Acordei antes do sol. Antes do despertador. Antes de qualquer barulho da rua.
Passei a mão pelo rosto devagar, sentindo o latejar leve no osso da bochecha. A pele estava sensível, quente, mas não roxa o bastante para chamar atenção de longe. Ainda assim, eu sabia onde cada marca estava, cada ponto onde a dor insistia em lembrar o que tinha acontecido ontem.
Levantei devagar, respirando fundo. O quarto estava gelado. O silêncio pesado. Nem minha mãe se mexia na casa. Fui direto pro espelho rachado do banheiro. Liguei a luz fraca e analisei o estrago.
Uma marca amarelada perto da maçã do rosto. Outra na lateral do maxilar. Um leve inchaço na clavícula, onde bati na quina da mesa. E uma vermelhidão no braço.
Nenhuma era chocante. Mas todas eram minhas e todas tinham nome.
Suspirei e comecei o ritual que aprendi cedo demais.
Base.
Corretivo.
Mais corretivo.
Pó compacto.
Um pouco de blush pra disfarçar rigidez.
Batidinhas leves pra não doer tanto.
Movimentos que eu fazia com a precisão de quem já fez isso muitas vezes. Quando terminei, o rosto pareceu normal. Quase natural.
Quase.
Puxei o cabelo pro lado, cobrindo parte da pele. Vesti a blusa de manga curta mais larga que tinha. Calça jeans. Tênis velho.
Tudo simples, discreto. Tudo pra não chamar atenção.
Desci as escadas silenciosa, como sempre. Meu pai roncava no sofá, uma garrafa vazia ao lado. A televisão ligada sem som. Minha mãe já estava na cozinha, com um olhar cansado, mas sem coragem pra me encarar de verdade.
— Tem café... — ela disse, baixinho.
— Eu vou me atrasar — respondi, pegando só o pão seco da mesa.
Ela não discutiu. Não pediu desculpas. Não tentou explicar nada. Nós duas sabíamos como aquilo funcionava.
Saí da casa rápido, com o ar frio da manhã batendo no rosto e me dando um choque que quase me fez respirar de verdade.
No caminho até o ponto de ônibus, senti a base repuxando na pele. O coração acelerado a cada pessoa que cruzava comigo. O medo de alguém notar. O medo de que alguém... perguntasse.
Cheguei na farmácia dez minutos antes do horário. A gerente me deu um aceno seco. Eu devolvi.
Fui até o banheiro dos funcionários, joguei água no rosto com cuidado e olhei de novo no espelho. A maquiagem segurava bem. Eu parecia... eu.
Ou pelo menos, uma versão funcional de mim.
Prendi o cabelo de novo, ajeitando a franja pra cair no lugar certo. Comi um pedaço de pão escondida ali mesmo. Respirei fundo pela terceira vez naquele dia. E me obriguei a entrar no balcão, vestir o crachá e dizer:
— Bom dia. Em que posso ajudar?
Como se a noite anterior fosse só um pesadelo e a vida fosse simples. Como se eu fosse forte o bastante pra fingir e eu era. Porque eu nunca tive escolha.