A laje tava quente, mas o vento ajudava. A brisa subia cortando o abafado do fim da tarde, trazendo o cheiro da comida dos vizinhos e o barulho distante de crianças jogando bola na rua de baixo. Eu me sentei ali, no chão mesmo, costas contra a caixa d'água, cigarro apagado entre os dedos, só pelo hábito. Kevin tinha descido com minha mãe pra tomar banho e jantar. Tava mais calado do que o normal, mas fingindo que tava bem. Como eu.
Fiquei olhando pro céu. Azul desbotado. Algumas nuvens soltas. O tipo de silêncio que dá espaço pra cabeça fazer barulho. E a minha fazia.
A cena na esquina, a cara da Fernanda virando como se Kevin fosse vento. O moleque tentando disfarçar a tristeza. Eu tentando disfarçar a raiva. Tudo pesava mais ali em cima.
Ouvi os passos pesados na escada antes mesmo de ver meu pai.
Ele apareceu no topo da laje com a cara de sempre, séria, mas não brava. Sentou ao meu lado com a calma de quem já tinha vivido o suficiente pra não perguntar nada logo de cara.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. O suficiente pra saber que ele não tinha subido só por subir.
— Vi a cara do menino quando chegou — ele disse, sem olhar pra mim.
Assenti devagar, sem falar.
— A mãe dele?
— É. Ela não muda. Nunca vai.
Ele respirou fundo, apoiando os cotovelos nos joelhos.
— E você? Vai continuar tentando cobrir o que falta nela com brinquedo e doce?
Não respondi.
Ele olhou pro horizonte, como se fosse buscar a resposta ali.
— Filho... tem coisa que a gente não consegue consertar. E mulher que abandona filho é uma delas.
— Eu sei.
— Mas a gente tem que garantir que o menino nunca pense que a culpa é dele. Porque é isso que fica. — Ele fez uma pausa. — Cê lembra da tua irmã quando era pequena? A Lara chorava toda vez que eu saía. Tua mãe dizia que era birra. Mas não era. Ela achava que eu não ia voltar.
Assenti, devagar.
— E você? Você cresceu sem chorar, sem pedir nada. Sempre calado. Eu achava que era força. Hoje vejo que era medo.
Fechei os olhos, sentindo aquela pontada no peito que só vem quando alguém acerta na ferida sem avisar.
— Eu tô tentando, pai — falei baixo. — Mas tem hora que parece que é pouco. Que não vai ser suficiente.
— Talvez não seja mesmo. Mas tenta mesmo assim. Porque ele é teu. E porque, se ele tiver você firme, vai aprender a viver sem ela.
Ficamos quietos mais um tempo. Ele se levantou com o estalo dos ossos das costas, como sempre fazia, e bateu na minha nuca de leve antes de descer.
— E outra coisa... Não tenta ser perfeito, não. Tenta ser constante. Criança entende o que é ficar.
Assenti, com os olhos no chão.
— Valeu.
— E desce pra comer. Tua mãe fez arroz com bacon. Tá com cheiro bom demais pra tu ficar aí bancando o dramático.
Ele desceu, resmungando que a escada parecia mais íngreme com a idade. Fiquei mais um minuto olhando pro céu.
(…)
O arroz tava mesmo com cheiro bom, e minha mãe ainda fez farofa daquelas que gruda na colher. A mesa tava cheia, Bento falando alto, Davi provocando Luísa, Mariana mandando todo mundo calar a boca e comer. Kevin tava mais calmo, mas voltou a sorrir quando eu roubei o último pedaço de linguiça do prato dele só pra ele brigar de brincadeira.
Por alguns minutos, o mundo parecia leve de novo. Mas não durava. No meu celular, duas mensagens já piscavam com urgência. Problema na distribuição. Moto parada. Dois moleques novos com rádio trocado, falando o que não devia na frequência da facção rival.
Nada fora do controle. Mas o tipo de coisa que, se não resolve rápido, vira bomba.
Levantei da mesa com a arma já presa na cintura e as chaves da moto no bolso. Mariana nem perguntou, só lançou aquele olhar cansado que ela dava toda vez que algum dos filhos saía depois do jantar com cara de quem ia pro lado de lá da cidade
— Vai onde? — meu pai perguntou, encostado no batente da cozinha.
— Resolver um negócio.
— Volta hoje?
— Se tudo correr certo.
Ele só assentiu. O tipo de conversa curta que a gente já se entendia sem precisar falar muito. Dei um beijo na cabeça do Kevin, que segurou meu braço.
— Você volta antes de eu dormir?
— Se você dormir rápido, talvez me veja no sonho.
— Quero ver você de verdade.
— Eu vou tentar.
A moto cortou o morro com o ronco grave que todo mundo já reconhecia. Eu não usava capacete, era regra ali. Nas favelas do Rio, capacete é disfarce. E homem que anda escondido é homem que tem algo a temer. Eu não escondia nada e quem me visse, sabia: era melhor não mexer.
Já era noite e o morro começava a se transformar. A luz dos postes intercalava com os becos escuros, e as bocas começavam a ficar mais movimentadas. Gente comprando, rádio chiando, motos indo e vindo, os meninos de plantão com a mão no rádio e o olho no fluxo.
Eu passava devagar, cumprimentando com a cabeça.
Todo mundo respondia. Respeito era silencioso. Mas foi numa das esquinas da subida principal que eu vi.
Sarah sozinha, subindo a ladeira a passos curtos, a mochila pendendo num ombro só, o uniforme da farmácia amarrotado, o coque frouxo e o rosto virado pra frente sem olhar pros lados. Andava como quem queria desaparecer. Como quem carregava o mundo nas costas e mais um pouco.
Reduzi o acelerador. Fiquei devagar atrás dela, por um segundo, só observando. O corpo curvado. Os ombros fechados. Aquela aura de cansaço que parecia gritar mesmo em silêncio.
Eu podia ter passado direto. Podia fingir que não vi. Mas não consegui.
— Sarah.
Ela se virou devagar, como se não tivesse certeza de que era com ela. Quando me viu, pareceu travar por dentro.
— Oi... — respondeu, a voz baixa, quase engolida pelo barulho da rua.
— Tá voltando agora?
Ela assentiu com um movimento pequeno de cabeça.
— O serviço te segura até essa hora?
— Hoje sim. Tava cobrindo uma colega.
— E subiu o morro sozinha?
Ela deu de ombros, como quem já não se espanta com nada.
— É o caminho de sempre.
Fiquei em silêncio por um segundo, com a mão ainda no guidão.
— Sobe aí.
Ela franziu a testa, confusa.
— Hã?
— Na garupa. Te deixo em casa.
— Não precisa, eu já tô chegando.
— Eu sei. Mas não gosto de ver ninguém subindo sozinha nesse horário. Ainda mais você.
Ela hesitou. Olhou pro lado, como se quisesse fugir do momento. Como se aceitar ajuda fosse pior que o cansaço.
— Eu tô bem, de verdade.
— Não tô perguntando se você tá bem. Tô dizendo pra subir.
A voz saiu firme, mas sem dureza.
Ela encarou a moto, depois olhou pra mim. Parecia pesar as opções, como se o medo de aceitar fosse quase do tamanho do medo de continuar andando.
— Você tá indo pra onde?
— Resolver umas coisas ali em cima. Te deixo no caminho.
Ela ainda hesitou mais um segundo. Depois assentiu com um mínimo movimento e subiu na garupa com cuidado, segurando na alça lateral.
Não encostou em mim. Nem soltou uma palavra.Mas quando acelerei devagar, senti a respiração dela: Fraca, irregular. Como se estivesse segurando tudo o que queria desabar.