capítulo 3

1977 Palavras
Ela entrou na sala como se fosse uma rainha. Impecável. Maquiada demais para um domingo. E já com aquela expressão de quem tinha algo a dizer, mesmo que disfarçado de conversa casual. — Shirley — falou meu pai, confuso pelo tom de voz dela que, por um instante, deixou a máscara cair, revelando um vacilar na sua verdadeira face. Mas logo ela recompôs a postura, colocando de volta a máscara de boa moça, sorrindo doce após a pergunta dele, escondendo bem a traiçoeira intenção por trás daquele olhar. — Boa tarde, mamãe, papai — sentou na minha frente. — Ele vive cuidando de você como se fosse sua babá. Isso é meio… — deu uma pausa dramática — engraçado. Mas bonitinho, até. — ironizou Shirley, com aquele tom doce e fingidamente inocente, que esconde perfeitamente a malícia por trás das palavras. Shirley podia tentar me ferir com palavras disfarçadas de cuidado, envolver cada farpa em um tom doce e um sorriso ensaiado… mas eu sei quem ela é de verdade. Por trás da voz suave, dos gestos delicados e dos olhos fingidamente preocupados, vive alguém que se alimenta do meu desconforto. Ela aprendeu a disfarçar o veneno com afeto, a mascarar o desprezo com bondade. Mas eu aprendi a enxergar além. Porque conviver com ela é como dormir ao lado de uma cobra: cedo ou tarde, ela mostra os dentes. ……… Eu descia as escadas em silêncio, distraída, quando ouvi a voz da Shirley vindo da sala. Ela falava com nossa mãe — voz doce demais pra ser sincera, como sempre que queria parecer inocente. — Então, mãe… você viu que o Noah terminou com a Sandra? Meu pé parou no meio do degrau. O nome dele. Como sempre, desafiando o meu coração. — Terminou? — mamãe perguntou, surpresa. — Mas eles estavam juntos há tanto tempo... — Um ano, né? — respondeu Shirley, como quem está falando de um filme r**m que finalmente acabou. — Mas era questão de tempo. Ele nunca foi de se jogar de verdade... sempre meio fechado. Meio distante. Verdade, com os outros ele sempre foi distante, mas comigo ele sempre foi diferente. Ela fez uma pausa teatral. Eu sabia reconhecer quando Shirley estava se divertindo. E aquilo, de algum jeito, era diversão pra ela. — A Sandra ficou arrasada. Apagou tudo das redes. Até aquela foto dos dois em Paris sumiu. — Ela riu baixinho. — Postou uma frase tipo “me perdi tentando te amar”. Um clássico, né? Minha mão apertou o corrimão. O coração deu um passo antes de mim. Noah não tinha me dito nada. E a gente ainda se falava. Não era como antes. Shirley continuou, como se estivesse apenas comentando o clima: — Mas, quer saber? Acho que ela nunca mereceu ele. Eu a odiava. Sempre foi falsa. — disse em um tom leve, quase sorrindo, como se não tivesse acabado de cuspir veneno disfarçado de opinião. — Shirley! — gritou minha mãe, indignada, olhando pra ela com reprovação. — Que coisa feia de se dizer! A Sandra sempre foi educada com você. Uma moça doce. Mentira e mentira. A Sandra era uma boa pessoa. Gentil, até comigo, mesmo sabendo que eu tinha uma paixonite pelo Noah. Sempre me tratou com respeito — talvez até com mais cuidado do que eu merecia. Mas Shirley nunca suportou isso. Gente boa demais sempre incomodava ela. Talvez porque fosse difícil competir quando a outra não jogava o mesmo jogo. Eu fiquei em silêncio, mas por dentro reconhecia o movimento: Shirley atacava pelas beiradas. Sempre fez isso. Falava de alguém como se estivesse defendendo, depois virava e mostrava a faca. E mesmo com tudo isso, uma única frase martelava na minha cabeça como um segredo urgente: Ele terminou. …….. Subi para o meu quarto com o coração acelerado, tentando me acalmar. Os dedos tremiam um pouco contra o corrimão, como se carregassem uma urgência que o resto do corpo ainda tentava ignorar. Subi dois, três degraus... e então parei, no meio da escada, com um pensamento em mente. "Meu aniversário está chegando." Engoli em seco. "Não posso pensar nisso agora. Não agora." Agora eu precisava saber como o Noah estava. O resto... o que vier depois, pode esperar. Três anos. Três anos esperando esse momento — mesmo que em silêncio, mesmo que escondido até de mim mesma. "Você estava esperando por isso há três anos." Mas a frase seguinte veio como uma ferida reaberta: "Isso foi antes de ele se apaixonar pela Sandra." Fechei os olhos por um segundo. Como se tentar não sentir fosse o mesmo que deixar de lembrar. Mas eu lembrava. De quando ele me prometeu… E do modo como se afastou, de como me machucou, não com palavras — mas com silêncios que matavam. Sacudi a cabeça e subi o resto da escada como quem foge de um incêndio. No quarto, fechei a porta devagar. Me sentei na cama, celular na mão, e os números vieram sem esforço. Chamando... O som do toque me fazia esquecer de respirar. Uma. Duas. Três vezes. — Alô? A voz dele. Quente, familiar, um pouco rouca. — Oi — minha voz saiu antes que eu conseguisse preparar uma versão melhor de mim. Silêncio. — Ayla... — ele disse, e era como se meu nome pesasse no ar, cheio de memórias que ele ainda não sabia se podia tocar, éramos tão próximos. Mas minhas confissões devem ter sido o motivo do nosso distanciamento. — Para de pensar demais Cuore, não tem nada a ver com você. — até parece que está lendo a minha mente. — Consigo ver essas rugas entre as sobrancelhas daqui. — Não liguei para falar de mim — cortei. — Como você está? Silêncio Me encolhi um pouco, cruzando uma perna por cima da outra, tentando parecer firme mesmo que ele não estivesse vendo. — Eu ouvi sobre você e a Sandra — falei direto, sem rodeios. Mais silêncio. Depois, um suspiro do outro lado. — É claro que ouviu — murmurou, como se soubesse exatamente de onde vinha a informação. — Eu ia te contar — ele disse. — Mas achei que... você não quisesse saber. — E por quê eu não ia querer? — Minha testa se franziu, confusa Ouvi sua respiração. Lenta. Tensa. — Porque... — a voz dele vacilou — a gente não fala sobre essas coisas. Não mais. — Mas a gente ainda fala, Noah — rebati, mais afiada que pretendia — Não como antes... mas fala. — Eu sei. — ele disse por fim. — Mas eu nunca soube até onde posso ir com você agora. — Você pode ser honesto — soltei. — Mesmo que doa. Silêncio. — Então tá — ele disse. — Terminamos. Foi uma decisão minha. Não tinha mais por onde continuar. Engoli em seco, porque parte de mim queria saber por quê, e a outra parte temia ouvir o motivo real. — Você ainda ama ela? Houve uma pausa longa. — Eu tentei — ele respondeu. — De verdade. Ela era tudo certo. Tudo no lugar. Mas… Mais silêncio, seguida de uma respiração longa. — Mas? — perguntei com o coração martelando mais forte no meu peito. Não duvido nada de que ele esteja escutando através da ligação. — Mas, esse relacionamento não me trouxe nada que eu queria, eu sinto a sua falta Cuore. Meus olhos arderam na mesma hora. As palavras me atingiram como uma onda, mas não era dor. Era algo mais antigo. Era saudade. E ele percebeu. — Desculpa — murmurou. — Não. Não pede desculpa. A verdade era que eu precisava ouvir aquilo. — Ayla — ele disse meu nome outra vez, dessa vez com mais firmeza. — Eu não te procurei antes porque achei que estivesse machucando você. Estava. Mas não da forma que ele pensava. A ausência dele sangrava mais do que qualquer coisa. — A distância doeu, e muito, muito mais que tudo — falei o meu pensamento em voz alta. — Eu gostava da Sandra. — Gostava? — perguntou confuso. — Ela fazia o meu melhor amigo feliz, isso pra mim é o que importava. — murmurei. — Agora não tem mais volta. — ele disse enfim. — Agora acabou. Fechei os olhos por um segundo, segurando o celular contra o ouvido. — Você parece... triste com isso — falei devagar. — Porque eu falhei com ela, com você — ele confessou. — E, principalmente, comigo mesmo. Minha garganta apertou. Ele nunca tinha dito essas coisas em voz alta. Nem quando a gente se afastou, nem durante os meses em que fingimos que a distância era confortável. E ouvir isso agora... doeu. Mas era uma dor estranha. Quase boa. — Noah... — minha voz saiu baixa, embargada. — Por que você tá me dizendo isso agora? — Porque eu não quero mais fingir que tá tudo bem. Porque você ainda é meu pequeno coração. — Cuore, coração, assim que ele me chama. — Posso te ver? Fiquei muda por um segundo — Agora? — Ou amanhã, ou quando você quiser. Mas eu... eu preciso te ver, Ayla. De verdade. Respirei fundo, uma, duas vezes. — Você ainda continua morando no mesmo lugar? — perguntei soltando uma risada, minha voz saiu brincalhona, como se estivesse provocando, sabendo que ele continua morando aqui ao lado. Do outro lado, uma risada rouca abafada. — Ainda, sim — ele respondeu, com um tom que misturava alívio e nostalgia. — A menos que tenham mudado minha casa de endereço e eu não percebi. — Estranho — fingir ficar confusa — Continuei morando esses três anos aqui e nem percebi que você ainda estava lá — provoquei de leve, me levantando da cama com o celular ainda colado no ouvido. — Você percebeu sim — ele disse, e eu podia quase ver o meio sorriso na voz dele. — Só fingiu que não. Silêncio. Mas agora era outro tipo de silêncio. Confortável. Quase cúmplice. Como se estivéssemos sorrindo um para o outro mesmo separados por uma parede e uma ligação. Eu me virei de costas para a cama, olhando pela janela. E ali estava — a casa dele, a poucos passos. As luzes acesas no quarto dele, como se também estivessem esperando alguma coisa. Como se ele estivesse esperando por mim esse tempo todo. — A gente ficou bom nisso, né? — murmurei. — Em fingir. — Bons até demais — ele respondeu. — Mas eu tô cansado de fingir, Cuore. Meus olhos se fecharam, segurando o peso das palavras. — Eu também estou. — murmurei. — Então... nos vemos em breve? — perguntei, tentando soar casual, mas com as mãos geladas. — Daqui a pouco — ele disse firme. Meu coração falhou uma batida. Eu engoli o nervosismo, mas ele escapou mesmo assim: — Hoje? — soltei, com um gritinho nervoso que escapou antes que eu pudesse disfarçar. Do outro lado da linha, a risada dele veio baixa, carinhosa, como se estivesse me vendo. — É… hoje. Agora. Se você deixar. — Agora tipo… agora, agora? — perguntei nervosa — Tipo “vou atravessar a rua e bater na sua porta”?. — Eu estou indo — falou decidido. — Abre a porta pra mim? — A porta nunca está trancada pra você — falei com o coração acelerado — Meus pais amam você, e você sabe disso. — Tem tanto tempo que eu não vou aí — escutei um farfalhar — Espera um minuto, vou colocar uma camisa. Minha imaginação está voando longe. Escutei o Noah me chamar: — Você ainda está aí? — perguntou. — Você sabe que não precisa colocar camisa certo? — perguntei com malicia na voz — Você não mudou nada né? — perguntou irônico. — Não mudei, só te respeitava, e respeitava a Sandra. — dei de ombro como se ele pudesse ver.
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