Cap 16

812 Palavras
Laura narrando Quando ele me beijou daquele jeito, o mundo pareceu parar. Não foi igual da primeira vez. Não teve susto, nem confusão — teve verdade. Teve cuidado. Teve aquele aperto no peito que não machuca… só mostra que a gente tá viva. Eu senti as mãos dele no meu rosto, firmes, mas gentis. E isso me desmontou mais do que qualquer palavra. Porque o Vasco que tava ali não era o chefe da Rocinha, nem o homem temido. Era só um homem olhando pra mim como se eu fosse única. Quando o beijo acabou, eu ainda fiquei com os olhos fechados por alguns segundos, tentando organizar tudo que eu sentia. Meu coração batia tão rápido que eu tinha medo dele ouvir. — Eu fiquei com tanto medo… — confessei, baixinho. — Quando tu sumiu, eu achei que tinha feito alguma coisa errada. Ele franziu a testa na hora. — Nunca foi tu. — respondeu rápido. — Sempre fui eu. Eu respirei fundo, juntando coragem. — Tu não sabe o quanto doeu te ver com outra. — falei, sentindo a voz falhar. — Eu sei que tu não me deve nada… mas eu senti como se tivesse perdido alguma coisa que nem era minha ainda. Ele passou a mão devagar pelo meu braço, num carinho que arrepiou minha pele inteira. — Eu não sou fácil, Laura. — ele disse com sinceridade. — Minha vida é confusão, é risco, é gente querendo me derrubar todo dia. Eu assenti. — Eu sei. — E mesmo assim… — olhei pra ele, firme. — Eu tô aqui. Ele me encarou por alguns segundos, como se tivesse medo da própria vontade. Depois encostou a testa na minha, respirando fundo. — Então vamos com calma. — ele disse. — No teu tempo. Do teu jeito. Isso me fez sorrir pela primeira vez em dias. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro. — Obrigada por não me apressar. — falei. Ele sorriu de canto, aquele sorriso torto que faz o coração da gente tropeçar. — Tu já virou tudo de cabeça pra baixo sem fazer esforço nenhum. — respondeu. Abracei ele devagar. Não foi aquele abraço apertado de desejo. Foi um abraço de proteção. De quem tá machucado, mas quer tentar. Senti o peito dele subir e descer contra o meu. Senti a mão dele nas minhas costas, me puxando com cuidado. Ali, naquele lugar simples, com o morro inteiro como testemunha, eu entendi uma coisa: Eu ainda tinha medo. Muito. Mas, pela primeira vez desde tudo que aconteceu… eu também tinha esperança. E isso, por si só, já era perigoso. Ele me deixou em casa quando o céu já tava mudando de cor. A moto parou devagar na frente do portão, como se ele não quisesse fazer barulho, como se quisesse prolongar aquele momento mais um pouco. Eu desci primeiro. O coração ainda acelerado, as pernas meio bambas. Fiquei de frente pra ele, sem saber direito o que dizer, porque às vezes o silêncio fala mais do que qualquer palavra. — Entra… — ele disse baixo, com aquele tom que não era ordem, era cuidado. — Meu pai tá em casa. — respondi quase num sussurro. Ele assentiu, entendendo. Tirou o capacete devagar, me olhando como se quisesse guardar meu rosto na memória. — Eu vou embora então. — falou, mas o corpo dele dizia o contrário. Eu dei dois passos em direção ao portão, já sentindo aquela pontada estranha de despedida no peito. Mas antes que eu pudesse abrir, ele segurou minha mão. Me puxou de volta com firmeza, mas sem pressa. Meu corpo encostou no dele de novo, e eu nem tive tempo de pensar. — Vem cá… — ele murmurou. E me beijou. Não foi urgente. Não foi desesperado. Foi um beijo calmo, profundo, cheio de promessa. A mão dele na minha cintura, o polegar acariciando minha pele por cima da blusa, como se quisesse me dizer sem palavras: eu tô aqui. Eu fechei os olhos e correspondi. Meu coração quase saiu pela boca. Era estranho como tudo parecia certo naquele instante. Quando ele se afastou, encostou a testa na minha e respirou fundo. — Dorme bem, Laura. — disse baixo. — Qualquer coisa… tu sabe onde me achar. Eu sorri de leve, ainda meio sem acreditar. — Vai com cuidado. — respondi. Ele sorriu de canto, colocou o capacete e subiu na moto. Antes de acelerar, olhou pra mim mais uma vez — aquele olhar que aperta o peito. Fiquei ali parada até o som da moto sumir na viela. Entrei em casa em silêncio, encostei a porta devagar e levei a mão aos lábios. Ainda sentia o gosto dele. Deitei na cama com o coração acelerado e uma certeza nova crescendo dentro de mim: Talvez amar alguém como o Vasco seja perigoso. Mas naquele momento… eu não queria estar em nenhum outro lugar do mundo.
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