Capítulo 05

1135 Palavras
ANA Olhei para o pote de comida congelada no freezer e o peguei, colocando-o no micro-ondas sem pensar. Sentei na cadeira da cozinha, com a cabeça latejando de dor. Apoiei minha cabeça sobre as mãos, com os cotovelos apoiados na mesa. — O que vou fazer sem você, Jhon? — murmurei para mim mesma, minha voz embargada pela tristeza. O som do micro-ondas me despertou dos meus pensamentos dolorosos. Levantei e peguei o pote de comida, mas ele não estava totalmente descongelado. Resmunguei de frustração, jogando-o na mesa com desdém. Não estava com fome, mas sabia que precisava comer alguma coisa para aliviar a terrível dor de cabeça que me consumia. Meu celular começou a tocar, e vi que era minha mãe ligando. Eu não queria atender, porque sabia que assim que ouvisse a voz dela, as lágrimas viriam em cascata. Ignorei a ligação e me sentei na cadeira, mexendo na comida ainda congelada. Senti um nojo profundo e empurrei o pote para longe. Comecei a chorar novamente, abraçando o meu próprio corpo em busca de conforto. O cheiro do Jhon impregnado em sua camisa me envolvia, e eu afundei ainda mais na tristeza, desejando que ele estivesse ali para me segurar e secar as lágrimas. O som do celular continuava a vibrar na mesa, como um eco insistente da realidade que eu estava tentando evitar. Queria poder escapar daquele momento, da dor avassaladora que me dominava. Mas, ao mesmo tempo, sabia que não podia fugir para sempre. Minha mãe estava preocupada, e eu precisava enfrentar as consequências da minha própria dor. Com dificuldade, peguei o celular e desliguei as notificações, silenciando o aparelho. Não estava pronta para conversar, para explicar o que estava sentindo. A perda de Jhon era um abismo profundo que eu temia não conseguir superar. Puxei o pote e com o garfo fiquei mexendo na comida congelada diante de mim. Cada garfada era como uma agonia, e o sabor parecia inexistente. A comida não me preenchia, assim como nada mais preenchia o vazio que Jhon deixara para trás. As lágrimas continuavam a escorrer pelo meu rosto, e eu solucei silenciosamente. Abraçava meu próprio corpo, como se isso pudesse me proteger do mundo impiedoso que agora parecia tão c***l. A camisa do Jhon, que eu usava, tinha o cheiro dele, e isso me fazia sentir um pouco mais perto dele, mesmo que ele já não estivesse ao meu lado. E naquele momento de dor e solidão, eu me perguntava como poderia continuar a viver sem a pessoa que era o centro do meu mundo, o amor da minha vida. A comida na minha boca tinha a textura de borracha, e o gosto era quase inexistente. Não era capaz de engolir aquilo, e sentia um nojo crescente que me fazia parar de comer. Levantei da cadeira, peguei o pote e joguei-o na lata de lixo, onde o odor forte de resíduos me atingiu. — Jhon, era sua vez de jogar fora — murmurei, olhando para o saco de lixo transbordando. Era uma das pequenas tarefas que ele sempre assumia, e agora me via confrontada com a realidade de sua ausência. Joguei o pote no lixo e fechei a tampa, ignorando o cheiro desagradável. Voltei para a cama e me joguei nela, encolhendo-me e abraçando meu próprio corpo como se assim pudesse me proteger da dor que me dominava. Lentamente, a exaustão e o peso emocional me venceram, e acabei adormecendo, mesmo que os pesadelos e a realidade da perda continuassem a assombrar os meus sonhos. Acordei de madrugada, sentindo a cabeça latejar implacavelmente. A dor era como uma constante lembrança da minha tristeza, como se o universo quisesse me assegurar que o pesadelo era real. Levantei da cama com cuidado, tentando não perturbar o silêncio da noite. Caminhei silenciosamente até a cozinha, sentindo a necessidade de beber água para aliviar a secura na minha garganta. Enchi um copo e tomei longos goles, deixando a água gelada me acalmar. A dor de cabeça persistia, mas eu sabia que não havia nada que pudesse fazer para afastá-la completamente. Lembrei-me de pegar o meu celular, que estava sobre a mesa da cozinha. Assim que o desbloqueei, vi várias ligações e mensagens de texto da minha mãe e de amigos que estavam preocupados comigo. Ignorei todas elas, pois não tinha forças para falar sobre a minha dor naquele momento. Decidi enviar uma mensagem para a minha cunhada, a única pessoa que parecia entender o que eu estava passando. "Precisa de alguma ajuda com o velório?" Escrevi, hesitante. Ela visualizou a mensagem rapidamente, e eu soube que ela também não estava conseguindo dormir. "Só esteja pronta amanhã às oito da manhã, vou passar aí para te buscar", ela respondeu. Bloqueei o celular novamente e o coloquei de volta na mesa. Voltei para a cama após tomar uma aspirina para a dor de cabeça, desejando que não fosse apenas a dor que passasse, mas que o pesadelo que eu estava vivendo chegasse ao fim. Acordei na manhã seguinte com a sensação de que alguém estava no meu quarto. Os olhos ainda pesados de sono se arregalaram de surpresa quando vi a minha cunhada parada ali, me observando com um olhar compreensivo. — Como você entrou? — perguntei, ainda um pouco assustada com a presença dela no meu quarto. Ela deu de ombros e respondeu com uma expressão calma: — A chave do seu apartamento estava com o Jhon. Eu a encontrei entre os pertences dele, achei que você iria precisar. Olhei para a minha cunhada e notei que ela havia disfarçado bem as olheiras e a tristeza com maquiagem. Era como se estivesse escondendo a dor por trás de uma máscara cuidadosamente aplicada. Não sabia se eu seria capaz de fazer o mesmo. — Certo — murmurei, levantando da cama. — Vou tomar um banho. Ela me olhou com compaixão e, ao mesmo tempo, uma certa impaciência. — Vai precisar mesmo, você está cheirando muito m*l — ela resmungou, não poupando palavras. A observação dela sobre o cheiro me fez lembrar do lixo que Jhon nunca teve a chance de tirar, um resquício da minha negligência em cuidar de coisas tão simples, que o Jhon costumava fazer. Meus olhos marejaram de lágrimas mais uma vez, e senti o peito apertar com a tristeza avassaladora. — É o lixo que o Jhon não tirou — disse, a voz falhando. A dor apertou meu peito ao mencionar o nome dele. — Vou tirar isso para você agora — disse ela, saindo do quarto de forma decidida. Deixei escapar um suspiro soluçante e senti a dor profunda da perda de Jhon pesar ainda mais sobre mim. A solidão do quarto vazio ecoava com a ausência do seu sorriso gentil, e eu sabia que nunca mais seria capaz de escapar dessa dor dilacerante.
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