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1452 Palavras
A ligação da minha mãe chegou enquanto eu terminava de ajeitar o café. O celular vibrou insistentemente na bancada de mármore e, antes mesmo de atender, já senti um frio percorrer minha barriga. Segurei a caneca quente entre as mãos, o aroma reconfortante do café recém-passado falhando em aquecer a apreensão que me subia pela garganta. Sabia que ela não entenderia a minha escolha. Ainda assim, eu precisava ouvi-la. — Alô, mãe? — Minha voz saiu mais contida do que eu gostaria, abafada pelo som da própria respiração. — Marcela… você tem certeza disso? Trabalhar em um presídio? — a voz dela soou carregada de preocupação, quase decepção, ecoando a frase que eu já havia ouvido em meus pesadelos. — Não sei se é o melhor pra você, filha. Não consigo entender essa decisão. Para que tanto estudo, para que uma formação em uma das melhores universidades, se você vai se expor a isso? O que vão pensar? Suspirei, apertando a caneca com mais força, a alça quase machucando meus dedos. Pela janela da cozinha, o sol já se erguia, iluminando o apartamento que antes Ricardo e eu havíamos sonhado. — Eu sei que parece estranho, mãe. Mas é o que eu quero. Eu passei no concurso, você sabe o quanto me esforcei, o quanto eu abri mão pra chegar até aqui. Preciso começar. É uma oportunidade de fazer a diferença. — Você sempre foi determinada, Marcela, mas… — ela fez uma pausa, e eu imaginei a expressão dela, aquele olhar que misturava medo e amor, que carregava o peso de uma vida inteira dedicada à reputação e ao sucesso. — Seus tios perguntaram hoje na clínica do seu pai. Estão surpresos. Eu só não quero que você se arrependa. E se algo acontecer lá dentro? — Eu sei, mãe — falei ainda mais baixo, sentindo o peso da expectativa familiar. Eu também tinha minhas inquietações, claro, mas a ideia de recuar era insuportável. — Mas eu preciso fazer isso. Faz parte do meu sonho, mesmo que você não entenda que a medicina vai além dos consultórios chiques e dos corredores de hospital. — Eu sei que você vai dar conta, filha. Sempre deu. Só me promete que vai tomar cuidado, tá? Que vai pensar na sua segurança acima de tudo. — Eu prometo. — Forcei um sorriso que ela não podia ver, sentindo um gosto amargo na boca. — Vai ficar tudo bem. A ligação se encerrou com um “Eu te amo” carregado de ansiedade, quase um lamento. Guardei o celular e respirei fundo. Eu também tinha medo, claro. Um medo que se misturava à adrenalina do desconhecido. Mas precisava desse passo. Precisava provar a mim mesma que era capaz de ir além das expectativas, de traçar meu próprio caminho, por mais que isso significasse decepcionar aqueles que mais me amavam. Era a minha vida, a minha escolha. E, mesmo que o futuro fosse incerto, a sensação de estar no comando pela primeira vez era libertadora. [...] Decidi que era a hora de ir. Hoje seria o dia de levar os documentos ao prédio administrativo do sistema prisional para formalizar a minha admissão como médica. Vesti uma roupa formal, um tailleur cinza que eu só tirava do guarda-roupa em ocasiões importantes, e prendi os cabelos em um coque baixo e alinhado. Pelo reflexo do espelho, meu semblante parecia confiante, um ar aspirante de que tudo daria certo, por mais que, no fundo, uma pontada de nervosismo e ansiedade beliscasse meu estômago. Saí do apartamento, a chave do carro na mão, sentindo o sol da manhã em meu rosto. O ar fresco da rua não diminuiu a apreensão. Fui até o estacionamento pegar o meu carro, um Celta 2010, azul-marinho, que meus pais haviam me dado de presente de aniversário dois anos atrás. Esse carro, antes, pertencia ao meu irmão, mas ele o passou para mim quando conseguiu juntar o próprio dinheiro e comprou um modelo mais novo. Não sei como, mas minha mãe decidiu que o Celta seria meu. Ela devia ter ficado com pena de ver sua filha ter que pegar ônibus todo santo dia para ir ao hospital universitário. Lembro daquelas manhãs e noites, os quarenta minutos chacoalhando entre a casa das minhas amigas e a universidade, o cheiro de diesel, a aglomeração de gente. Às vezes, Ricardo ia me deixar nas aulas, quando conseguia um tempo na agenda dele, mas a maioria das vezes era no ônibus mesmo. Com toda certeza, minha mãe teve pena da minha rotina exaustiva. Ela sempre se preocupou com o conforto e a segurança, mesmo que, à sua maneira, tentasse controlar a minha vida. Liguei o motor, o ronco familiar do Celta me trazendo de volta ao presente. As mãos no volante estavam um pouco úmidas. Respirei fundo, tentando afastar as imagens que minha mãe havia plantado em minha mente: perigo, criminosos, arrependimento. Eu era uma médica. Eu estava preparada. Mas a voz dela, misturada com as minhas próprias inseguranças, fazia a viagem parecer mais longa e desafiadora. Enquanto dirigia, o motor roncava de forma suave, quase reconfortante, mas dentro de mim o coração batia acelerado. Eu sabia que estava indo para um lugar que mudaria tudo. Cada semáforo que eu parava, eu aproveitava para respirar fundo, ajeitar o cabelo, tentar conter o nervosismo que parecia queimar dentro do meu peito. Pensava em mim mesma. Na menina que, um dia, dividiu um kitnet com duas amigas de faculdade, economizando cada centavo, sem nunca perder a esperança de que um dia tudo ia dar certo. Agora, eu estava ali. Dirigindo rumo a um prédio onde a vida de outras pessoas e a minha iam se cruzar todos os dias. As árvores passavam pela janela como borrões verdes, e eu não conseguia evitar o frio na barriga. Eu sabia que era o que eu queria ser médica, mesmo num lugar onde poucos sonhavam em estar. Mas a coragem nem sempre parecia suficiente. Às vezes, no meio do trajeto, eu me pegava pensando se eu era forte o bastante. Quando cheguei ao prédio administrativo, estacionei com cuidado, respirando fundo antes de sair do carro. A fachada do prédio era sóbria e imponente, como tudo que parecia envolver o sistema prisional: portões altos, muros pintados num tom bege sem graça, e um letreiro discreto que m*l chamava atenção. Dei uma olhada rápida ao redor, como quem quer ter certeza de que está no lugar certo — e, ao mesmo tempo, como quem quer adiar o inevitável. Caminhei em direção à entrada, sentindo o barulho dos meus próprios passos ecoarem na calçada de concreto. A cada passo, o nervosismo parecia aumentar, mas eu não deixava transparecer. Mantinha a postura ereta, segurava firme a pasta com meus documentos e tentava respirar fundo para não deixar que as mãos tremessem. Entrei no saguão, onde o cheiro de café e de papel velho me fez lembrar dos corredores dos hospitais onde estagiei. Um segurança me cumprimentou com um aceno de cabeça, e eu respondi com um sorriso discreto, embora minha mente estivesse a mil. O prédio administrativo do sistema prisional era antigo, com paredes manchadas pelo tempo e um cheiro de tinta velha que lembrava corredores escolares. Havia um silêncio estranho ali, um silêncio carregado, quebrado apenas pelo eco dos meus próprios passos no piso de azulejos brancos, já gastos. As janelas altas deixavam entrar uma luz amarelada que parecia observar tudo. Um ventilador antigo girava preguiçoso no teto, espalhando o ar quente e abafado pelos cantos. As paredes exibiam cartazes com avisos em letras garrafais: “Segurança é prioridade”, “Identificação obrigatória”. Cada detalhe parecia me lembrar que eu não estava mais no hospital, naquele mundo onde me sentia em casa. O ambiente ali parecia sério demais, quase frio. Paredes brancas, quadros com fotos de funcionários em eventos oficiais, e uma mesa de recepção onde uma mulher de semblante cansado me pediu para preencher um formulário. Sentei-me numa das cadeiras de plástico azul, que rangia sob meu peso, e comecei a escrever meus dados com a caneta que a moça me emprestou. Cada letra parecia pesar, como se aquele simples ato de preencher o formulário fosse o primeiro passo de algo muito maior e, ao mesmo tempo, assustador. Quando terminei, entreguei tudo de volta e ela me direcionou para uma sala onde eu deveria deixar todos os documentos. A pasta estava quente na minha mão, como se absorvesse todo o meu nervosismo. Enquanto aguardava a chamada, pensei no que essa nova fase poderia trazer: desafios, medos, mas também a chance de fazer a diferença de um jeito que eu sempre sonhei, mesmo que fosse num lugar onde a maioria das pessoas só via perigo.
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