8- ALMOÇO

1262 Palavras
CAPÍTULO 8 EDUARDA NARRANDO Depois que a Milena me deixou sozinha no quarto, eu fiquei ali por uns minutos, sentindo aquele silêncio gostoso e acolhedor que fazia tempo que eu não vivia. Era como se o tempo tivesse desacelerado, como se o mundo lá fora tivesse parado pra eu respirar. Levantei devagar da cama e fui até o banheiro. Fechei a porta, tirei a roupa com calma, deixando cada peça cair como se estivesse tirando um pedaço da dor junto. Abri o chuveiro e esperei a água esquentar. Quando o vapor começou a embaçar o espelho, entrei debaixo daquele jato quente e fiquei ali parada, deixando a água escorrer pelos ombros, pela nuca, pelos s***s, até os pés. Passei o sabonete devagar pelo corpo, como se estivesse me limpando do ontem, das marcas, dos medos, do nome dele. Fechei os olhos. Respirei fundo. Dei mais alguns minutos pra água quente me abraçar, depois desliguei o chuveiro e me enrolei na toalha felpuda que minha irmã tinha deixado ali. Sequei o cabelo com calma, passei um pouco de creme e deixei ele solto, úmido, caindo nas costas. Fui pro quarto e escolhi na mala, uma roupa leve: um vestido midi de alça, florido, com fundo branco e flores lilás, bem delicado. Calcei uma rasteirinha confortável e passei um hidratante no corpo, só pra me sentir bem comigo mesma. Um perfume suave, brinquinhos pequenos, nada chamativo. Hoje eu queria só ser eu e me reencontrar. Saí do quarto ajeitando a alça do vestido no ombro, e no mesmo instante ouvi a voz animada da Milena vindo da sala: — Ô, Duda! Vem cá! Tava te esperando pra almoçar! Andei até ela, ainda ajeitando o cabelo com os dedos. — A gente vai comer aqui? — perguntei, achando que ela tinha feito comida em casa. Ela riu, balançando a cabeça: — Não, mulher! Hoje é dia de feijoada no restaurante do morro. Cê não tem ideia… É a melhor comida que tu vai provar nessa cidade. Bora que o Kelvin já mandou reservar mesa. — Restaurante do morro? — perguntei, surpresa. — É, ué! Fica lá perto da quadra. Todo mundo come lá. É simples, mas a comida, é coisa de outro mundo. — Tá… então vamos — falei, meio tímida ainda. — E ó — ela disse, pegando a bolsa — se prepara. Porque lá é daquele jeitinho: mistura de pagode, panela fumegando, povo falando alto, criança correndo… mas tem uma vibe boa demais. Vai te fazer bem. Assenti com um sorrisinho. E fui com ela. Descemos o morro devagar, e cada passo parecia uma aventura nova. O calor batia na pele, o som de um pagode estourando de uma caixinha em algum barraco, o cheiro de comida no ar… tudo tão diferente, tão vivo. A cada esquina, uma nova cena: mulher estendendo roupa, criança correndo atrás de pipa, vendedor gritando oferta de picolé. Eu seguia ao lado da Milena, tentando não parecer tão deslocada. Mas era impossível não chamar atenção. Eu sentia os olhares me acompanhando. Alguns curiosos, outros mais atrevidos. E não demorou muito pra um deles se manifestar. — Aí, Milena! Apresenta a gata aí, pô! — gritou um cara, passando por nós com o boné virado pra trás e um sorriso abusado no rosto. Ela nem parou de andar, só jogou a resposta no ar com aquela firmeza debochada: — Vai trabalhar, vagabundo! Aqui é minha irmã! — Ihh, tá bom então! — ele respondeu, rindo, e sumiu na viela seguinte. — Cê viu? — falei, baixinho, quase rindo. — Aqui é assim, mana. Tem que andar com o queixo em pé, senão te engolem — ela disse, piscando pra mim. Quando viramos a última ladeira, vi a fachada simples do restaurante. Uma varanda aberta, coberta por lona, mesas de plástico, ventiladores girando preguiçosos no teto. Mas o cheiro… meu Deus. Um cheiro de feijão temperado, carne, alho, arroz soltinho… parecia abraço de mãe. E ali, logo na frente, numa das mesas do canto, estavam dois homens. Um era o Kelvin, já reconheci pela postura. Sentado com as pernas afastadas, cigarro aceso entre os dedos, óculos escuros e o mesmo ar de mando nessa p***a toda. Do lado dele, outro cara. Enorme. Tatuado do pescoço até os braços, usava uma camisa regata preta e cordões grossos no pescoço. A barba bem feita, o cabelo raspado nas laterais. Mas o que mais chamou atenção foi o olhar. Mesmo de longe, ele me viu chegando… e me mediu inteira. Sem nem disfarçar. — Quem é aquele com o Kelvin? — perguntei, baixando a voz, meio sem jeito. Milena parou e olhou pra mim com um sorrisinho no canto da boca. — Aquele ali? É o Digão. O dono do morro. O Kelvin é o sub dele. — O… dono? — repeti, surpresa. Ela assentiu. — É. Aqui ele que manda. E ele te reparou, viu? — falou, dando uma risadinha. — Milena! — repreendi, sem graça. — Que foi? Ele é solteiro! E te achou uma gata, cê acha que eu não percebi já o jeito que ele tá te olhando. Fingi que não ouvi. Mas a verdade é que o olhar dele ainda tava em mim. A Milena me puxou pelo braço até a mesa dos dois, e cada passo parecia que meu coração batia mais alto no peito. O Kelvin levantou da cadeira quando viu a gente chegando, deu um beijo rápido na boca dela e depois me olhou com aquele ar sério que ele sempre carregava. — Tá gostando do morro, cunhada? — ele perguntou com a voz firme, sem muito sorriso, mas sem grosseria também. — Tô sim… — respondi baixo, quase num sussurro. Antes que eu conseguisse completar qualquer frase, Milena já tava virando pra mim, animada. — Duda, esse aqui é o Digão — ela disse, apontando pro homem do lado. Ele não se levantou. Só descruzou os braços, jogou o corpo mais pra frente, apoiou os cotovelos na mesa… e me olhou. Um olhar direto, sem desviar, sem pudor, que me fez engolir seco. — Satisfação, gata — ele disse com um meio sorriso, a voz grossa e arrastada. — Já tinha te visto chegando. Mas de perto… tu é ainda mais bonita. Não consegui responder. Só assenti, tímida, sentando ao lado da Milena enquanto o Kelvin voltou pro lugar dele. Eu tava nervosa. As mãos geladas. E ele ali… me encarando como se já me lesse inteira. Milena, como se não percebesse nada, pegou o cardápio e começou a chamar o garçom: — Ó, traz duas feijoadas completas, e uma coca de um litro. Ah! E vê se tem aquela farofa apimentada, aquela que tu fez semana passada! O garçom assentiu e saiu. Eu fiquei calada. Só mexendo na pulseirinha do meu braço, tentando parecer ocupada. — A tua irmã é tímida, hein — o Digão comentou, olhando pra Milena, mas com os olhos ainda em mim. Ela riu: — Só de começo. Depois que ela se solta, ninguém segura. Ele levantou uma sobrancelha, como quem gostou da ideia. — É mesmo? A vergonha só aumentava. Eu sentia as bochechas queimando. — Relaxa, Duda — Milena cochichou, rindo. — Ele só tá sendo simpático. Simpático? Aquele olhar não era de simpatia. Era de quem tava analisando, estudando, devorando com os olhos. Tentei focar em qualquer coisa: no guardanapo, no ventilador girando, nas crianças brincando ali perto… só pra não cruzar o olhar dele de novo. Mas de tempos em tempos, eu sentia. Ele ainda tava olhando e de certa forma aquilo me incomodava. Continua...
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