CAPÍTULO 3
EDUARDA NARRANDO
Tem gente que nasce cercada de amor.
Família grande, almoço de domingo, ligação todo dia. Não foi meu caso.
Fui criada em Blumenau por uma senhora que dizia ser minha tia-avó. Cresci ouvindo mais silêncio do que carinho. Minha mãe morreu quando eu ainda era bebê. Do meu pai… só sei o nome. Nunca vi, nunca quis ver.
Cresci na base da rigidez, sem muito espaço pra errar, sem ninguém pra segurar minha mão quando tudo desmoronava.
A única pessoa que me restou foi minha irmã mais velha, Milena.
Ela sempre foi meu ponto de equilíbrio.
Se mudou pro Rio de Janeiro tem alguns anos, casou e seguiu a vida dela.
A gente se fala o quanto dá.
Ela é meu porto seguro. Mesmo de longe.
Eu fiquei.
Fiquei em Blumenau.
Me formei em fisioterapia com excelência.
Fui bolsista, me matei de estudar, me formei entre as melhores da turma.
Hoje, aos 28 anos, posso dizer que sou boa no que faço.
Aliás… muito boa.
Trabalho com reabilitação neurológica.
Gente que perdeu movimento, esperança, chão.
Gente que precisa mais da minha fé do que das minhas mãos.
Por fora, ninguém diz que eu carrego tanto peso.
Sou loira, olhos claros, corpo bonito. Me cuido. Malho desde os 18, como bem, trato meu corpo como um templo, talvez porque ele seja o único lugar que sempre foi meu de verdade.
Já ouvi muita gente dizer que eu não pareço ter sofrido. Como se dor tivesse rosto.
Por ironia do destino…
A única vida que eu não conseguia reorganizar era a minha. Acabei de sair de um relacionamento que me esvaziou.
Cinco anos com um homem que dizia me amar e me calava no grito.
Policial civil.
Fardado na rua, monstro em casa.
Me controlava, me seguia, mexia no meu celular, fazia chantagem emocional, e quando não tinha mais o que controlar, me fazia sentir culpada por respirar.
Demorei pra sair.
Demorei pra entender que não era amor.
Mas eu saí. E quando recebi o convite pra ir ao Rio participar da conferência de reabilitação motora, não pensei duas vezes.
Era só por uma semana, mas pra mim…
Era uma chance de respirar novos ares.
De recomeçar.
O Rio me assusta.
Mas também me chama.
O silêncio do meu apartamento parecia maior naquela noite. Talvez porque, por dentro, eu também estivesse vazia. Sentada na beira da cama, com a mala aberta ao lado, eu dobrava cada peça de roupa como se aquilo me desse controle sobre alguma coisa.
Separava as roupas com calma, como quem se prepara pra mais que uma viagem.
Era quase um ritual.
Respirei fundo, sentindo o peito apertar quando olhei pro canto do quarto, onde por muitas vezes chorei sem fazer barulho, só pra ele não perceber.
Fernando.
Meu grande amor.
E o meu pior pesadelo.
Me lembro de quantas vezes eu apanhei calada.
Quantas vezes me olhei no espelho com o rosto marcado, o coração estilhaçado, e mesmo assim… perdoei.
Ou melhor… silenciei.
Ele era policial.
Sabia intimidar com o olhar, com a postura, com a farda. Mas o que mais doía era o que ele fazia quando tirava tudo isso.
Me isolava.
Me diminuía.
Me fazia acreditar que ninguém mais ia me querer, que eu devia gratidão por ele ainda estar comigo. O pior de tudo?
Em algum momento… eu acreditei.
Terminei de fechar a mala com um zíper firme, como quem sela uma fase.
Não olhei pra trás.
Peguei a chave, joguei uma blusa leve por cima do vestido e saí. O ar da rua me bateu no rosto como um alívio. Andei até o calçadão da praia. Era o único lugar onde eu conseguia respirar direito. Os pés firmes na areia, o barulho das ondas lá na frente e o som distante de risadas, música e vida.
Meu estômago roncou.
Não tinha nada em casa.
Nem comida. Nem vontade.
Entrei num quiosque qualquer, pedi um suco e uma tapioca. Enquanto esperava, fiquei olhando o mar.
A cabeça cheia.
O coração machucado.
Mas pela primeira vez em muito tempo… eu me sentia livre.
Mesmo que fosse só por uma semana.
Mesmo que o passado ainda sussurrasse no meu ouvido.
Eu tava ali.
E tava viva.
Enquanto comia devagar e tomava o suco gelado, deixei a mente viajar.
Fazia quase um mês que eu tava livre do Fernando. Um mês desde que criei coragem, juntei o que restava de mim e fui até a delegacia pedir a medida protetiva.
Ele ficou proibido de se aproximar, de ligar, de encostar. E mesmo assim…
Eu ainda olhava por cima do ombro.
Ainda trancava a porta duas vezes.
Ainda acordava no susto.
Liberdade não vem no papel.
Ela vem com o tempo.
Com o medo indo embora devagar.
Meu celular vibrou na mesa.
Olhei a tela: Milena.
Sorri. Era minha irmã.
— Oi, mana — atendi com a voz leve.
— Oi, Duda. Tá tudo certo pra amanhã? — ela perguntou, animada.
— Tá sim. Já arrumei tudo, comprei a passagem… Tô chegando no Rio amanhã à tarde. Quero muito te ver.
Ela ficou em silêncio por uns segundos.
— Então… tem uma coisa que eu nunca te contei. E eu acho que tá na hora de te falar.
Franzi o cenho. Levei o copo à boca.
— Fala, Mi. O que houve?
— Eu tô morando numa comunidade. No Morro dos Prazeres.
Parei o movimento da mão.
Engoli o suco com dificuldade.
— Sério?
— Sério. E antes que você diga qualquer coisa… eu sei o que parece. Mas é minha vida, Duda. E eu tô bem.
Respirei fundo, olhando pro mar à minha frente.
— Eu não vou te julgar. Você é minha irmã. Só quero te ver feliz, segura.
Ela hesitou de novo.
— Tem mais uma coisa.
— Pode falar.
— Eu sou casada com um cara daqui.
Ele é… o sub do morro. Trabalha pro chefe.
É traficante.
Fechei os olhos por um segundo.
Era muita informação pra digerir com uma tapioca na mão.
Mas respirei.
E falei:
— Tá. Se é com ele que você escolheu estar… então é com ele que eu vou te respeitar. Só me promete uma coisa, Milena. Não se mete em coisa errada. Cuida de você. E me avisa se algum dia isso deixar de fazer bem.
Ela ficou em silêncio por um instante.
— Eu prometo.
— Então amanhã a gente se vê.
— Tô com saudade, Duda.
— Também tô.
Desliguei e fiquei olhando pro mar, com a cabeça rodando. Fiquei ali parada, com o copo na mão e o som do mar tentando acalmar o que fervia dentro de mim.
Mas era impossível.
Minha cabeça tava a mil.
Morro dos Prazeres.
Casada com o sub do morro.
Traficante.
Por mais que eu tivesse dito que não ia julgar, e eu realmente não queria, era impossível não pensar em tudo que aquilo envolvia.
Milena sempre foi tão certinha.
Tão racional... E agora…
Agora tava vivendo no meio de arma, droga, confronto?
A primeira imagem que veio na minha cabeça foi ela abaixada no chão de um barraco qualquer, no meio de um tiroteio.
O coração apertou.
Me perguntei como era a rotina dela.
Se dormia com barulho de tiro.
Se ouvia sirene toda noite.
Se tinha medo de sair de casa e nunca mais voltar. E como era esse cara?
O tal sub do morro.
Era um desses homens de respeito ou só mais um bandido sem coração?
Tentei afastar os pensamentos.
Mas a verdade é que eu só conhecia o lado de fora desse mundo. O lado que aparece na TV, nas manchetes, nos relatos que chegam em sala de reabilitação quando algum jovem entra baleado.
Agora… era a minha irmã que tava lá dentro.
Tomei o último gole do suco, já morno.
A tapioca tava gelada no prato.
E eu?
Eu tava ali, digerindo uma realidade que nunca passou perto da minha e que agora fazia parte da minha próxima parada.
Respirei fundo.
Levantei da cadeira devagar, sentindo o peso da noite nas costas, tomando coragem pra enfrentar o Rio de janeiro.
Continua ....