Nota da autora: Essa história tem como fundo a máfia espanhola. Todos os elementos são fictícios e criados pela autora.
Sevilha - Espanha
Liz
Eu acho que estou sendo seguida.
Não sei porque tive essa ligeira impressão ao sair da faculdade. Um carro preto insistia em andar ao meu lado por todo trajeto. Com os vidros escuros, não dava para ver quem era.
Resolvi não arriscar e corri para outro lado da rua, sempre com a cabeça abaixada para me proteger da chuva. Ando até o meu prédio, segurando a minha bolsa velha, ignorando o carro que supostamente me seguia. Dou uma breve corrida até estar segura no prédio.
Passo pelo estacionamento e noto um carro estranho, diferente e que não me pertence. É um carro de luxo, caro e elegante. Meu coração dispara de nervosismo.
Pelo para-brisa, vejo que não há ninguém lá dentro, então me aproximo alguns passos, se eu tivesse alguma dúvida sobre a quem pertencia aquele carro, ela foi apagada no momento em que olhei para dentro do carro.
Mesmo com o vidro embaçado, notei o brasão da família Gonzalez pendurado no visor. Estremeço pelo frio da chuva e pelo medo. Não sabia se a visita era do meu pai ou de alguém mais c***l da minha família.
Eu sempre soube que esse momento chegaria, o dia que eles viriam me buscar e eu teria que ir, mesmo forçada. Eu poderia fugir dali, seguir o meu destino, sumir do radar dos Gonzalez, mas não, decidi enfrentar de cabeça erguida e entrei no prédio.
Tento espantar os pensamentos ruins, não precisava ser algo r**m necessariamente, talvez meu pai tenha vindo para uma visita surpresa. O meu maior medo, é que não fosse o meu pai e sim o meu irmão.
Já dentro do prédio, paro e respiro fundo. Repito para mim mesmo que não é nada r**m. O carro pode ser do papai.
Mas o carro não tinha motorista, o papai nunca dirigia.
Subo as escadas para meu apartamento no segundo andar, procurando um sinal de alguém conhecido, mas nenhum sinal.
Quando ando pelo corredor vejo que a porta do meu apartamento está entreaberta. Meu pai tem as chaves e poderia entrar, mas por que deixar a porta aberta?
Observo que há luzes acesas dentro do apartamento, mas não vejo ninguém. Tenho um pressentimento e um desejo imenso de fugir.
Abro a porta, mas não entro. Fico de pé na frente da porta, observando com cautela. As luzes acesas vem do meu quarto.
Respiro fundo e entro, disposta a enfrentar o que vier. Não fecho a porta atrás de mim, para o caso de precisar dar meia volta. No balcão está um molho de chaves, um par de luvas de couro pretas desgastadas ao lado delas.
Mas é quando sinto o cheiro da loção pós-barba que meu estômago queima.
Não é o papai.
Como se estivesse ouvindo meus pensamentos, meu meio-irmão, Daniel, atravessa a porta do quarto e entra na sala. Ele para diante de mim e me analisa.
— Você não tem um guarda-chuva? — questiona. São as primeiras palavras que ele me diz em muito tempo.
Tiro a bolsa das costas, depois o casaco, tentando me manter firme e calma. Talvez se demonstrasse força e não fraqueza, ele fosse rápido em sua visita.
— O que você está fazendo aqui, Daniel? Como você conseguiu uma chave?
Ele dá um passo em minha direção, me obrigando a me afastar. Eu o odeio e tenho medo dele por diversos motivos que não gosto de mencionar.
O Daniel abre um meio sorriso e percebo que ele notou o meu medo.
— É bom ver você também, maninha. Não me oferece nada para beber? — Ele passa por mim até a cozinha, se agarrando a única garrafa de uísque que guardo na casa para visitas Eu não bebo e nem costumo receber ninguém, mas gosto de pensar que um dia irei receber. Ele abre, cheira, então pega um copo limpo do escorredor e se serve. — Você deveria estar bebendo? — ele pergunta, virando-se para mim e se inclinando contra o balcão enquanto toma um gole.
— Não é para mim. É para visitas. O que você está fazendo aqui?
— Não posso visitar minha irmã?
Eu não me incomodo em responder isso. Daniel e eu temos uma relação de puro ódio. Ele me odeia, eu o odeio. Isso desde o primeiro dia. Ele é um completo i****a.
— Por que você está tão atrasada? — ele pergunta, ríspido. Caminhando até minha mesa, vejo que ele vasculhou minha agenda e minhas anotações sobre aulas. Eu me pergunto o que ele pensou que encontraria.
— Eu tive que trabalhar. Por que você está aqui, Daniel? — Fecho a agenda. Não há nada que ele descobriria de qualquer maneira, então não estou preocupada com isso. Conheço as regras e conheço a mim mesma. Por mais que eu queira dizer que não me importo com elas ou com as consequências, eu me importo.
— A biblioteca fechou há uma hora. Você ainda estava trabalhando?
— Eu preciso trabalhar. E como você sabe o horário da biblioteca? Você está me seguindo, Daniel? O papai me deixou estar aqui, você sabe...
— Espero que você não esteja mentindo, Liz. Espero que você não esteja encontrando com alguém por aí. — Ele me olha, furioso. Era isso que o preocupava, afinal. Eu andar por aí com outros homens.
Ele engole o resto de sua bebida, coloca o copo na pia e entra na sala de estar.
— É por isso que você estava olhando minha agenda?
Ele sorri.
— Eu tenho más notícias. — encolhe os ombros. — E algumas boas notícias. Qual você quer ouvir primeiro, Liz?
Aquele pressentimento r**m que tive ao entrar ali, se intensificou. Coloco minha mão no encosto da cadeira para me manter no lugar. Meu coração dispara a mil por hora.
— Não desmaie, p***a. Não comece um drama aqui. Como eu disse, não são apenas más noticiais.
— O que é? Fale logo!
— O papai está doente.
A forma que Daniel fala, parece que ele está feliz com a notícia. Nós nunca fomos uma família unida e ele sempre foi bastante distante, mas não esperava que fosse tão frio.
— O que você quer dizer com isso?
— Quero dizer, ele teve algum tipo de ataque...
— Ataque? Como um ataque do coração?
— Deixe-me terminar. — diz ele, sentando-se no sofá e esticando um braço nas costas dele. Com a outra mão, ele toca o pequeno buraco na almofada ao lado. Uma queimadura de cigarro, eu acho. — Você está fumando, Liz? — ele pergunta, parecendo genuinamente chocado.
— Os móveis vieram com o apartamento. Já era assim. O que aconteceu com o papai? — Pego minha bolsa e procuro meu celular.
— Isso não vai adiantar nada. — diz ele quando vê o telefone na minha mão. — Papai não pode atender o telefone agora. — seu tom é estranho, sinistro.
— O que há de errado com você? — Eu aperto o botão para ligar para o papai, nas vai direto para a caixa postal. Tento ligar para a minha mãe, mas só chama.
Daniel se levanta, pegando meu telefone de mim com um puxão. Ele desliga e enfia o telefone no bolso.
Olho para meu meio-irmão mais velho, que agora tem uma expressão sombria no rosto.
O Daniel é oito anos mais velho que eu, e é fruto do primeiro casamento do meu pai. Do segundo casamento, nasceu eu e mais duas irmãs, eu sou a do meio.
Meu pai assumiu a segunda família como dele e reconheceu, abandonando a primeira mulher, consequentemente. Acho que o Daniel nunca aceitou bem e sempre nos odiou. Mas nós não tínhamos culpa das escolhas do meu pai.
— Ele está em coma. Eles estão fazendo testes, mas não parece bem. — fala, finalmente.
— O quê? Como? Quando?
— Dois dias atrás.
— E você está apenas me dizendo agora? Onde ele está?
— No Hospital. Onde você acha que ele estaria?
— Qual hospital?
Ele me olha como se eu fosse estúpida. Eu sei qual hospital. Os membros dos Corleones só vão a um.
Eu me viro e corro para o meu quarto para pegar algumas coisas. Eu estou indo para casa. Tenho que ir. Deus. Nunca pensei que voltaria por vontade própria.
— Você não quer ouvir as boas notícias? — Daniel me pergunta da porta.
Eu olho para ele enquanto ele casualmente se inclina contra a porta.
— Não, eu não quero. O papai está no hospital e preciso ir vê-lo. Descobrir o que está acontecendo, já que você não me conta nada.
Ele entra no quarto.
— Vou lhe dizer o que acho que você precisa saber.
— Você pelo menos se importa com o papai, Daniel?
Ele olha para mim como se estivesse confuso com a minha pergunta.
O ignoro, vasculhando embaixo da minha cama por uma mala. A coloco na cama e abro.
— Saia daqui, Daniel. Eu preciso fazer a minha mala. — abro a gaveta e recolho algumas roupas. O Daniel ainda me olha da porta. — O que está fazendo aí parado me olhando?
— Só estou olhando a sua burrice, Liz. Você não vai precisar de nada disso. — diz ele, caminhando em minha direção e pegando meu pulso. — Alguém vai limpar o apartamento, mas não há tempo para isso agora. Deixe essas coisas aí.
Olho para o pulso, que ele segura firme. Seu aperto é forte e me machuca. O encaro com firmeza, seus olhos estão escuros e vazios. Desde que eu era uma garotinha, sua crueldade e frieza sempre me assustaram.
— Solte-me.
Ele não solta. Em vez disso, ele segura outro pulso.
— Nós precisamos ir.
— Eu não vou com você. Eu tenho meu próprio carro. Eu posso...
— Eu disse que precisamos ir. — ele grita.
Um sentimento de pavor toma conta de mim. Uma ansiedade familiar. Eu já tinha visto o Daniel furioso antes e as coisas ficaram feias na época.
Tento processar o que ele disse um momento atrás. Que alguém virá limpar o apartamento.
— Me solte.
— Você não ouviu as boas notícias, Liz — diz ele, em tom sério. — Chegou a hora de você cumprir seu dever para com a família. Você foi escolhida. — acrescenta quase formalmente.
Meu coração acelera, sinto uma náusea apertando meu estômago.
Eu fui escolhida. Eu não era a filha mais nova, mas ainda assim sempre houve a possibilidade.
Por um tempo achei que isso não iria acontecer, não depois do que aconteceu com a minha irmã, Eva. Imaginei que nenhum m****o da Corleones iria nos querer.
— O que você quer dizer? — pergunto, minha garganta seca.
O Daniel solta meu pulso e segura minha mandíbula, virando minha cabeça para que eu olhe para ele. Tento desviar o olhar, mas ele aperta mais firmemente a minha mandíbula. Eu sei o que ele quer, então eu faço. Me forço a olhar para ele, mesmo que isso doa na minha alma.
Ele trava o maxilar, sinto a fúria exalar de seus olhos negros. Eu sabia que se reagisse, não acabaria bem, mas todo o meu corpo me induzia a lutar contra ele.
— Você é bonita, Liz. Muito bonita. Você sabe que adoro o seu sangue latino, não é?
— Me solte, Daniel. Por favor. — choraminguei. Na minha cabeça, implorar era a única forma dele me soltar.
— Você parece com a v***a da sua mãe. — ele apertou mais forte a minha mandíbula.
Na verdade, eu puxei o lado da família do meu pai, com pele clara e cabelos loiros. Olhos verdes são tudo que herdei de minha mãe.
Meu irmão fez uma cara de desgosto.
— Você foi escolhida. Só Deus sabe por que, mas ele escolheu você.
Ele me solta, quase me jogando fora, como se eu fosse um lenço de papel usado.
Abraço o suéter que ainda estou segurando e tento me concentrar no que importa.
— Eu vou ver o papai. Depois volto para a faculdade.
— Não, você não vai. Esse sonho acabou. Nunca deveria ter sido permitido em primeiro lugar. Seu egoísmo causou muitos problemas, Liz.
O suor escorre pela minha nuca. Eu mantenho o olhar de Daniel enquanto a sala ao redor dele gira.
— Eu não vou. — murmuro.
— Eu sou o chefe desta casa agora. Eu vou dizer onde você vai e onde não vai. Você vai fazer o que eu mandar, e você não vai envergonhar esta família novamente.
Ele está mencionando a minha irmã, Eva, ela que envergonhou a família fugindo. Ele ficou tão zangado quando ela partiu, que ele mesmo queria ir atrás dela. Encontrá-la e arrastá-la de volta, chutando e gritando. Depois disso, parece que ele me odiou um pouco mais, sempre deixando claro o seu ódio.
— Daniel...
— Você não quer nem saber quem é? — Não sei dizer se o sorriso dele era de orgulho ou rancor.
— Eu não me importo com quem é. Eu não vou fazer isso. Eu não sou...
— Sim, você vai, querida irmã. Nem que eu mesmo tenha que arrastá-la para o altar. — Ele pega meu braço e começa a me levar para fora do quarto, andando pelo apartamento. — Há muito o que fazer antes do casamento e pouco tempo. Ele certamente está ansioso para colocar as mãos em você.
Eu me afasto, tentando me libertar.
— Pare. Não vou com você e não vou me casar com um estranho! — Eu agarro a parte de trás do sofá. É e******o, eu sei, mas é tudo o que posso fazer. — Me solte!
Daniel me puxa com força, me obrigando a soltar o sofá.
— Você está agindo como uma p***a de um bebê, Liz.
— Nosso pai não permitiria isso!
Ele para, então me solta. Ele inclina a cabeça para me estudar e o olhar em seu rosto é o suficiente para me fazer recuar enquanto ele avança sobre mim.
Eu coloco meus braços para cima em defesa, mas ele agarra meus pulsos para afastá-los do caminho. Quando as costas da mão dele batem no meu rosto, ele simultaneamente me empurra, me fazendo voar contra a parede.
Estou atordoada, tanto pela violência quanto pela dor do golpe. Por um momento, a sala fica escura. Eu escorrego para o chão, minha mão na minha bochecha. Arde, é quente e a parte de trás da minha cabeça lateja. Meu corpo todo dói devido à batida contra a parede.
— Merda. — Ele se abaixa e me puxa pelos braços. — Viu o que você me fez fazer? — ele grita com os dentes cerrados.
Sinto uma lágrima escorrer pelo meu rosto, enquanto tento focar minha visão. Não quero chorar, nem ter medo. Eu tinha que saber que esse dia chegaria e que preciso fazer exatamente como ele diz. Por um minuto, pensei que meu pai havia me protegido e não me deixaria sofrer esse destino.
Eu só queria estudar, trabalhar, viver uma vida normal, não casar com um desconhecido.
— Eu quero ver o papai.
— Eu já te disse...
— Primeiro deixe-me vê-lo.
Ele considera.
— Agora você está sendo razoável.
Ele me solta, dá um passo para trás, posso ver em seu rosto que ele está em dúvida sobre o que acabou de acontecer. Ele poderia me bater bem mais, ele já fez isso antes. Poderia me levar embora a força e só me casar, mas não o fez. Eu me pergunto se isso tem a ver com quem me escolheu.
Escolhida.
Deus. Os Corleones não percebem que não vivemos mais na Idade da Pedra?
Ele verifica o relógio novamente.
— Nós precisamos ir.
— Eu só quero pegar algumas coisas.
Ele cerra a mandíbula, mas acena com a cabeça uma vez.
— Cinco minutos. Estarei lá embaixo.
— Está bem.
— Não tente fugir, Liz. Enviarei soldados atrás de você se você fugir e dessa vez não serei razoável.
— Para onde eu iria, Daniel?
Ele me estuda, olhos estreitos de ódio, então caminha até a porta.
— Quem é ele? — falo, assim que ele chega à porta.
Ele para e se vira para mim. Sorri como se tivesse saído vitorioso.
— Agora você quer saber quem?
— Apenas me diga.
Seu sorriso desaparece. Na verdade, todas as emoções, exceto o ódio, desaparecem.
— É apropriado, na verdade.
Eu o encaro, sem entender.
— O que você quer dizer?
— Vou deixar você ver por si mesma.
— Quem é, Daniel?
— Angelo Gutierrez.