2. Sarah

1035 Palavras
O erro foi atender a segunda ligação da Lara. No fim do expediente, eu só queria tomar banho, deitar e esquecer que o mundo existe. Mas a voz dela no telefone parecia uma ameaça maquiada de convite: — Vai ser rapidinho. A gente só vai lá, dá um oi, toma uma coca e volta. Prometo. Mentira. Com Lara nunca é rapidinho. Mas, por algum motivo, hoje eu disse sim. Talvez porque eu estivesse cansada até de dizer "não". (…) O lugar era um bar meio improvisado num beco largo, com uma varanda de fundo e música alta. Gente demais pra minha cabeça, luzes demais pros meus olhos, e risadas demais pra alguém que só queria silêncio. — Isso aqui tá uma vibe, né?! — Lara grita no meu ouvido, dançando já na terceira música. — Uhum — murmuro, segurando meu copo com refrigerante. Meu corpo tá tenso, como sempre. O barulho, os olhares, o cheiro forte de perfume doce misturado com cigarro. Tudo me mantém num estado constante de alerta. Mas Lara dança como se o mundo estivesse em câmera lenta. Encosto na parede e fico ali, tentando parecer invisível. É aí que eu o vejo. Caique. Encostado no canto mais escuro do bar, camisa preta, braços cruzados, expressão indecifrável. O mesmo olhar que ele sempre teve desde que a gente era criança: pesado, observador, como se carregasse segredos demais e falasse de menos. Mas não é surpresa. Ele sempre esteve por perto. Irmão mais velho da Lara. O mais calado. O mais temido. O tipo de pessoa que ninguém chama pelo nome, só sussurra. E eu? Sempre evitei até passar por perto. Ele me vê. Claro que vê. Os olhos dele passam por mim com a mesma intensidade de sempre, mas não sei se é pessoal ou se ele olha todo mundo assim, como se estivesse analisando os pontos fracos. Desvio o olhar. Não por vergonha, mas por instinto. Não tenho nada pra ele notar. — Ele tá olhando pra cá, viu — diz Lara, voltando pra perto, já suada e sorridente. — Problema é dele — respondo, seca. — Afff, que desânimo, garota. Tem noção que metade das meninas do bairro trocaria tudo pra receber um olhar do meu irmão? Dou um gole na bebida, ainda encostada na parede. — Você tem noção de que ele me dá medo desde que eu tenho doze anos? — Ai, você exagera. — Ele parece que mata gente no café da manhã. — E mata mesmo. Mas é gente r**m. Relaxa. Reviro os olhos. — Não tô aqui por causa dele. — Eu sei. Você tá aqui por minha causa. Porque me ama. — Não. Eu tô aqui porque cedi à chantagem emocional. — Mesma coisa! Ela sorri e gira mais uma vez no ritmo da música, deixando o copo em cima de uma mesa qualquer. E eu fico ali. Ainda encostada. Sentindo o olhar dele, mesmo sem encarar. Não sei por quê, mas tenho a sensação estranha de que hoje ele olhou diferente. Não como quem vigia. Mas como quem reconhece. Ou talvez seja só coisa da minha cabeça. Eu sou boa em imaginar coisas que não existem. Então volto a olhar pro chão, pras pessoas dançando, e pra porta do bar, pensando em ir embora antes que a noite fique longa demais. Lara ainda dança, agora no meio de um grupinho que chegou depois. Ela joga o cabelo, gira o copo, ri alto, aquela liberdade barulhenta que eu nunca consegui sentir. Eu continuo encostada na parede. Deslocada. Esperando o tempo passar pra poder ir embora sem parecer antipática. É aí que ele se move. Caique. Sai do canto escuro onde estava parado como uma sombra. Anda devagar, sem pressa, com aquele passo firme que parece dizer que nada pode encostar nele. As pessoas no caminho automaticamente abrem espaço. Ninguém quer bater de frente com ele. Ele vai até Lara. Fica perto, mas não toca. — Dá uma segurada — diz com a voz baixa, mas firme. — Tá todo mundo te olhando. — E daí? — ela responde, rindo. — E daí que eu não gosto. — Você nunca gostou de nada, Caique. Vai viver, pelo amor de Deus. Ele inclina a cabeça, como quem avisa só com o olhar. — Lara. — Tá bom, tá bom — ela diz, levantando as mãos. — Já entendi, senhor ditador do morro. Ele não sorri. Nem responde. Só continua parado, de braços cruzados, observando cada movimento ao redor. E então, ele olha pra mim. De novo. Só que agora de perto. Não é um olhar rápido. É longo. Silencioso. Quase desconfortável. Desvio os olhos imediatamente. Ele deve estar achando que eu sou uma pedra no meio do caminho da irmã dele. Uma estranha deslocada. A garota que só veio porque foi arrastada. E ele não tá errado. Lara volta pra perto de mim, revirando os olhos. — Meu irmão acha que é meu pai. Às vezes acha que é de todo mundo. — Ele não gosta de você dançando? — pergunto, tentando parecer desinteressada. — Ele não gosta de ninguém tocando no que é dele. — Mas você não é "dele". — Tenta explicar isso pra ele. Dou um gole na bebida, de novo. O gelo já derreteu. — E você, o que achou da aparição do senhor chefão? — Achei igual sempre. Arrogante, mandão, com cara de quem carrega um corpo no porta-malas. — Que exagero, Sarah. — Eu só tô falando a verdade. — Você morre de medo dele. — E você devia também. Lara sorri, mas com aquele brilho de quem sabe mais do que devia. — Sei não. Às vezes, quem mete mais medo é quem mais precisa ser visto. Eu não respondo. Só olho pro copo vazio. O tempo parece escorrer mais devagar agora. Quando olho de novo pro canto onde ele estava, Caique sumiu. Mas eu tenho quase certeza de que, mesmo não estando ali, ele ainda tá olhando. E que, nesse exato momento, o olhar dele já decidiu que eu sou dele. Mas eu? Eu tô longe demais pra perceber. Porque eu nunca imaginei que alguém pudesse querer ficar perto de mim de verdade. Muito menos alguém como ele.
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