Elena O véu pesava mais do que mandam as tradições. Não era o peso do tecido — era o da decisão. Amália prendeu a última presilha com dedos firmes, e as pequenas lâminas de aço leve costuradas à renda tilintavam como sinos contidos. O espelho me devolveu uma noiva com armadura nos olhos. Sem joias demais. Sem desculpas. — Fica perfeito — Amália sussurrou. — E guarda mais do que beleza. — Guarda a minha vida — respondi, e não foi metáfora. No estojo de veludo onde vieram os grampos, havia um bilhete. Papel barato, letra caprichada: “Sacristia. 10h20. Corra.” Dobrei o papel em quatro, depois em oito, até virar um ponto. Não corri. Quem me manda correr conhece minha veia errada. No carro, o vidro deixou a cidade passar como filme de guerra que se finge cotidiano: vendedores com rosas, um

