Antes mesmo que eu pegue a argola, a porta se abre devagar, soltando um rangido que atravessa meu corpo como um arrepio.
— Como se a mansão em si já não fosse assustadora…
murmuro para mim mesma, tentando rir da situação, mas minha voz sai tremida.
Agarro minha mala e dou um passo para dentro.
O ar muda de novo. Denso. Frio. Quase como se eu tivesse atravessado uma barreira invisível.
— Oi… tem alguém aí?
chamo, minha voz ecoando nas paredes altas.
Silêncio.
— Parece que não tem ninguém em casa…
suspiro, já me sentindo meio i****a por ter falado sozinha.
É nesse instante que escuto passos.
Lentos.
Precisos.
Descendo a escada.
Quando me viro… meu coração simplesmente para.
Um homem surge no topo da escadaria.
Alto.
Imponente.
Cabelos longos e pretos caindo perfeitamente sobre os ombros. A pele tão pálida que parece feita de mármore. Olhos verdes profundos, quase brilhando no escuro. Ele é forte, mas não exagerado um tipo de força elegante, controlada.
As roupas dele são… antigas. Refinadas, bonitas, mas totalmente fora de moda. Como se ele tivesse saído de outro século. Ou nunca tivesse deixado este lugar.
E o rosto…
Meu Deus.
Ele tem o rosto de um anjo um anjo perigoso, tentador, daqueles que a gente sabe que deveria evitar, mas não consegue. Há algo na postura dele, no olhar firme demais, sério demais… que faz meu peito apertar.
Ele desce mais um degrau. Depois outro.
— Eu sou Nicolas Ravenscroft
ele diz com uma voz profunda, suave e ainda assim autoritária. Estende a mão para mim.
Engulo seco.
— Ravena Vera… prazer.
Aproximo minha mão da dele.
No instante em que nossos dedos se tocam, um arrepio brutal percorre meu corpo inteiro.
A mão dele é fria. Fria como pedra.
Mas firme. Forte. Inesperadamente segura.
Eu devia soltar.
Eu devia.
Mas não consigo. Não consigo desviar o olhar dele. Parece que meus olhos estão presos aos dele, como se algo dentro dele estivesse me puxando para mais perto, me prendendo, me lendo.
Por um segundo, sinto como se a mansão inteira respirasse junto com ele.
E então, Nicolas solta a minha mão devagar, como se estivesse medindo cada reação minha.
— Você veio antes do horário que combinamos ele diz, sem tirar os olhos dos meus.
— Isso é… interessante.
O coração bate mais rápido.
Eu não havia dito a ele o horário exato que chegaria…
O pensamento ecoa dentro de mim. Estranho demais. Mas antes que eu consiga formular uma pergunta, Nicolas simplesmente vira as costas e começa a subir as escadarias.
— Venha. Vou mostrar onde você vai dormir
ele diz com aquela voz calma, porém firme, como se ele estivesse sempre no controle de tudo.
Eu o sigo. O som dos nossos passos ecoa no corredor vazio, e cada degrau parece mais silencioso que o anterior.
— A sua viagem foi boa?
ele pergunta sem olhar para trás.
— Sim… vim com um amigo respondo, observando como ele se move. É elegante demais, quase silencioso demais. Como se nem tocasse o chão.
No segundo andar há muitos quartos. Todos com portas altas, madeira escura, números antigos entalhados. Cada corredor tem quadros antigos com pessoas sérias demais todas com a mesma aparência nobre e melancólica dos Ravenscroft.
Nicolas para diante de uma porta no fim do corredor.
— Este será o seu quarto. Espero que esteja do seu agrado
ele diz enquanto gira a maçaneta.
A porta se abre.
E eu fico… sem ar.
O quarto é enorme.
Maior que a sala da minha antiga casa inteira.
A cama fica no centro, grande o suficiente para caber três pessoas. O dossel é de madeira escura, com cortinas translúcidas que balançam suavemente com a brisa fria que entra pela janela entreaberta.
O papel de parede é vinho profundo, com detalhes prateados que refletem a luz amarelada das luminárias antigas. Há uma escrivaninha elegante ao canto, um tapete macio, uma poltrona confortável… e uma vista enorme para a floresta que cerca a mansão.
— Meu Deus…
sussurro, sem conseguir esconder o espanto.
— Você vai precisar de conforto, Ravena
Nicolas diz atrás de mim, a voz baixa, quase um sussurro.
— Esta casa… pode ser difícil para quem não está acostumado.
Eu me viro para olhar para ele.
Há algo nos olhos dele. Algo que eu não sei nomear. Uma sombra. Um aviso. Ou talvez só imaginação minha.
— Mas… esse quarto é lindo. Muito mais do que eu esperava.
Ele dá um leve sorriso.
É a primeira vez que vejo a expressão dele se suavizar.
E é quase perigoso o quanto isso me afeta.
— Fico feliz que gostou
ele diz devagar.
— Suas malas podem ficar aí. Em breve você conhecerá o resto da família… e as crianças.
O jeito como ele diz as crianças me causa outro arrepio.
— Você quer… que eu comece hoje? pergunto.
— Não
ele responde rápido demais.
— Esta noite, apenas descanse. A casa é antiga. A cidade também. E… certas coisas podem ser intensas no primeiro dia.
Meus olhos se estreitam, curiosos.
— Certas coisas…?
Nicolas apenas me encara por alguns segundos. O silêncio é quase palpável.
Então ele dá um passo para trás.
— Você saberá na hora certa.
Ele vira as costas.
E antes que eu possa dizer qualquer coisa…
Ele simplesmente desaparece pelo corredor, seus passos tão silenciosos que parece que ele se dissolve no ar.