Capítulo 5

1667 Palavras
FELIPE Eu nem tinha mais cabeça para pensar em trabalho depois da grande revelação do dia. Existia uma meia-irmã da qual eu não tinha conhecimento. Meu Deus, eu tinha uma irmã caçula... E pela maneira carinhosa como ela me recebeu, me emocionou ainda mais. A Ana não me conhecia, nunca tinha me visto e nem sabia coisas ao meu respeito, mas mesmo assim me achou digno em receber um abraço seu. Nunca imaginei que pudesse viver uma emoção tão grande quanto essa. — Oi, meu nome é Ana, — A pequena se apresentou depois que nos separamos daquele abraço tão gostoso. — Você é o filho do meu papai, né? Sentei-me no chão para ficar mais confortável e também para – pelo mesmo tentar – nivelar as nossas alturas. — Sim, sou o Felipe, muito prazer, Ana. — Estendi a mão, numa espécie de brincadeira, em sua direção. Não demorou nem dois segundos para que ela colasse a sua pequenininha entre a minha. Eu tinha vontade de conversar com ela sobre tudo... Descobrir qual era sua cor favorita; o sabor do sorvete que mais gostava; se tinha algum sonho que queria realizar... Eu queria ter o poder de viver intensamente os cinco anos que fiquei longe em poucos minutos. Não chegamos a conversar muito, já que a minha reunião com o senhor Gomes ainda não tinha acabado. Depois de um sinal de tchau muito empolgada, Ana saiu da sala acompanhada de Manuela que prometeu que faria companhia para a minha irmã enquanto eu estivesse em reunião. Minha irmã... Ao mesmo tempo que era estranho pensar nisso, ainda por estar muito recente a descoberta, mas eu sentia uma alegria que eu nem saberia descrever sobre isso. Notei pela forma que a Ana foi até a minha assistente era como se fossem amigas. Manuela trabalhava para o meu pai, quem sabe ela tivesse participado de sua vida. Participado mais que eu... E provavelmente poderia saber a respostas de algumas das perguntas que minha cabeça não parava de fazer. — Ela foi o maior motivo da minha ligação ao seu trabalho em Nova York, Felipe. — Gomes tomou a palavra logo após a porta se fechar e retornamos ao mesmo lugar que estávamos sentados antes. — Você é o parente mais próximo dela, já que o pai não está em condições de cuidar dela, infelizmente. — Realmente a Safira sumiu? Não se preocupou em voltar para não deixar a filha sozinha e desamparada aqui? — Indaguei, com raiva. Claro que eu não confiava naquela mulher, mas Ana era sua filha. Será que nem assim aquela ela tinha coração ou sentimentos? — Ela não retornou nenhum dos recados que deixei em sua caixa-postal. Ela e o senhor Olavo estavam com... relações estremecidas e não estavam convivendo bem há algum tempo. Cheguei a perguntar o que tinha acontecido, mas Gomes me informara que não seria ético se ele contasse tais informações. Claro que compreendi o lado dele e não insisti mais no assunto. — Cheguei a obter informações com uma colega minha que é assistente social e ela me explicou como ficaria a situação como um todo. Você é o parente mais próximo e direto da Ana Baseggio, e se você concordar terá a guarda provisória dela, ou caso a resposta for negativa, terei que tomar outro caminho e... — Nem precisa concluir, Gomes — interrompi antes que ele, de fato, falasse qual era a outra alternativa. — É claro que concordo e irei fazer de tudo para cuidar muito bem dela. — Respondi sem hesitar e com a maior certeza que poderia existir em mim. Assinei tudo o que foi necessário para garantir que eu ficaria responsável pela minha irmã. — Onde você está hospedado? — o advogado quis saber. — Em um hotel aqui perto. Não queria ir para a casa do meu pai, imaginando que poderia encontrar Safira por lá. — Pode ficar tranquilo com relação a isso. — Notei um sorriso discreto em Gomes. Eu apostava que até ele não era muito fã daquela mulher. — Mas se me permite um conselho, você está com a guarda provisória e seria bom aos olhos do juiz que a menor ficasse num lugar já conhecido... em outras palavras, que ela ficasse na casa que já está acostumada e não em um hotel que não é bem uma residência fixa. Concordei com tudo que ele falava. Realmente eu precisaria fazer algumas adaptações da qual não estava esperando. Demos a reunião por encerrado e eu o acompanhei até a porta, saindo logo atrás dele para encontrar Manuela sentada no chão ao lado de Ana enquanto ambas estavam concentradas e empenhadas cada uma com o seu desenho. Gomes me informara que ele tinha ido em casa para trazer Ana até a empresa e ficou combinado que seria eu a levá-la embora. A partir daquele momento, eu iria tentar ser o melhor irmão mais velho possível, mesmo não soubesse nem por onde começar direito. Vi minha assistente dar um abraço apertado na criança ao seu lado de uma forma carinhosa. Realmente elas eram muito próximas. Consultei o relógio em meu pulso e vi que tínhamos passado das três da tarde, mas eu não tinha mais concentração para trabalhar. Informei para Manuela que iria encerrar o expediente mais cedo e que ela poderia fazer o mesmo. — Na verdade, senhor Baseggio, eu ia ficar um pouco mais para cobrir o meu atraso e... — Manuela, realmente não é necessário. — Impedi que continuasse. — Além do mais eu sei que teve uma explicação, então pode ficar tranquila e ir embora. Ela concordou um tanto que hesitante e eu fui em direção ao elevador. Acompanhamos Gomes até o seu carro, onde ele pediu um momento para tirar algo do seu carro que eu iria precisar. A minha cara de confuso assim que vi que ele me estendia uma cadeirinha infantil para encaixar no carro deveria estar muito evidente. Gentil e sempre atencioso, ele nos acompanhou até o meu carro dessa vez para poder instalar corretamente no banco traseiro do meu veículo. Em todo esse percurso, Ana foi segurando a minha mão, embora tenha ficado em silêncio. Eu não saberia dizer se era normal... Crianças costumavam falar pelos cotovelos, não é mesmo? Bem, pelo menos as que eu conhecia de filhos de colegas de trabalho. Quando, enfim, estava tudo arrumado, agradeci o Gomes por tudo, prometendo que manteríamos contato. O que seria realmente necessário. Então, eu e uma criança de cinco anos partimos em direção à nossa casa – embora não fosse nova – que nos aguardava. Observei pelo retrovisor uma criança sonolenta na cadeirinha e com o movimento do carro, acabou adormecendo em questão de minutos. O trajeto não demorou nem vinte minutos e logo me vi em frente ao portão do condomínio que meu pai morava. Me identifiquei e nossa entrada foi liberada depois dele fazer um telefonema. Conduzi o carro pelas ruas tranquilas, parando em frente à casa que eu me recordava tão bem. Em pensar que eu não imaginava vê-la mais. Muito menos ter a oportunidade de entrar dentro dela e falar que era minha. A briga com meu pai fora grande e as palavras que ele usou contra mim ainda machucavam... Como se fossem pequenos estilhaços de vidro que ficava me perfurando por dentro. Claro que eu poderia ter dado o primeiro passo para nos reconciliarmos, mesmo que não nos acertássemos. Mas agora eu tinha medo de ser tarde demais... E eu iria conviver com isso por toda a minha vida. O portão automático da garagem começou a abrir, assustando-me por um momento. Provavelmente alguém estava observando pela janela e viu que eu havia chegado – já que a minha presença foi autorizada a entrar depois que o porteiro ligou. Estacionei o carro, saindo dele em seguida e me dirigindo a porta traseira para retirar a criança adormecida. Ela realmente estava muito cansada, porque não acordara nem comigo me atrapalhando todo em soltá-la do cinto de segurança. A grande porta branca da frente se abriu antes de eu chegar, o que foi ótimo já que eu estava com a Ana adormecida o meu colo. O rosto que me recebeu me era conhecido. Aliás, era muito. Ivonete tinha um sorriso enorme no rosto e os olhos marejados. Ela era governanta da casa desde que eu me entendia por gente. A tia Nete – como eu costumava chama-la quando era criança – era uma senhora de sessenta anos, mas tinha um pique que invejava muita gente. Notando a pequena em meus braços, Ivonete foi em silêncio andando pela casa e me conduzindo para onde era o quarto de Ana. Coloquei a minha irmã com todo o cuidado para não acordá-la, vendo Ivonete se aproximar dela e deixar um beijo carinhoso em sua testa. Saímos silenciosamente do quarto, apagando a luz e fechei a porta. Assim que retornamos para a sala, Ivonete virou-se em minha direção. Seus braços me enlaçaram pela cintura, apertando-me com muita força para alguém da sua idade. — Como você cresceu, meu menino. — Sua voz saiu abafada, porém chegou nítida até os meus ouvidos. — Você está enorme. Realmente eu crescera nesses sete anos e estava com um metro e oitenta e cinco de altura. — Quanta saudade eu senti de você, Felipe. — Sua voz passava realmente essa emoção. Sua mão veio ao meu rosto, igual como ela fazia antes. — Também senti muita a falta da senhora e... — Senhora? Que senhora? — chegou a dar um passo para trás e o seu semblante parecia estar... ofendida? — Desde quando você me chama assim. Eu sou a tia Nete. — Certo, tio Nete. Peço desculpas para a senho... para você, então. — Dei um beijo estalado em sua bochecha arrancando uma gargalhada dela. Fomos até a sala onde eu fiz questão de pedir que Ivonete se sentasse – por mais que alegasse que tinha coisas para fazer – para podermos conversar. Tinha muitas coisas que eu precisava descobrir...
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