Went
No momento em que elas saíram de casa, produzidas demais, eu me arrependi da minha decisão. Aquela sai vai me tirar do sério e com certeza me meter em confusão. Tentei sai de casa, indo para o único bar decente da cidade.
— Whisky duplo, por favor. — Peço ao barman.
Minha cabeça lateja com uma dor infernal. E só piora quando um perfume barato se aproxima bruscamente. Pelo campo periférico, sei que é Verônica, uma loira de farmácia com quem tive um caso uma vez.
— Aqui senhor. — O barman diz ao me entregar o copo. Ele é baixo, barrigudo e deve ter descendência espanhola.
O primeiro gole desce redondo, quente em minha garganta.
— Quando eu soube que estava voltando, não achei que ficaria preso em casa. — Diz ela, inciando uma conversa.
— Não estou preso em casa, vim para Marietta para visitar a minha filha. — É tudo o que quero dizer. Sinceramente? Não estou com o mínimo de cabeça para isso.
— Sophie é uma boa menina, é uma pena que se envolva com a filha dos Moore.
Aquilo...me intrigou. O que ela quer dizer com isso?
— Está falando de Elina?
Ela balança a cabeça em afirmação.
— É uma pena o que fazem com os filhos. Nunca vi pessoas tão rudes.
— Eles batem neles?
— Bater? — Ela solta uma risada anasalada, irônica. — A dois meses Carl bateu na porta deles depois de encontrar Otis, o filho mais novo, desmaiado na escola. O médico local disse que ele estava desidratado e que pela condição não comia a dias. Não acha estranho que Elina tenha caçado emprego no mesmo dia que fez dezoito? A coitada me implorou para trabalhar em minha loja, mas a última coisa que quero é me envolver com aquela família.
Não sei o que pensar. Sophie teria me dito se os pais de sua amiga são abusivos com ela, mas isso explica a maturidade que ela tem. Sinto um punho se formar na boca do meu estômago. "Alguns de nós não tem o privilégio de poder estudar, ou de escolher quem quer ser. Nós só temos que sobreviver, pelo menos por alguns anos." Suas palavras me provocam ânsia.
— Uma pessoa te implora por ajuda e você escolhe dar as costas?
— Por que eu me envolveria? Se os pais deles são assim o problema não é meu. — Ela diz isso com a voz de uma amante. — Mas não vamos falar sobre isso, vamos falar sobre você. Está com alguém?
De dentro do bolso da calça tiro a minha carteira, e dela uma nota de cinco dólares. Deixo o dinheiro sobre o balcão e então me levanto da banqueta.
— Estou sim.
Há uma chama em meu peito me devorando aos poucos. Sinto como se o mundo ao meu redor estivesse diminuindo. Por que ela não me disse? Talvez minhas investidas tenham afastado ela de forma que ela não ache que possa pedir a minha ajuda. Mas e Sophie? Por que ela não me disse nada?
Quando percebo, estou entrando na trilha que leva a onde por tradição é feita a festa da fogueira. O que me levou ali? Ah, tanta coisa. Mas principalmente por querer conversar com Elina, perguntar se ela precisa de algo ou...não sei, o que eu poderia fazer?
Estaciono o carro mais dentro da mata e saiu do carro, seguindo a trilha até onde os jovens se divertem. A música é a primeira coisa que ouço, uma melodia cheia de palavrões. A fogueira está alta, queimando os troncos que a alimentam. Tenho certeza que todos os jovens dessa cidade estão aqui hoje, bebendo e namorando.
Um garoto passa por mim com um copo vermelho nas mãos.
— Ei garoto, sabe dizer onde Sophie e Elina estão?
— Ãh? Elina? Eu a vi por... — O garoto desliza o indicador pela multidão, procurando a garota pelo olhar. — Ali, sentada ao lado de Phoebe. Não sei onde Sophie está.
— Obrigada, rapaz.
Ele volta a se misturar, conversando com uma garota loira em um vestido justo. Como vou fazer ela me ver? Vou por dentro das árvores, evitando olhares indesejados. Balanço os braços no ar, tentando lhe chamar atenção. Por que eu não anotei o número dela? Era só uma ligação para ela vir até mim, ao contrário de estar bancando o i*****l balançando os braços.
A garota ao lado dela põe os olhos em mim. Gesticulo um "Quero falar com ela" com as mãos. Com uma cutucada no ante braço, Elina olha para a garota ao seu lado que aponta em minha direção.
Os olhos de Elina caem em mim e então ela se levanta. Por um instante a perco de vista. Ela é baixinha e tem que se esquivar por entre os dançantes para conseguir chegar até mim.
— O que faz aqui?
— Vim ver se estava tudo bem com vocês. Onde está Sophie?
— Depende, vai brigar com ela?
Estreito os olhos ao encara-la. O que ela quer dizer com isso?
— Onde está a minha filha, Elina Moore?
— Ficando com o crush dela.
O que? Ficando com quem? Respiro fundo, tento me controlar, pois a última coisa que quero é ser o pai surtado que arrasta a filha para casa. É normal, namorar, sexo, tudo isso. Vai fazer vem pra ela. É assim que se vive.
— Ele é legal e muito certinho. Não se preocupe, eu não teria deixado ela sozinha se não conhecesse ele.
— Sei que não. Quer sair daqui? Quero conversar com você.
— Comigo? — Ela olha para os lados, com o semblante preocupado.
— Sim, não vou demorar muito.
— Tudo bem, então.
Elina me segue pelo caminho até o carro. Abro a porta do banco de traseiro e ambos entramos. Ao meu lado, ela está quieta, encolhida no canto. O que tem de errado com essa garota? Geralmente ela é tão cheia de vida e agora...agora não sei dizer.
— O que quer conversar?
— Queria fazer uma pergunta, na verdade. Você está bem?
Elina se encolhe mais, seu rosto vai para distante de mim, ficando atraves da janela. Tem algo de errado aqui. Estico o braço e todo sua mão. É como tocar uma pedra de gelo. Não deveria estar assim, ela estava muito próxima a fogueira, deveria estar com as mãos quentes.
— Aconteceu alguma coisa? Tem algo que...
Elina se vira de uma vez, sua mão segura minha camisa e ela se aproxima de mim de foram imediata. Seus lábios pressionam os meus conforme ela me puxa mais e mais para ela. Seu gosto é alcoólico e seu cheiro é de erva. Seguro suas mãos e a afasto gentilmente.
— Não é o que quer? Vamos, Went, quero perder a virgindade com você.
— Garota, você não está em si.
— Estou sim. Quero perder com quem gosto e eu confio em você. — Ela tenta se aproximar novamente, mas eu a seguro com mais firmeza.
— De onde isso veio? Você não age assim.
Lágrimas escorrem rapidamente por seu rosto. Ela soluça, chorando de forma desesperada e desenfreada. Ah, o que está acontecendo com você, anjo? A puxo para meu peito e a acolho. Seu corpo treme contra o meu, deixo que ela jorre sua dor. Quando ela estiver melhor vai poder falar e espero que me diga a verdade.
Leva cerca de dez minutos para que Elina deixe de chorar e se acalme, nesse meio tempo brinquei com as mexas de seu cabelo, e deslizei os dedos pelo seu couro cabeludo.
— Vai me explicar o que te fez ficar assim?
— Você não vai gostar.
— Me conte mesmo assim.
Não a solto, pelo contrário, quando mais seu corpo fica contra o meu mais eu tenho vontade de coloca-la em meus braços e levá-la para Atlanta comigo.
Ah, Went. O que essa garota fez com você?
— Eu preciso de dinheiro, e bem, não queria perder minha virgindade com qualquer um, entende? As coisas estão difíceis e eu tenho que cuidar de Otis. Se eu tiver que vender meu corpo para sustenta-lo, eu vou fazer.
Aperto seu corpo contra o meu, mais e mais e mais. Não sei dizer se é raiva, sensação de posse ou simplesmente incredulidade. A única coisa que eu sei é que em hipótese alguma eu deixaria que ela fizesse algo assim.
— Went?
— Sim?
— Eu tô tonta.
— O que você fumou?
— Hum. Não sei.
Ah, Elina. Você merece palmadas nessa sua b***a linda.
— Quer ir pra casa?
— Não, não. Sophie está de divertindo. Ela gosta desse cara a muito tempo.
— Hum. Então o que fazemos?
— Só me abrace, você é tão quentinho. Tão fofinho.
— fofinho? Está mesmo chapada.
— Fofinho como marshmallow. Gostoso. Muito muito gostoso.
Eis um fato sobre a minha história, em algum momento da minha vida vou tomar Elina para mim. Essa garota é fogo e vai me deixar maluco, mas há algo nela que faz com que eu me sinta vivo e jovem e feliz.
Deixo que ela durma em meu colo, agarrada a mim. Não importa o quanto ela nege, uma hora ou outra ela vai perceber o que eu percebi.
Não tem como correr disso.