Capítulo 09 - Um farvozinho

1660 Palavras
*Elisa* Na terça-feira, Elisa acordou às dez da manhã com seu celular tocando sem parar. Não queria levantar da cama, ultimamente a vida andava tão cansativa que a perspectiva de fazer qualquer coisa além de dormir, a deixava nervosa. As opções eram sempre as mesmas: ficar em casa surtando cada vez que a mãe fazia algum esforço que, para ela, parecia exagerado. Ou sair na rua e aturar os cochichos e os olhares de julgamento sobre si, o que a sufocava de um jeito que não sabia lidar. Ou chamar Camila para passar um tempo juntas, só que a amiga passava o dia todo ocupada com as coisas do morro, fora que, se Elisa fosse sincera, admitiria como preferia evitá-la também, apesar de Camila não julga-la como o restante do morro, ainda tinha aquela mania de insistir no assunto Jamaica, o que Lis não precisava no momento. E por falar em Camila, foi só Elisa achar o celular na bagunça da sua cama para ver o nome da amiga brilhar na tela. Quando a chamada caiu, viu a notificação mostrando que aquela era a sexta ligação perdida. Camila não desistiria, por isso, quando o celular tocou mais uma vez, ela atendeu, já pronta para inventar alguma desculpa ou se esquivar de qualquer assunto... — Preciso da sua ajuda — Camila disse antes mesmo que Lis tivesse a chance de murmurar um “Alô”. O desespero na voz da outra fez ela consertar a postura e focar na chamada. — O que aconteceu? Os três segundos de hesitação a deixaram ainda mais inquieta. — Camila, fala logo, o que acontece? — A babá da bebê ficou gripada, o Jamaica ia ficar com ela, mas ele precisava sair do morro para resolver um assunto externo... — Ele tá bem? — seu coração acelerou, a mente estalou com uma onda de medo enquanto mil possibilidades de desastres se passavam na sua mente. Era isso o que acontecia em qualquer brecha depois de ele quase ter morrido no ano passado, mesmo que ela não quisesse, mesmo que fosse irracional, qualquer situação fora do normal o envolvendo era como um gatilho que a mandava direto de volta às horas em que não sabia se ele sobreviveria ou não. — Tá, ele tá bem. Mas a casa dele... Elisa deixou o ar escapar, fechando os olhos com o alívio de saber que seja qual fosse o problema, não tinha sido com ele. Não importava o motivo da ligação de Camila, elas poderiam dar um jeito em qualquer outra coisa, a menos que... — A bebê tá bem? — interrompeu de novo, antes que a amiga pudesse continuar. Podia nunca ter visto a criança, mas a ideia dela se machucando a deixava... desesperada de um jeito inexplicável. — Ela tá bem, ninguém se machucou — Camila se apressou em dizer antes de hesitar de novo — Mas talvez eu tenha me distraído com ela e me esquecido do leite no fogo e... Virou uma bagunça, Lis. Não sei o que fazer. E agora ela não para de chorar, não é frauda suja, não é fome, eu só... — a voz da amiga embargou, Elisa quase deixou o riso escapar. Essa era Camila, sempre desesperada e catastrófica — Preciso de ajuda, pode ser para limpar a cozinha, ou parar consolar a bebê. Ou para me consolar... Se o Jamaica chegar e vir essa bagunça, nunca mais vai confiar em mim para ficar com ela. — Não sei, acho que ele não devia mesmo confiar — brincou, já saindo da cama. Camila fungou do outro lado. — Eu sou confiável — ela choramingou, o que lhe arrancou um riso — Não tem graça. — Claro que não — Lis prendeu o celular entre o ombro e o rosto, enquanto procurava algo não muito amassado para vestir entre a pilha de roupas sobre a cama — Eu fico imaginando o que vai acontecer quando você e o Baroni começarem a executar o plano dele de povoar o mundo. Camila se engasgou do outro lado , Lis voltou a rir. — Que plano? Passou os dez minutos seguintes provocando a amiga, enquanto se vestia e tentava se convencer de que não haveria problema em ir até a casa de Jamaica ajudar na bagunça. Tinha criado uma regra sobre evitar a casa dele ou qualquer lugar em que ele estivesse, e conseguia cumprir essa regra na maior parte do tempo. Mas dessa vez não precisava se preocupar, afinal, ele não estaria em casa, certo? Só encontraria Camila e a bebê... Elisa se recusou a pensar muito nessa última parte. Vinha se segurando durante os últimos dias para não se aproximar da criança. Não fazia sentido se aproximar, já que ela e Jamaica m*l se falavam, mas uma parte sua queria tanto ver como era a filhinha dele. Assim como uma parte sua vivia lhe acusando por não ajudá-lo com o bebê. Claro que esse tipo de pensamento vinha daquela partizinha irritante da sua versão adolescente que ainda não havia morrido e que ainda... se importava mais do que o saudável com Jamaica. Uma partizinha que normalmente conseguia ignorar com maestria. Provavelmente foi essa partizinha que a incentivou a deixar a segurança da sua casa e ir encontrar Camila. Apesar da comunidade inteira cochichar sobre a história de Grego, os garotos do movimento ainda a tratavam com o mesmo respeito e solicitude de antes, provavelmente porque nada no mundo podia mudar o fato de que era irmã do dono do morro, assim, não foi difícil encontrar um dos vapores disposto a lhe dar uma carona até a casa de Jamaica. Elisa chegou lá menos de dez minutos depois de encerrar a chamada. m*l havia passado pela porta e o cheiro de leite queimado se infiltrou em seu olfato, assim como o choro incontrolável da bebê chegou aos seus ouvidos. — Ah, graças a Deus — Camila se aproximou com a criança, alheia a como o coração de Elisa se acelerava e o olhar não era capaz de desviar do pacotinho nas mãos dela — Eu não sei mais o que fazer. Se Elisa não estivesse tão repentinamente nervosa, teria zombado, apontando que ela poderia começar fazendo o mais simples: segurar a criança direito, e não como se fosse uma bomba prestes a explodir. — Me ajuda, Lis. — Tudo bem — murmurou, tentando controlar a sensação estranha no peito antes de pegar a bebê das mãos da outra — Eu vou... dar um jeito. As palavras foram desvanecendo enquanto seu olhar focava no da menina em seus braços. Ela era linda, tinha os olhos exatamente iguais aos do pai, aquele tom de castanho claro que Elisa sempre... — Lis? Desviou a atenção para a amiga, engolindo em seco. Era por isso que não queria conhecer a bebê, se já ficava toda estranha quando estava perto de Jamaica, o que aconteceria se ficasse perto de uma coisinha tão perfeita como aquela? Se as vezes já era difícil se afastar dele, como seria fácil ficar longe da criança caso se apegasse? E olhando para aqueles olhinhos, ela soube que se apegar seria fácil, muito fácil. — Você não vai fazer ela parar? — Camila a olhava com certo desespero, o que a despertou de vez. — Claro. Tem certeza que já checou a frauda? — Sim, está sequinha. — Ok, então talvez essa princesa só queira um pouco de colo — ela endireitou a menina nos braços, a embalando devagar enquanto murmurava coisas com a mesma voz calma que via a mãe usar para acalmar bebês quando era mais nova. Tentou manter sua atenção em Camila, que tentava dar um jeito na bagunça da cozinha, mas em algum momento seu olhar foi parar na bebê e simplesmente não soube desviar de volta. — Acho que ela dormiu — Camila sussurrou, espiando por cima do seu ombro. Sim, ela tinha dormido e tinha feito isso segurando o dedo de Elisa. Era mesmo filha de Jamaica, só isso explicava aquela capacidade de lhe abalar com um gesto tão simples. — Ela tem um berço? — se virou para a amiga, que tinha a atenção focada no celular. — Pode colocar ela no carrinho — a outra murmurou, franzindo as sobrancelhas para o aparelho que segurava— Inacreditável. — O que foi? — Seu irmão — ela mordeu o lábio antes de bloquear a tela — Eu sei que entreguei todos os relatórios a ele, mas ele conseguiu perder. Era um bloco de duzentas folhas! Quem perde duzentas folhas? — Acho tão bonitinho que os problemas conjugais de vocês giram em torno do trabalho — zombou, levando a bebê para o carrinho. Camila estreitou o olhar na sua direção. — Isso não é verdade. — Não? Então me diz uma briga que vocês já tiveram depois de se assumirem, que tenha acontecido por qualquer outro motivo. Camila abriu e fechou a boca, pensou por vários segundos, e depois torceu os lábios. — Viu só — Elisa sorriu, tinha esquecido como era bom tirar a amiga do sério — Vocês não brigam porque o Lucas, o grande dono do morro e blábláblá, é, e sempre vai ser, seu cachorrinho. — Se ele ouvir você falar isso... — a outra tentou repreender, mas a sombra do sorriso nos lábios entregava como Elisa estava certa e como ela sabia disso. — Ele não vai fazer nada — zombou, dando um olhar talvez um pouco ansioso na direção da porta de saída — Eu vou indo... — Pode ficar com a bebê enquanto eu vou na base esfregar os relatórios na cara dele? — Eu não acho que seja uma boa idei... — Obrigada — Camila interrompeu, já alcançando a porta — Não vou demorar. A amiga saiu tão animada que Elisa desconfiou que não seriam só os relatórios que ela esfregaria na cara de Lucas, isso ou ela estava armando alguma coisa. Elisa começou a torcer pela primeira alternativa.
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