Capítulo 12

1762 Palavras
*Elisa* — Eu só queria agradecer por ter ficado com a bebê pra mim. Enquanto ouvia a voz de Camila na chamada, Elisa revirou os olhos e se manteve em silêncio. Sabia que a amiga não tinha ligado às dez da noite apenas para “agradecer”. Porém, não facilitaria o processo para o que quer que a outra fosse dizer. — Não tem problema, ela é um amor — murmurou, mantendo o olhar fixo no teto sobre sua cabeça. Estava em um daqueles momentos de esgotamento que vinham ocorrendo muito nos últimos dias, quando tudo o que queria fazer era ficar deitada na cama e esperar o tempo passar. — Pois é... — pausa enquanto Camila hesitava sobre o que falaria ou não. Elisa não interferiu, realmente não tinha ânimo nem para confrontar a outra — Ah, sabia que ele escolheu um nome para ela? Isso a fez focar na conversa automaticamente. — É? — Sim, ela se chama Beatriz, não é lindo? Elisa murmurou em concordância, enquanto tentava isolar qualquer reação causada pela informação. Não teve muito sucesso, seu peito foi tomado pela mesma sensação estranha que a tomou quando Jamaica mencionou a história dos nomes. Nomes para os filhos deles, m*l podia acreditar em como ele havia jogado tão baixo. Ou talvez ele tivesse mesmo aderido a ideia dos nomes serem para os filhos deles, logo depois de assumir o compromisso de ficar com ela para “protegê-la”. Caramba, aquela história ainda a irritava mesmo depois de anos. E poderia até ficar ainda mais brava por Jamaica ter mencionado a historinha dos nomes, isso se depois ele não agisse como se não fosse mais insistir na ideia ridícula de ficar com ela. Era uma mudança tão inesperada que Lis ainda não sabia como reagir a ela. Durante os últimos oito anos teve que aturar toda a obstinação dele em seguir com a ideia de tê-la, conquistá-la, assumir um compromisso, fingir estar apaixonado, e então, de repente, ele não estava mais fazendo nada disso. Não estava mais a olhando como um cachorrinho abandonado ou como alguém prestes a se declarar. De uma hora para outra, os olhares estavam menos insistentes e ele até a chamou de bocó exatamente como fazia antigamente, e a irritou, e zombou dela como se realmente não se importasse em impressioná-la... — ... e é por isso que eu vou ficar com ela essa semana — a voz de Camila dispersou seus pensamentos. Elisa piscou, mais uma vez se forçando a parar de pensar em toda a interação que teve com Jamaica naquela manhã, ou em como em algum momento quase relaxou na presença dele como não fazia há muito tempo. — O que você disse? — indagou, já que tinha se desligado da conversa com a amiga à ponto de não ouvir nada. — Que vou ficar com a Beatriz essa semana, o Jamaica tem um monte de coisas para resolver e a babá dela está gripada, então eu vou assumir o papel, não quero que ele se desespere e coloque qualquer uma parar ficar com a menina — Elisa ouviu tudo em silêncio, sem comentar como duvidava que Jamaica fosse colocar qualquer uma para olhar a filha. O conhecia bem o bastante para saber que nunca trataria a filha com menos que o melhor — Mas eu estou realmente com medo, e se eu queimar tudo de novo? Nesse momento Lis entendeu o motivo da ligação da outra. Se não se sentisse tão cansada, teria rido do teatrinho. — Você quer que eu vá te ajudar com ela — não foi uma pergunta, ainda assim, Camila começou a se justificar em uma velocidade que denunciava que, sim, Lis estava certa: — Não... quer dizer, se você topasse ia ser muito bom, porque você sabe como eu sou desastrada, e eu odiaria me atrapalhar de novo com a bebê ou começar a chorar junto com ela, e o Jamaica realmente ficaria muito decepcionado, e não quero deixar ele preocupado ou desesperado para colocar uma pessoa qualquer no posto de babá, além disso, seria terrível se ele fosse para fora do morro resolver as coisas com a cabeça distraída porque está preocupado com a bebê em casa... — Tudo bem, eu te ajudo. O silêncio que se seguiu foi a prova de que Camila ficou tão surpresa quanto ela com a sua decisão. — Você... ajuda? — Camila soou realmente confusa. Elisa suspirou. — Não é nada demais. Bom, ao menos foi disso que tentou se convencer. Além disso, odiaria deixar Jamaica sair do morro preocupado com a filha. E se ele ficasse distraído e se machucasse? Podia não querer muita coisa com ele, mas isso não queria dizer que não se importava com a segurança dele. Não que fosse admitir em voz alta, muito menos para Camila. — Ah, nossa — a amiga pigarreou — Quer dizer, legal... — Mas você tem que prometer que não vai armar de novo para me deixar sozinha com ele — ressaltou, já que realmente só faria aquilo pela bebê. Não é porque agora Jamaica vinha agindo de um jeito melhor que baixaria a guarda de vez. Não mesmo. — Eu não armei... — Ah, corta esse papinho — interrompeu — Que horas temos que chegar na casa dele amanhã? — Sete — a palavra denunciou toda a animação da outra. O resto da conversa foi mais leve e até arrancou alguns risos seus. Quando encerrou a chamada, Elisa rolou na cama, se convencendo de que, desde que Jamaica houvesse mesmo desistido da ideia ridícula de conquistá-la, não faria m*l algum ajudar com a pequena Beatriz. Afinal, não era realmente uma megera ao ponto de ignorar as necessidades da filhinha do seu ex melhor amigo. *** No dia seguinte teve a confirmação de que Camila não tinha mesmo habilidade para ficar sozinha com uma criança. Depois de rir até chorar de mais um desastre da amiga, as duas colocaram Beatriz para dormir e se sentaram na sala para assistir. Já era meio da tarde, e por mais que não fosse acostumada a cuidar de crianças, Elisa precisava admitir que ficar com Beatriz foi extremamente... satisfatório. Foi como uma folga da sua rotina em casa, onde vivia se escondendo no quarto, fugindo da própria mente, sendo engolida por aquele cansaço absurdo. Era como se a proximidade de Beatriz não só lhe distraísse, como lhe revigorasse. Ela e Camila tinham finalmente achado algo bom para assistir durante a soneca da bebê, quando a porta da frente se abriu e Jamaica passou por ela. — Cara, tô morrendo de fome — ele já entrou murmurando, tirando a pistola do cós da bermuda e deixando sobre o raque — Me diz que tem alguma coisa pra lanchar. — Não tem — Camila riu — Viu só? Isso que dá ficar m*l acostumado, agora a Dandara tá doente e você vai passar fome. Elisa mordeu a língua para não fazer nenhuma pergunta, e nem precisou, já que Camila se virou para ela, ainda em tom de zombaria, e continuou: — Como se a gente fosse fazer bolinho para ele lanchar como a Dandara faz, tá muito m*l acostumado. — Não começa, Pat — Jamaica resmungou, ao mesmo tempo em que Elisa dizia, sem nem perceber que tinha murmurado alto demais: — Aposto que já levou ela pra cama. Caraaaaaamba. Ela quis se bater. A sala ficou em silêncio. Camila estava boquiaberta, a encarando em um misto de surpresa e dúvida, já Jamaica tinha fechado a expressão. — Não levei, e a Dandara não é o tipo de mina que a gente só come — ele disse, parecendo levemente irritado. Então você quer fazer mais que comer ela? A pergunta quase escapuliu, mas Lis segurou a língua. Aquilo não era mesmo da sua conta. Por que merda estava se metendo naquele assunto, afinal? — Foi m*l, falei sem pensar — murmurou, tentando aliviar o clima — É só que te conheço, você sempre ganha todas com seu charminho. — Nem todas — Jamaica deu de ombros, ainda sério — E a Dandara não cairia na minha, de qualquer jeito. — Espera — Camila interferiu, pulando do sofá — Você soou decepcionado? — Não começa, Pat — ele revirou os olhos. — E se ela gostar de você? — Camila insistiu. Jamaica desviou o foco para a cozinha. — A mina é da igreja — ele caminhou para o outro cômodo, sendo seguido por uma Camila muito animada. — A gente já conversou sobre isso — ela interveio. Eles já tinham conversado sobre Dandara? De repente Lis sentiu uma enorme vontade de ir embora. Não que se importasse com a ideia de ele aparentemente ter arranjado uma nova amiga que ocupava o exato papel que ela ocupou no passado depois de passar anos com o posto vago. Claro que não tinha nada a ver com isso. Ela só... não estava muito confortável naquele sofá, era isso. Ela aumentou o volume da televisão e fez um esforço enorme para não ouvir como Camila e Jamaica ainda falavam da tal Dandara. Quando finalmente saiu da casa dele, quase uma hora depois, o cansaço costumeiro começou a se enraizar nos seus ossos. Só de imaginar os olhares que enfrentaria enquanto atravessava o morro e depois as horas que passaria no quarto tentando não pensar em nada que a fizesse querer se jogar de um prédio... — Posso perguntar uma coisa? — Camila murmurou ao seu lado após aguentar impressionantes dois minutos de silêncio. Lis suspirou. — Não... — Aquilo lá dentro foi ciúmes? — a amiga perguntou como se não escutasse sua resposta. Lis revirou os olhos. — Não sei do que você está falando. — Você ficou com ciúmes da Dandara? — insistiu. Amava Camila, mas ela era tão irritante às vezes. — Por que eu sentiria ciúmes dela? — Por que ela pode se tornar a futura namorada do Jamaica? Ela não vai se tornar a futura namorada dele, ele nem namora, nunca namorou, seu cérebro respondeu automaticamente, sem paciência. Obviamente não disse nada daquilo em voz alta, apenas deu de ombros. — Se ela fizer ele feliz, não vejo problema. Camila a observou com os olhos semicerrados. Ela fingiu não notar. — Que bom que pensa assim — a amiga disse devagar — Porque eu e a Índia estamos com um plano novo para juntar os dois. Elisa forçou um sorriso. — Você e seus planos loucos — provocou, enquanto repetia para si mesma como não se importava.
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