e se tudo desse certo no final dele Flames estaria em um barco em direção as terras desconhecidas que agora era chamada de terra da pedra verde.
...
O sol m*l nasceu e Flames acordou com o dono da hospedaria o batendo na sua porta avisando que vários homens o aguardavam do lado de fora, ele m*l abriu os olhos e já levantou as pressas, jogou uma água gelada no rosto e saiu com Porã e Nicolas, na porta da hospedaria Hayron o esperava com todos os outros membros do seu grupo, tantos homens e cavalos grandes logo chamaram atenção das pessoas, era estanho ver um grupo de guerreiros partindo na direção contraria da guerra.
Não muito tempo depois Uthean os encontrou. - Tudo pronto? Já tem um barco esperando você nas margens do mar, vou acompanha-los até lá. – Uthean falou, com quase duas horas andando a cavalo, atravessando as florestas e riachos do reino ele chegaram até a praia que ficava nas extremidades norte do reino no lado oposto a muralha, um barco simples e pequeno os esperava, não era grande como o primeiro, mas serviria para atravessar o mar, Flames entrou junto com os outros e dois homens já estavam no barco, eram os navegadores que conduziriam o barco até a outra margem.
- Temos que partir logo, espero que nenhum pirata nos encontre, com esse tanto de gente esse barco não aguentaria uma ataque no meio do mar. – Um dos navegadores falou com um tom de brincadeira, mas Flames ficou tenso mesmo assim, cair no meio da imensidão profunda do oceano parecia um pesadelo desesperador para ele que não sabia nadar e sempre evitou águas profundas.
Já no meio do mar tudo parecia mais calmo, o vento no rosto de certa forma era tranquilizador, Flames já não sentia o mesmo receio que sentiu a primeira vez que atravessou aquele mar, ele tinha sentido uma sensação estranha, como se algo assustador o esperasse do outro lado do mar, mas dessa vez era diferente, era como se alguém estivesse em perigo e ele fosse o reforço que tinha que chegar rápido para ajudar.
Flames ficou dois dias no barco esperando ele atravessar o oceano, as conversas e brincadeiras ajudavam o tempo a passar, mas mesmo assim a impressão que ele tinha era que havia passado semanas naquele barco, quando finalmente pôs os pés na areia ele sentiu um alivio tão grande que se pudesse ele abraçaria aquela areia, estar com seus pés em algo fixo era uma sensação que aquele barco fez ele dar valor.
- E agora como vamos encontrar entrada para Abises? – Hayron perguntou.
- Acho que tenho que ficar andando pela floresta, uma hora eu vou vê-la com esse olho. – Disse Flames tão inseguro quanto todos os outros, mas como não havia opções eles fizeram isso.
Com algumas horas de caminhada eles chegaram até a beira de um penhasco, era bastante agradável lá de cima se você não chegasse na beira, ele pararam para fazer um desjejum e após comer resolveram descansar um pouco, Nicolas chegou até a beira do penhasco com muito cuidado e ficou olhando para a imensidão abaixo dos seus pés pensativo, logo puxou seu caderno e começo a fazer anotações, Flames chegou por trás dele e pode perceber que ele escrevia algo sobre a atração que a terra tinha sobre qualquer coisa que não estivesse presa a algo ou sobre uma base firme, Flames não o atrapalhou, somente chegou do seu lado e começou a olhar para baixo também, mas o que ele viu foi estranho, um círculo de luz radiante flutuava a alguns metros abaixo da encosta do precipício, parecia loucura, mas logo Flames percebeu o que era.
- O portal, eu achei. – Flames disse, logo todos chegaram ao lado dele para tentar ver o tal portal, mas tudo que viam era a floresta no final do precipício, nenhum portal nem nada parecido, apenas uma morte certa se alguém vacilasse.
- Não tem nada. – Porã Falou.
- Acho que só eu posso ver. – Flames disse, os outros saíram da beirada do penhasco, pois era arriscado ficar ali e causava uma sensação de desconforto amedrontadora.
- E como vamos atravessá-lo? – Adril perguntou. – Não trouxemos cordas para descer até lá.
- Vamos ter que pular. – Leonardo Falou saindo da mata, antes que vissem quem era todos os que estavam com arcos apontaram flechas para o seu rosto e os outros sacaram suas espadas.
- Calma, ele é um aliado. – Flames disse guardando sua espada.
- Quase não encontro vocês antes de atravessarem o portal. – Leonardo falou, Flames nunca tinha conseguido o enxergar claramente antes, ele parecia tão jovem quanto Flames se não fosse mais, não tinha nada nele que parecesse ser especial, mas Flames sabia que ele era poderoso, ele era m****o do grupo rosas brancas que Miguel liderava e alguém que fazia parte desse grupo não podia ser subestimado.
- Você sabe como atravessar? – Flames perguntou.
- É simples, onde você viu o portal? – Ele perguntou.
- Uns cinco metros abaixo da beira do penhasco. – Flames respondeu apontando para onde era.
- Ele sempre aparece em lugares assim, acho que Filiardo gosta de fazer as pessoas sentirem adrenalina. – Ele disse e em seguida correu e se jogou do penhasco, todos se encararam sem saber o que aconteceu e em seguida correram para a beira do precipício para ver o que aconteceu, mas se surpreenderam ao olhar para baixo e não ver nada, Leonardo não estava mais ali, seu corpo não estava em queda livre e não havia sinal da sua presença, Flames via o portal no mesmo lugar, sem alteração alguma.
- Acho que é isso, façam como ele. – Flames pediu e em seguida correu em direção ao precipício, fechou os olhos e se jogou.
Continua...