12 // Furacão

1011 Palavras
"Muitas vezes do inesperado, nasce o que se espera uma vida inteira." Estava terminando de amarrar o tênis em frente à televisão que passava as notícias do dia. Valerie havia acabado de chegar em casa e se sentou ao meu lado, aumentando o volume da televisão. A reportagem mostrava o ato de vandalismo que houve a tarde no cemitério principal da cidade. Não entendia muito bem o que essas pessoas sentiam ao quebrar o que as pessoas batalharam tanto a conquistar. Um local tão sagrado, onde enterrávamos nossos entes queridos para que pudessem descansar em paz. — Um bando de idiotas. — Valerie falou irritada. — No mínimo são um bando de adolescentes sem cérebro. Me perguntava por que essas pessoas não buscavam outras maneiras para expressar seus sentimentos. Não havia necessidade alguma de quebrarem tudo. — Tenha uma boa noite, até mais tarde. — Falei antes de sair. Estava endireitando as cadeiras nas mesas e ajustando as velas e flores no centro das mesmas. Lorenzo passou por nós como um furacão, batendo a porta atrás de si. — Outro dia daqueles. — Álvaro desabafou ao meu lado. — O chefinho está ficando louco. — Ele deveria estar frequentando um psicólogo. — Sussurrei. Esperávamos que Caterina viesse para o restaurante nessa noite, como senhor Riccardo havia dito que haviam conversado para ela retornar ao trabalho. Mas já estávamos quase abrindo e nenhum sinal dela. Giovani surgiu na porta da cozinha e fez sinal para mim. — Pode nos ajudar na cozinha? — Giovani perguntou. Era claro que eu iria, mas sabia muito bem que ele estava se referindo a ajudar Lorenzo. Aproximei-me amedrontada de Lorenzo, tentando observar o que ele estava fazendo. Assim como os outros ajudantes que haviam na cozinha, ele estava acertando os cortes dos legumes e carnes para deixar tudo pronto para quando os clientes começassem a chegar. Pelo menos nessa noite ele não estava falando nada. Quer dizer, vez e outra me dizia o que fazer com a voz baixa, como se já houvesse gasto toda a sua voz antes. Os olhos estavam vermelhos de quem havia chorado recentemente. Maldita vida que nasci curiosa. Por que ele estava triste novamente? Era por conta da sua mãe? O fato de fazer vinte anos de sua morte estava mexendo com ele de novo? Havia uma pequena televisão na cozinha que ficava no canal local, era horário do jornal novamente e enquanto servíamos os pratos, repassaram a reportagem do cemitério e do estrago que haviam feito. Lorenzo simplesmente explodiu. Passou a jogar tudo que estava na sua frente no chão. Lágrimas percorriam seu rosto. Fortes estrondos ecoavam pela cozinha. Pratos quebrados estavam espalhados por todo chão. Olhei em volta e todos olhavam assustados a cena. As senhoras que cuidavam da louça pareciam aterrorizadas, assustadas no canto da cozinha, como se tentassem se esconder. Péssimo dia para o seu pai não vir para o restaurante. Giovani estava sem reação, não conseguia se mover. E então era eu, a funcionária metida que não conseguia cuidar da própria vida que teria que intervir. Aproximei-me decidida enquanto ele derrubava tudo, e passei meus braços em volta de seu corpo, fazendo com que seus braços ficassem presos ao lado de seu corpo. Seu corpo estava rígido e conseguia sentir suas lágrimas caindo em mim. — Acalme-se Lorenzo, por favor. — Pedi. — Está assustando a todos, os clientes estão escutando. — Destruíram o túmulo de mamãe. — Choramingou. — Ela só queria descansar. — Eu sei e sinto muito por isso, mas você precisa ficar calmo e parar com isso. — Pedi. Aos poucos o corpo rígido de Lorenzo passou a relaxar em meus braços e quando menos esperava estava envolvida em um abraço. Ele havia abaixado sua cabeça de modo que ela estava encostada em meu ombro e chorava ali. — Vamos usar a porta dos fundos e iremos embora. — Avisei. Ele não havia estragado tudo, muitos dos acompanhamentos estavam prontos, ou seja, os outros ajudantes conseguiriam dar sequência em nossos pratos sozinhos. Giovani tomaria conta da cozinha até fecharem o restaurante, o que não demoraria muito. Busquei minha bolsa no armário e conduzi Lorenzo para fora do restaurante até chegarmos em seu carro. — Respire fundo. — Pedi. — Pelo menos até chegarmos em seu apartamento. Fomos o caminho em silêncio como da primeira vez. Não esperava ficar muito ali, apenas até me certificar que ele se acalmaria e ficaria melhor. Lorenzo caminhou até o seu quarto, e eu o segui, mesmo não recebendo nenhum convite. Assim que me encostei na porta, o vi se despir ali mesmo, não sei ao certo se sabendo que eu estava olhando. Não consegui desviar o olhar, fiquei parada olhando-o trocar sua roupa de trabalho por uma calça de moletom escura. Ele se deitou em sua cama e ficou encarando o teto. — Sei que terá a chance de fazer algo ainda melhor para ela. — Afirmei ao me sentar ao seu lado. — Mas de coração, mesmo que não me queira aqui e deteste que eu me meta na sua vida, acho que deveria procurar ajuda de um psicólogo. Lorenzo virou a cabeça para me olhar, ele realmente parecia atento ao que eu estava dizendo. — Sei que parece assustador procurar ajuda, não quer dizer que você esteja doente, só que precisa de alguém com experiência para seguir em frente. — Expliquei. — Nem sempre conseguimos desabafar e resolver nossos sentimentos com as pessoas que amamos. Às vezes o que precisamos é desabafar com um estranho. — Eu odeio que você esteja aqui. — Sussurrou. — Eu sei. — Afirmei. — Eu sei que sou muito intensa e metida, que com certeza não deveria estar interferindo na vida do meu chefe e que isso pode resultar na minha demissão amanhã, mas meu coração estará em paz, e é isso que importa. Lorenzo soltou um pequeno sorriso e deu duas batidinhas no espaço da cama vazio ao seu lado, afinal, eu havia me sentado bem na ponta da cama, mantendo uma boa distância entre nós dois.
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