Amélie estava no jardim lateral da mansão, recolhendo o lixo acumulado e organizando os canteiros, quando o som de passos suaves a fez erguer a cabeça.
Ela parou por um instante, segurando a pá com mais força do que o necessário, o coração acelerado.
Henrique se aproximava, com um sorriso calmo e olhar decidido.
— Olá, senhorita Pérez — disse, a voz firme, mas gentil. — Posso falar com você um instante?
Amélie deu um passo atrás, os olhos arregalados.
— O… o senhor de novo…? — sua voz saiu trêmula, o medo evidente. — Eu… eu não posso… por favor, saia.
— Meu nome é Henrique Cestáro — respondeu, mantendo a postura respeitosa. — Sei que minha chegada pode parecer inesperada, mas não vim para causar problemas. — Ele fez uma pausa, observando a hesitação dela. — Eu quero ajudá-la.
Amélie engoliu em seco, recuando mais um passo, a respiração acelerada.
— Ajudar? — repetiu, com a voz quase um sussurro.
Henrique deu um passo em direção a ela, mas com cuidado, respeitando a distância que ela impunha.
— Sua família deve uma quantia que não é justa, e você está pagando por isso com seu trabalho e sacrifício. Eu posso quitar essa dívida.
Amélie parou, incrédula, mas o medo ainda dominava seu olhar.
— Mas… por que…? — murmurou. — Senhor, por Deus...
— Porque você é linda demais pra isso, jovem demais —disse Henrique, a voz firme.
O coração de Amélie disparou, e uma mistura de medo e esperança tomou conta dela.
— Por Deus, senhor... O que quer de mim ? — disse, hesitante, os olhos marejados.
Henrique se aproximou apenas o suficiente para transmitir sinceridade.
— Pense no seu pai, pense em suas irmãs… pense em você mesma. Esta é a chance de começar de novo. Eu posso ajudá-la, basta me dizer sim.
— Sim para o que exatamente senhor? Eu...eu não entendo, por Deus, está me deixando com medo.
Henrique notou a hesitação, mas não recuou.
— Não precisa confiar em mim, só espero que saiba que minha intenção não é te maltratar.— disse, a voz suave. — Apenas saiba, quanto mais tempo você hesitar, mais difícil será.
Amélie olhou para ele, o coração batendo forte, o frio misturado à tensão do momento.
— Me quer como criada, é isso, senhor ?—Amelie perguntou em tom baixo, perdida.
Enquanto Amélie ainda perdida com as palavras de Henrique, um som firme de passos ecoou pelo jardim.
Francesca surgiu entre as árvores, o semblante frio e calculista. Seus olhos se fixaram imediatamente em Henrique e depois em Amélie, avaliando cada expressão, cada gesto.
— Então é isso — disse Francesca, a voz cortante, mas com uma ponta de sarcasmo — Vejo que já conversaram. Muito bem, jovem Cestáro. — Ela fez uma pausa, cruzando os braços. — Vou fazer você feliz: venderei Amélie a você.
Amélie engoliu em seco, o medo subindo rapidamente pelo corpo.
— Vender… o que…? — murmurou, incrédula, recuando instintivamente para mais longe de Henrique.
Henrique ergueu uma sobrancelha, surpreso com o tom c***l da mulher, mas manteve a postura firme.
— Senhora Francesca, não precisava falar assim na frente da moça… — disse, com cautela. — Não a quero assustada.
Francesca sorriu, estreitando os olhos, e aproximou-se mais.
— Não se preocupe, Henrique, não sou c***l sem motivo. Mas você quer levá-la embora? Então faça como eu digo: levá-la ainda esta noite. Quanto mais cedo ela estiver sob seu cuidado, mais fácil será garantir que eu não me arrependerá de ceder a este acordo.
— E o valor? — perguntou Henrique.
— Lhe enviarei uma carta.
— Ótimo, senhora Cavalcante. Amélie, vamos.
Amélie sentiu um nó na garganta. A forma como Francesca falava fazia parecer que ela era apenas um objeto sendo negociado, uma mercadoria que poderia ser entregue.
— Eu… eu não quero ir… — murmurou, mas sua voz falhou diante do olhar frio da mulher.
Henrique colocou-se à frente de Amélie, como se sua presença pudesse protegê-la.
— Cale se Amélie — disse firme. — você vem comigo querendo ou não, é minha agora.
Francesca riu baixinho, um som que misturava diversão e desprezo.
— Agora tens um novo lar, Amélie Pérez — disse, inclinando-se levemente em direção a ele — espero que faça um bom proveito, Henrique.
Amélie sentiu o medo apertar, o que Henrique faria com ela.
Ela respirou fundo, tentando absorver tudo aquelo, o frio da noite misturado ao medo.
E, pela primeira vez, sentiu que a noite seria o início de uma mudança que poderia salva-la ou enterra-la de vez.