3. Vergonha da família

1591 Palavras
Liz Fomos direto para casa da minha família, uma mansão luxuosa e exagerada. A única coisa que me deixava feliz em voltar ali, era rever minha irmã mais nova, Vivian. Ela tem apenas doze anos, a idade que eu tinha quando tudo mudou, quando os Corleones entraram nas nossas vidas de forma mais efetiva. Tudo é como um sistema de castas e a família Gonzalez é baixa na hierarquia, tendo que ceder aos caprichos dos mais altos. E os caprichos é dar nossas garotas em casamento. Eu me lembro que a minha irmã, Eva, nunca aceitou seu destino, o que a fez fugir. Isso provocou um frenesi e manchou o nome de nossa família. Ninguém queria casar com uma família assim, mas agora fui escolhida, Angelo Gutierrez me escolheu, o que deveria ser uma honra, mas para mim era no mínimo estranho. Antes da minha mãe, meu pai teve outro casamento. Ele nunca a mencionou quando estávamos crescendo. Eu nem sei o nome dela. Na verdade, eu só vi uma foto dela uma vez. Isso foi quando eu estava atrasada uma manhã a caminho da escola e precisava pegar o dinheiro do almoço, a carteira do papai era a única que estava por perto. Eu perdi o ônibus naquele dia porque quando a pequena foto em miniatura saiu junto com as notas, fiquei surpresa. Meu pai tinha uma foto de uma estranha em sua carteira. Ele nem mesmo carregava fotos de seus filhos. Ela era linda, lembro-me, de uma maneira muito diferente da minha mãe. Ela tinha os mesmos olhos escuros que meu irmão, exceto que os dela brilhavam e tinha sorriso caloroso dentro deles. Rapidamente enfiei a foto de volta na carteira quando ouvi os saltos altos da minha mãe correndo em direção à cozinha enquanto ela gritava comigo que eu tinha perdido o ônibus. Ela me fez caminhar os seis quilômetros até a escola na chuva. Eu odeio minha mãe. Quando entramos no longo caminho de entrada de nossa casa, a única luz que está acesa no quarto de Vivian se apaga. Olho para a casa. É a primeira vez que o vejo em meio ano. É uma casa ampla e bonita em um beco sem saída em uma rua tranquila. E enquanto eu olho para ela, todos aqueles sentimentos que eu tinha enquanto crescia voltaram, deixando meu estômago irritado e minhas mãos úmidas. Aquelas lembranças eram complexas demais. — Lar doce lar — diz Daniel enquanto desliga o motor do carro. — Por que você não usou o Manuel, motorista do papai? — Vou contratar meu próprio motorista. Não preciso viver nas sombras do papai. — O Manuel é um bom funcionário e pode ser descartado assim. Ele é um homem velho e prestou serviço por anos. Você o demitiu? — O que isso te importa, Liz? Por que está defendendo funcionários agora? Vamos focar no que é importante e economizar energias. Estou cansado e temos um grande dia pela frente. Ele sai do carro e o sigo, alcançando o banco de trás para pegar minha mala. Trouxe alguns livros e algumas mudas de roupa. Na minha cabeça o Daniel estava mentindo e meu pai não estava tão r**m assim e ele me permitiria voltar a estudar. Mas então eu lembro do que ele falou. Você foi escolhida. E eu sei que a faculdade agora é um sonho distante. Eu sigo meu meio-irmão até a porta da frente e espero que ele destranque e abra, então entro mesmo quando minhas pernas ficam pesadas. É como se elas soubessem que quando eu entrar, será muito mais difícil sair. O cheiro do lugar toma conta de mim, sobrecarregando meus sentidos. As velas da minha mãe. Baunilha e canela. Eu sei quanto ela paga por aquelas velas. É um preço ridículo para a cera que vai derreter e desaparecer. Não é um cheiro r**m, mas traz lembranças, coloco minha mão sobre a mesa ao lado da porta para me firmar enquanto o absorvo. A náusea vertiginosa sempre foi tão r**m? Ou é pior agora que estive fora, livre por mais de meio ano? — Eu pensei que você já tinha controlado essa droga de ânsia de vômito e vertigem, Liz. Pare de drama. — diz Daniel. Respiro fundo e viro a cabeça para olhar para ele enquanto a neblina ao redor da minha visão clareia enquanto o suor umedece minha testa. — Estou apenas ansiosa. Tudo piora. — Eu tenho distúrbio do equilíbrio vestibular. Uma doença que causa vertigem, náuseas, vômitos quando passo por momentos de estresse. Geralmente consigo manter sob controle, mas os últimos acontecimentos pioraram tudo. As pessoas que não me conhecem só pensam que sou estabanada. E esse distúrbio me faz perder o equilíbrio e bater ao redor. Mas o pior de tudo é o vômito, que sempre busco controlar para não fazer um estrago. — Controle essa merda e vamos logo. — ele diz, agarrando meu braço e pegando minhas malas com a mão livre. — Isso é quase cavalheiresco da sua parte. — digo enquanto ele me conduz em direção às escadas. — Pelo menos seria se você não estivesse deixando uma marca no meu braço e no meu rosto. — O Daniel já me bateu pior antes e sabia que não devia provocá-lo, mas me sentia mais seguro em casa. O papai nunca permitiu que o Daniel me batesse e esse foi um dos motivos para ele deixar eu me afastar de casa, para longe dos nossos problemas familiares. Eu lembro que o papai brigou com o Daniel quando soube das agressões. — f**a-se, Liz — ele fala irritado, mas solta meu braço. O Daniel pareceu nervoso desde que me bateu e me questiono se ele estava nervoso por saber que o homem que me escolheu não vai gostar de ver meu corpo marcado desta forma. Porque embora tecnicamente, como chefe da família, Daniel me bater e mandar em minha, pelo menos no que diz respeito aos Corleones, ele ainda devia obediência. Minha mente volta para Angelo Gutierrez. Meu futuro marido. Eu já o vi uma vez em algumas ocasiões. Até falei com ele uma vez, mas não tenho certeza se ele me notou. Mas isso foi antes do incidente. Eu me pergunto por que um m****o da família fundadora me escolheria para sua noiva. Será que é porque suas opções diminuíram? Não estou a par de muitos detalhes. Tudo o que sei é que ele se tornou uma espécie de recluso e permaneceu escondido em sua propriedade desde aquela noite. As famílias que compõem a Sociedade são poderosas e os Gutierrez é a maior dela. Chefes de Estado, líderes em todos os setores do governo e religiões. E castas inferiores, como a minha família, que os servem. — Por que Angelo Gutierrez me escolheria? O que você não está me contando, Daniel? Daniel me estuda. — Por que ele se rebaixaria, você quer dizer? Um alto e poderoso Filho Das Sombras tomando uma camponesa por esposa? — Você sabe que esse sistema de castas se adequa a você, não é? Se eu sou uma camponesa aos olhos deles, então o que isso faz de você... Sua mão envolve minha garganta, ele está de costas para a parede antes que eu possa terminar minha frase. A raiva queima dentro de seus olhos enquanto ele me sufoca. Eu agarro seu antebraço, cravando minhas unhas em sua carne. — Daniel! Ele afrouxa seu aperto o suficiente para que eu possa virar minha cabeça para olhar para onde minha mãe está de pé, amarrando seu roupão de seda cor de creme em torno de si. Seu olhar se move para mim, depois de volta para ele. — Não a machuque. Ela não é sua. Se você deixar uma marca nela, você não sabe o que ele vai fazer. Não sei o que mais me surpreende o fato da minha mãe estar intervindo ou o fato de Daniel parecer ouvi-la. Ele a odeia. E eu sei que ela tem medo dele, mesmo ela tentando esconder. Daniel volta seu olhar para mim. Ele aperta sua mão novamente e traz seu rosto para junto do seu. — Você acha que pode me irritar? — Ele me solta, então dá um passo para trás apenas o suficiente para me olhar. — Você será colocada em seu lugar amanhã. Não apenas enviarei para a forca, mas ficarei feliz em ficar parado e assistir. Eu engulo em seco, minha mão em volta da minha garganta. Ele me odeia. Eu sei disso. Mas seu tom, e o seu olhar, me aterroriza. Daniel se vira e sobe as escadas, deixando minhas malas onde estão. Ele passa por minha mãe sem dizer uma palavra e desaparece em seu quarto. Eu permaneço onde estou e olho para ela. Ainda linda, mesmo sendo acordada no meio da noite. Ainda tão fria como sempre. — Você está aqui há dois minutos e já está causando problemas — fala ríspida. E lá está a mulher fria, que me odeia. — É bom ver você também, mãe. — eu digo, me inclinando para pegar minhas malas. Estou ansiosa para ir para o meu quarto, bem longe dela. Agarro o corrimão e subo as escadas enquanto tento acalmar meu coração e o tremor das minhas mãos. Ela cruza os braços sobre o peito e me observa enquanto caminho pelo corredor até meu antigo quarto. Abro a porta e estou prestes a entrar quando ela chama meu nome. — Liz. Me viro, a olhando com a mão na maçaneta. — Não nos envergonhe.
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