EDUARDO
Eu estava inquieto naquela sala de consultório particular, um lugar onde geralmente minha ansiedade era mais sobre compromissos de negócios do que sobre minha própria saúde. Eu olhava para o meu relógio caro, minha perna balançando involuntariamente, enquanto esperava pelo meu médico particular, Dr. Mendes. Ele não havia entrado com os resultados dos meus exames ainda, e a demora estava me deixando cada vez mais agitado.
Finalmente, a porta se abriu, e o médico entrou na sala, limpando a garganta. Eu me endireitei na cadeira, observando-o se sentar atrás de sua mesa e puxar o notebook. A expressão séria em seu rosto não me passou despercebida.
— Então, doutor? — perguntei ansioso, coçando a cabeça com um gesto nervoso.
Ele respirou fundo antes de responder.
— Sinto lhe informar, Eduardo — o médico olhou para mim com um semblante carregado de más notícias — as notícias não vão te agradar.
Eu engoli em seco, a ansiedade aumentando ainda mais.
— É apenas uma gastrite como qualquer outra, não é? — tentei brincar nervoso, mas minhas palavras traíram meu medo.
O médico não respondeu imediatamente, e sua hesitação me fez sentir um nó no estômago.
— O senhor precisa estar preparado. Quer que chame alguém? — ele perguntou com compaixão.
Balancei a cabeça, decidido a enfrentar o que quer que fosse.
— Não preciso de ninguém. Pode me contar, doutor.
Ele suspirou e então disse a palavra que eu temia.
— Câncer no estômago…
Meu coração parecia ter parado por um momento. Eu não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
— Tem chances de cura com tratamento? — interrompi nervosamente, desesperado por uma resposta positiva.
— Sim, mas não posso garantir, dado o avanço do crescimento das células no seu organismo.
Levantei-me da cadeira, encarando o médico com um olhar determinado.
— Tenho dinheiro. Posso pagar por qualquer tratamento necessário.
O médico balançou a cabeça lentamente.
— Não é assim que as coisas funcionam. — Suas palavras foram como uma facada.
Eu estava arrasado com a notícia. Eu sabia que o câncer era genético em minha família, mas nunca pensei que chegaria a mim. Meu pai, meu avô e meu tio haviam perdido a vida da mesma forma, e eu sempre fazia exames regularmente. No entanto, pular um ou dois anos havia sido tarde demais. Eu tinha governado um império com sucesso, mas agora estava pagando o preço. Meus pensamentos se voltaram para minha noiva, Rose, e como eu iria contar a ela sobre essa terrível notícia.
Eu respirei fundo, passando a mão pelo rosto em um gesto de exaustão. Aquela notícia pesava como um fardo insuportável sobre os meus ombros.
— Faça o que for necessário, doutor Mendes — murmurei por fim, já exausto. Fazia dias que eu sentia uma dor interminável no estômago. Eu havia tomado remédios para acalmar a queimação e adiantar os exames, mas agora estava feito. A verdade estava diante de mim, e tudo parecia ter piorado.
O médico continuou explicando o plano de tratamento, mencionando quimioterapia e a necessidade de conversar com meus familiares. Eu o interrompi, minha voz soando fria.
— Eu sei o que precisa ser feito. Não preciso de conselhos.
A verdade era que eu sempre estive sozinho. Minha família se preocupava apenas com a minha capacidade de governar o império que meu pai havia deixado, e pouco mais. Tinha sido uma sorte encontrar Rose, minha noiva, que entendia e respeitava meu estilo de vida. m*l tinha tempo para sair e conhecer outras pessoas além do trabalho. Rose era uma esposa-troféu, e, embora ela pudesse ser exasperante às vezes, a amava por suportar minha agenda apertada.
Ao sair da clínica, o mundo lá fora parecia nublado após uma chuva forte, refletindo meus pensamentos e incertezas. Entrei no carro, agarrando o volante com tanta força que desejava que pudesse liberar toda a raiva que estava sentindo, mas não era assim que funcionava. O que poderia fazer? Dava a partida no carro e seguia para casa, com a necessidade de ligar para Rose e marcar um jantar para compartilhar com ela as notícias que mudariam nossas vidas para sempre.
Cheguei à mansão e estacionei o carro na garagem. O mordomo, que estava à porta, me olhou preocupado assim que abri a porta do veículo.
— Boa tarde, senhor. Tudo bem? — perguntou com cuidado antes de fechar a porta após minha entrada.
— Sim — respondi sem olhar para o homem, caminhando em direção à escada. — Vou tomar um banho. Providencie um café da tarde, preciso comer algo.
O mordomo assentiu e se encaminhou para a cozinha, enquanto eu seguia para o quarto. Ali, afrouxei a gravata e tirei o blazer, deixando-os sobre a cama. Sentei-me na beira da cama, pegando o celular e ligando para Rose.
— Querida — disse assim que ela atendeu —, poderia vir em casa para jantarmos?
Sua resposta veio animada.
— Pensei em marcar um jantar naquele restaurante que abriu na semana passada. O que acha?
Eu hesitei por um momento, preocupado com a possibilidade de passar m*l em público.
— Prefiro algo mais particular.
Rose era insistente, e sua voz do outro lado da linha estava cheia de entusiasmo.
— Vamos, querido. Faz tempo que não saímos.
Eu podia imaginar seus olhos brilhantes e aquele sorriso encantador que só eu conhecia, como se estivesse pedindo algo.
— Tudo bem — concordei por fim. Não estava com disposição para discutir. — Passo por volta das sete e meia. Esteja pronta.
Ao desligar a ligação, prometi a mim mesmo que não comeria nada naquela noite, sentindo o peso das palavras do médico ainda sobre mim. A incerteza do que o futuro me reservava pairava no ar, e a ideia de compartilhar essa notícia com Rose me enchia de ansiedade e medo.
Deixando o celular de lado, eu me levantei da beira da cama e me dirigi ao banheiro. Precisava de um tempo sozinho, um momento de solidão para processar as palavras do médico e a enxurrada de emoções que me assolavam.
Enquanto a água quente caía sobre mim, eu me permiti relaxar por um breve instante. O vapor preenchia o ambiente, e eu fechei os olhos, tentando acalmar minha mente inquieta. Sentir a água deslizar sobre minha pele era uma sensação reconfortante, quase como se pudesse lavar as preocupações e o medo.
No entanto, a verdade era inegável. Minha vida estava prestes a mudar de uma forma que eu nunca imaginara. O câncer, uma palavra que soava como um destino c***l e inescapável, agora fazia parte da minha realidade. Eu não sabia o que o futuro me reservava, mas estava determinado a lutar.
Após o banho, vesti uma roupa limpa e elegante, mesmo que o peso da notícia ainda pesasse sobre mim. Não podia permitir que Rose percebesse o turbilhão de emoções que eu estava enfrentando.
Desci as escadas e encontrei o café da tarde já servido na sala de estar. O mordomo me olhou com preocupação enquanto eu me aproximava, mas eu lhe dei um aceno, indicando que estava bem.