A gente desceu a rua rindo, com Kevin pulando entre nós duas como se tivesse molas nos pés. Ele segurava minha mão com uma confiança que eu não entendia, e a da Lara com a naturalidade de quem manda no mundo.
O vento estava fresco, bom, e a noite tinha aquele cheiro de comida de esquina e perfume que sempre pairava no morro quando começava a ficar tarde.
— Tia Sarah, você gosta de sorvete de quê? — Kevin perguntou, olhando pra cima pra me ver melhor.
— Eu... acho que de chocolate.
— Eu gosto de chicrete.
— Chicrete não é sabor.
— É sim. Chicrete é rosa.
Lara gargalhou.
— Ele tá falando de "chiclete", Sarah. Aquele sorvete que tem bolinha.
— Ah. Então tá. — Olhei pra ele, fingindo seriedade. — Você tem gosto duvidoso, sabia?
— Eu tenho gosto de criança!
Lara apertou meu braço, rindo.
— Você tá vendo? É por isso que eu trouxe. Pra você lembrar que existe vida além de trabalhar e voltar pra casa com cara de "não fala comigo".
— Eu não volto com essa cara.
— Volta sim. Você só não percebe.
Kevin começou a cantar alguma música inventada, misturando palavras que não combinavam com nada. Eu não consegui evitar o sorriso.
A sorveteria ficava numa parte mais movimentada, com umas mesas de plástico na calçada e luzes fortes. Tinha gente conversando alto, criança correndo, casal tirando foto, e um som baixo vindo de uma caixinha no canto.
Kevin já entrou puxando a gente como se fosse dono do lugar.
— Moço! Eu quero sorvete! — ele anunciou pro atendente, como se aquilo fosse um decreto.
O rapaz riu.
— Qual sabor, campeão?
— Chicrete. E chocolate. E morango. E...
— Kevin — Lara cortou. — Você vai escolher dois.
— Três.
— Dois.
— Dois e meio.
— Dois.
Ele olhou pra mim, pedindo socorro com os olhos.
— Dois tá bom — eu disse, tentando ajudar sem piorar. — Se você escolher direitinho, depois você ganha... sei lá... granulado extra.
Os olhos dele brilharam.
— Granulado! Então eu quero chicrete e chocolate!
Lara apontou pra mim.
— Viu? Você tem moral. Ele nem me respeita mais.
— É porque eu não mando. Eu sugiro.
— A diferença é que ele te acha fofa. Eu ele acha chata.
O atendente montou o sorvete do Kevin num copão grande demais pra idade dele. Lara pagou antes que eu abrisse a boca pra discutir. Ela me conhecia: eu ia dizer que não precisava, que eu pagava, que era melhor não gastar comigo.
— Não começa — ela sussurrou, como se lesse minha mente. — Hoje você só recebe. Pronto.
Eu assenti, meio sem jeito.
Pegamos uma mesa do lado de fora. Kevin subiu na cadeira, balançando as pernas, e atacou o sorvete como se tivesse passado um ano sem comer doce.
— Tá gelado! — ele falou com a boca cheia. — Mas é bom.
Lara se jogou na cadeira e cruzou as pernas.
— Tá vendo? Isso aqui é terapia. Sorvete e fofoca.
— Hoje sem fofoca — eu disse.
— Hoje com fofoca sim. — Ela me encarou, sorrindo. — Você sumiu antes. Eu fiquei te mandando mensagem.
— Eu dormi cedo.
— Sarah...
— É sério. Eu só... apaguei. Tava cansada.
Ela me observou por alguns segundos, os olhos mais atentos do que o normal. Depois soltou o ar devagar e decidiu não insistir.
— Tá. Mas você vai me prometer uma coisa.
— O quê?
— Que quando você não quiser falar, pelo menos você vai responder "tô viva". Só isso. Pra eu não surtar.
Eu engoli seco e assenti.
— Eu prometo.
Kevin, do nada, apontou a colher pra mim.
— Você vai voltar lá em casa amanhã?
— Não sei... eu tenho trabalho.
— Mas depois do trabalho.
— Depois do trabalho eu... vejo.
— Eu quero que você more lá. — Ele falou isso com a maior naturalidade do mundo, como se tivesse sugerindo que eu mudasse de canal.
Lara arregalou os olhos e soltou uma risada curta.
— Kevin, você não pode sair adotando as pessoas assim.
— Posso sim. Eu adoto. Eu sou pequeno, mas eu mando.
Eu ri, baixinho, e senti uma coisa estranha no peito, não r**m. Só diferente.
— Você não manda nada — eu disse pra ele.
— Eu mando no papai.
— Duvido.
— Eu mando. Quando eu faço olho de coelho triste, ele faz tudo.
Lara bateu palma, divertida.
— Isso é verdade. O Caique vira manteiga com esse menino.
Eu não respondi. Só mexi no meu canudo, olhando o gelo boiando no copo. Mas minha cabeça ouviu o nome dele e fez aquele pequeno silêncio interno, como se prestasse atenção demais.
Kevin começou a sujar a boca toda de sorvete rosa e marrom, misturando tudo. Lara limpou com um guardanapo e reclamou que ele parecia um "pintor bêbado".
Ficamos ali mais um pouco, até ele diminuir o ritmo e começar a bocejar.
— Tá com sono, tubarão do céu? — perguntei.
— Tô... — ele respondeu, com o olho meio fechado. — Mas eu quero mais.
Lara levantou.
— Chega. Se você comer mais, você vai vomitar e eu vou te vender.
— Não pode vender criança.
— Posso trocar por um carregador de iPhone.
Ele riu, cansado, e estendeu a mão pra mim de novo.
— Vamos embora, tia Sarah.
No caminho ele já ia mais quietinho, encostando a cabeça no meu braço de vez em quando. Lara andava do meu outro lado, protegendo a gente do fluxo da rua como se fosse a coisa mais normal do mundo.
A volta foi mais lenta. Kevin já não pulava como antes, o corpo pequeno parecia pesado de sono e açúcar. Ele caminhava entre mim e Lara, arrastando um pouco os pés, o copo vazio na mão até Lara tomar e jogar no lixo.
— Tia Sarah... — ele murmurou, com a voz mole. — Tô cansado.
Eu me abaixei um pouco, segurando a mão dele com as duas.
— Quer colo?
Ele assentiu na mesma hora, e eu levantei com cuidado. Kevin se encaixou no meu ombro como se fosse o lugar mais natural do mundo, a cabeça pesada caindo perto do meu pescoço.
— Tá vendo? — Lara falou baixinho, caminhando do meu lado. — Ele só pede colo pra você e pro meu irmão. Eu tô perdendo espaço nessa família.
Eu não respondi. Só ajeitei Kevin melhor, sentindo o calor dele e aquele cheirinho de shampoo infantil misturado com sorvete.
A rua estava movimentada, mas não caótica. Luz de poste, som de música vindo de longe, gente conversando em porta de bar. O tipo de noite comum.
Até que, virando uma esquina mais abaixo, eu vi primeiro pelo reflexo da luz no cabelo: uma figura encostada na parede, rindo alto, corpo colado em outro.
Lara também viu no mesmo instante. O passo dela mudou. Travou meio segundo.
E eu entendi antes mesmo de confirmar.
Era a mãe do Kevin.