Esse lugar não pertence a ela

1110 Palavras
Nova York O carro parou diante do prédio. Emily olhou pela janela, seu coração batendo rápido demais contra o peito. O edifício era imenso. Vidro e aço refletindo o céu cinza da cidade, elegante e intimidante. Tudo ali parecia distante, inalcançável… como se não fosse feito para pessoas como ela. O motorista saiu primeiro, abrindo a porta para ela. — Chegamos, Srta. Carter. Srta. Carter. Não Emily. Não alguém que pertencia ali. Apenas um nome temporário. Ela saiu do carro lentamente, segurando sua pequena mala com mais força do que precisava. O vento frio de Nova York tocou seu rosto, diferente do ar familiar de Boston. Tudo ali parecia mais rápido. Mais alto. Mais impessoal. Ela seguiu o motorista até a entrada. O lobby era enorme. Mármore branco. Luzes suaves. Silêncio absoluto. Nenhum som de risadas. Nenhum som de vida. Apenas perfeição. E vazio. O elevador subiu rápido demais, e Emily observou os números mudarem com o estômago apertado. Cada andar a levava mais longe de tudo que ela conhecia. Mais perto dele. Quando as portas se abriram, havia apenas uma porta. Grande. Escura. Imponente. O motorista abriu e deu espaço para ela entrar. Emily hesitou. Apenas por um segundo. Então entrou. O apartamento era enorme. Vidro. Aço. Linhas limpas. Perfeito. E completamente sem vida. Não havia fotos. Não havia memórias. Não havia calor. Apenas um lugar onde alguém existia. Mas não vivia. — Pode deixar as malas ali. A voz dele ecoou pelo espaço. Fria. Familiar. Adrian estava perto da janela, de costas para ela. Imóvel. Dominante. Como se fosse parte daquele lugar. Como se ele pertencesse àquele vazio. Ele se virou lentamente. Seus olhos cinza encontraram os dela. Sem emoção. Sem calor. Sem boas-vindas. Seu olhar percorreu rapidamente sua mala. Pequena demais. Insignificante demais. Como ela. — É só isso? — ele perguntou. Ela assentiu. — Sim. Ele não disse nada por um momento. Como se aquilo confirmasse algo que ele já acreditava. Como se ela não pertencesse ao mundo dele. Porque ela não pertencia. Ele se aproximou lentamente. Cada passo controlado. Calculado. Ele parou a poucos metros dela. Perto o suficiente para intimidar. Longe o suficiente para manter distância. — Seu quarto é por ali. — ele disse, apontando para o corredor. Sem gentileza. Sem cuidado. Apenas informação. Ela assentiu novamente. Mas não se moveu. Seus olhos percorreram o apartamento. O vazio. O silêncio. A ausência de vida. Ele percebeu. Claro que percebeu. Ele sempre percebia. — Não confunda isso com um lar. As palavras foram frias. Diretas. Cruéis. Seu olhar voltou para ele. Ele a observava atentamente. Como se esperasse que ela quebrasse. Como se esperasse que ela percebesse que não pertencia ali. — Eu não confundo. — ela respondeu suavemente. Isso pareceu surpreendê-lo. Apenas por um segundo. Mas foi o suficiente. Então ele disse: — Este é apenas o lugar onde você vai morar. Não onde ela viveria. Não onde ela pertenceria. Apenas onde ela existiria. Ele se virou, encerrando a conversa. Como se ela não fosse mais necessária. Como se ela fosse apenas mais uma obrigação cumprida. Emily pegou sua mala e caminhou pelo corredor. Cada passo pesado. Cada respiração difícil. Ela abriu a porta do quarto. Era bonito. Grande. Perfeito. E vazio. Assim como o resto daquele lugar. Assim como ele. Ela entrou e fechou a porta atrás de si. Sozinha novamente. Mas desta vez… Não havia para onde voltar. A noite caiu rápido demais. Emily estava sentada na beira da cama, suas mãos apoiadas sobre o tecido claro do vestido, os olhos perdidos na janela à sua frente. Nova York brilhava. Linda. Distante. Intocável. Os prédios iluminados se erguiam como gigantes ao redor dela, indiferentes à sua existência. Tudo ali parecia vivo, enquanto ela se sentia… parada. Esquecida. Ela nunca tinha estado tão longe de casa. Tão longe de tudo que conhecia. O silêncio do apartamento era sufocante. Não havia risadas. Não havia vozes. Não havia nada. Apenas o som distante da cidade… e o vazio. Ela respirou fundo e se levantou, caminhando lentamente até a porta do quarto. Talvez ele ainda estivesse acordado. Talvez… Ela não sabia o que esperava. Talvez nada. Talvez apenas a confirmação de que não estava completamente sozinha. Ela abriu a porta com cuidado e entrou no corredor. As luzes estavam acesas na sala principal. E ele estava lá. De costas para ela. Parado diante da janela. Mas não estava sozinho. — Eu disse que resolveria isso. — sua voz era baixa. Fria. Controlada. Ele estava ao telefone. Emily parou imediatamente. Sem fazer barulho. Sem respirar. — Não, isso não muda nada. — ele continuou. Silêncio. Ele ouviu o que quer que a outra pessoa estivesse dizendo. Seu maxilar travou levemente. — Não complique algo que é simples. Simples. Como se casar com ela fosse simples. Como se ela fosse simples. Ele passou a mão pelo cabelo, irritado. — Eu não me importo com o que parece. As palavras foram afiadas. Cruéis. Definitivas. Emily sentiu algo apertar dentro dela. Mesmo sem saber com quem ele falava. Mesmo sem saber o que aquilo significava. Ela sabia. Ela não era importante. Aquilo não significava nada para ele. — Isso é apenas um contrato. — ele disse. Contrato. A palavra ecoou dentro dela. Reforçando tudo. Cada verdade dolorosa. Cada limite. Cada muro que ele construiu entre eles. Ele ficou em silêncio novamente, ouvindo. Então disse: — Boa noite. E desligou. Ele permaneceu parado por alguns segundos. Imóvel. Emily tentou voltar para o quarto sem que ele percebesse. Mas— — Você está acordada. Sua voz ecoou pelo espaço. Ela congelou. Lentamente, se virou. Seus olhos encontraram os dele. Friamente atentos. Sempre atentos. — Eu não consegui dormir. — ela respondeu. Ele a observou em silêncio. Como se analisasse cada detalhe. Cada respiração. Cada fraqueza. — Você vai se acostumar. Não foi conforto. Foi um fato. Ela assentiu. Porque ele estava certo. Ela teria que se acostumar. A ele. Àquele lugar. Àquela vida. — Precisa de algo? — ele perguntou. Não havia gentileza na pergunta. Era obrigação. Nada mais. Ela hesitou. Por um momento, quis dizer sim. Quis dizer que precisava de algo que aquele lugar nunca poderia dar. Mas ela apenas disse: — Não. Ele assentiu uma vez. Breve. Distante. — Então descanse. Como uma ordem. Como tudo que ele dizia. Ela voltou para o quarto sem dizer mais nada. Sem olhar para trás. Sem ver que os olhos dele permaneceram nela até a porta se fechar. Sem ver que ele continuou parado ali. Em silêncio. Pensando. Observando a porta. Como se algo tivesse mudado. Como se algo tivesse começado. Mesmo que ele nunca admitisse. Mesmo que ele nunca permitisse.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR