Capítulo 28

1136 Palavras
*Jamaica* Cara, a vida era mesmo uma parada irônica. Sabe aquela coisa das voltas que mundo dá? Acho que meu mundo só girava ao contrário. Juro, depois de fazer papel de bobo apaixonado e ignorado por anos, a mina que eu gostava tinha finalmente voltado a falar comigo... E decidido virar minha conselheira amorosa para eu conseguir ficar com outra mina. Essa história era mesmo uma droga cheia de ironia. E como se não bastasse eu ter passado a semana toda deixando os conselhos da Lis pra depois e sempre fingindo tá ocupado quando ela vinha puxar assunto sobre as tais dicas de namoro, hoje, que era pra ser um sábado de lazer no pagode da comunidade, a Pat resolveu bater um papo comigo. E adivinha qual era o assunto? — Eu posso mesmo te ajudar a conquista a Dandara — ela disse, quase gritando no meu ouvido pra superar o som do paredão. — E vai me ajudar baseada em que experiência? Porque até onde eu sei, seu único namorado de verdade até hoje foi o Baroni, e não me leve a m*l, mas eu prefiro evitar viver um romance tão cheio de adrenalina como o de vocês. — Não seja i****a — ela empurrou meu braço, claro que o movimento chamou atenção do senhor dono do morro, que já me olhou indagando o que eu tava aprontando com a fiel dele. Dei de ombros pra ele e sorri, no fim das contas o cara sabia com que tipo de maluca tinha se metido. — Não quero ajuda, Pat, valeu. — Mas você precisa de ajuda! — É, parece que todo mundo acha isso — tomei um gole da minha bebida — Mas relaxa, já tenho uma cupido pra me auxiliar. — A Índia? Eu acho que meus métodos vão ser bem melhores que os dela... — A Lizzie — interrompi. Foi a primeira vez na noite que consegui calar a Pat. Vejam só que conquista inacreditável. — O que isso quer dizer? — ela franziu as sobrancelhas para mim, depois de quase um minuto me encarando como se não soubesse se eu estava falando sério ou se tinha enlouquecido. — A Lizzie descobriu que eu tô pensando em chamar a Dandara pra sair e decidiu me dar umas dicas e me ajudar — juro que não queria que as palavras soassem tão desanimadas, mas, sério, aquela era a pior ideia que eu já tinha ouvido na p***a da minha vi... — Ah, isso é perfeito — o gritinho da pat cortou minha linha de raciocínio. Foi minha vez de olhar como se ela não fizesse sentido. — É perfeito? Cê bebeu? — até desviei minha atenção pra mesa pra ter certeza que não tinha muitos copos vazios na frente dela. A Pat bateu o ombro no meu, um sorriso lento se abrindo nos lábios dela. Cara, eu não gostava daquele sorriso — O que foi? — Eu tenho um plano. — Não, nem pensar... — Você nem sabe o que é — ela fez um daqueles biquinhos ridículos que só o Baroni achava maneiro. Meneei a cabeça. — Eu não preciso saber o que é pra ter certeza de que é uma furada. — Vai dar certo, deixa eu te explicar — a maluca me ignorou completamente. Eu até tentei protestar, mas ela já estava tagarelando sem parar — Você sabe que eu amo ler, certo? E tem toda essa história de que a vida imita a arte e a arte imita a vida. Então, um dos meus plots favoritos é o de dicas de namoro. — Eu não faço ideia do que você tá falando — comentei quando ela fez uma pausa, toda eufórica. — É simples, nesse plot um dos personagens aceita dar dicas de namoro ao outro. E eles sempre acabam se pegando, porque testam as dicas e... — Minha vida não é um livro, Pat — cortei antes que ela começasse a enfiar aquelas paradas na minha mente. Ela deu de ombros. — Bom, talvez não seja. Mas a questão é: o não você já tem, e a Lis já se ofereceu pra ajudar. Não custa nada tentar. Caso não dê certo, o máximo que você vai conseguir é realmente se tornar capaz de chamar alguém pra sair de uma forma decente. Eu nem sabia se ficava preocupado com a linha de raciocínio dela ou ofendido com o final da fala. No fim decidi só colocar um ponto final naquela história. — Não vai rolar, Pat. Você e a Índia tem que entrar em um consenso ou vão me enlouquecer. Uma hora vocês querem que eu esqueça a Lis, na outra querem que eu viva um livro pra conquistar ela de vez — tomei mais um gole da bebida, vendo outro argumento se formar nos olhos claros dela — Aposto que a Índia não vai concordar com essa ideia. Ela é sensata. — Você acabou de me chamar de insensata? — ela fingiu estar ofendida. Eu sorri. — Se a carapuça serviu. *** Meia hora depois, eu tinha aceitado pôr em prática o plano da Pat. Pois é, sem comentários. Vamos lá, ela passou meia hora falando sem parar sobre o assunto. E em minha defesa, até a Índia, que chegou no pagode no meio da nossa conversa, foi convencida pela maluca da Pat. No fim, as duas tinham um plano e eu já não sabia mais qual era o meu objetivo na história. — Só tem um problema nisso tudo — fora a parte em que eu certamente ia me arrasar e me iludir ainda mais com esse processo — Não acho legal jogar a Dandara no meio. Seria uma merda sair com ela só com o objetivo de conquistar a Lizzie. — Às vezes é bem chata essa coisa de você ter consciência, sabia? — a Índia zombou — O que você sugere? Que a gente conte pra Dandara? — Não sei. Esse plano de vocês só não parece bom, de jeito nenhum. Não é só a Dandara, a Lizzie vai pirar se souber que a gente tá planejando algo assim. Isso fez as duas pararem de falar e pensarem direito pela primeira vez. — E se não for uma farsa? — a Índia argumentou depois de um tempo — É só você levar a sério as dicas da Lis. — Você tá me deixando confuso. Com quem eu quero ficar no fim dessa história? — A gente pode deixar o destino decidir — a Pat resolveu, toda sonhadora. Acho que foi mais ou menos ali que eu percebi como aquele plano era mesmo uma furada, mas adivinha quem acabou topando pôr tudo em prática no final? Isso aí, eu mesmo. Porque como diz o ditado, se eu já tava na chuva, ia terminar de me molhar.
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