Sem escapatória

1318 Palavras
Nova York Escritório da Blackwood Enterprises Adrian permaneceu em silêncio por vários segundos após o advogado terminar de falar. O escritório parecia pequeno demais. O ar pesado demais. A realidade… inaceitável demais. Ele estava de pé diante da janela, observando a cidade abaixo. Manhattan se estendia infinita, viva, sob seu comando. Tudo aquilo era dele. Sempre foi dele. E ainda assim… Não era. Não completamente. — Diga novamente. — sua voz saiu calma. Perigosa. O advogado, Sr. Harris, ajustou os óculos, claramente desconfortável. — A cláusula é legalmente vinculativa, Sr. Blackwood. Adrian se virou lentamente. Seus olhos cinza eram frios. Implacáveis. — Existe alguma brecha? Direto. Objetivo. Controlado. O advogado hesitou. Isso já era uma resposta. — Não. Uma única palavra. Mas não foi suficiente. Adrian caminhou até a mesa, apoiando as mãos sobre a superfície de vidro. — Sempre existe uma brecha. Sua voz caiu. Mais baixa. Mais ameaçadora. — Revise novamente. O advogado engoliu em seco. — Eu revisei. Adrian o encarou. Esperando. Exigindo. O homem abriu o documento, suas mãos levemente trêmulas. — Seu avô foi extremamente específico. Claro que foi. William Blackwood nunca fazia nada sem pensar. — O casamento deve ser legítimo, legal e reconhecido publicamente. Adrian permaneceu em silêncio. Mas algo escuro crescia dentro dele. — E se eu recusar? — ele perguntou. Mesmo sabendo a resposta. Mesmo odiando ouvi-la. — Então o orfanato será vendido, e o controle total da herança será colocado em um fundo até que a condição seja cumprida. Seu maxilar travou. — Por quanto tempo? O advogado hesitou novamente. — Indefinidamente. Silêncio. Frio. Brutal. Seu avô o havia encurralado. Sem saída. Sem escolha. Sem liberdade. Adrian soltou uma respiração lenta. Controlada. Mas por dentro… Algo queimava. Traição. Era isso que parecia. Traição. — Ele sabia. — Adrian disse, mais para si mesmo do que para o advogado. Ele sabia que Adrian nunca escolheria aquilo. Então ele tirou a escolha. — Ele queria garantir a segurança do orfanato. — o advogado disse cuidadosamente. Adrian soltou uma risada baixa. Sem humor. — Claro que queria. Sempre quis. Sempre aquele lugar. Sempre aquelas crianças. Nunca ele. Seu olhar caiu sobre o documento novamente. O nome dela estava ali. Emily Carter. Como uma sentença. Como uma prisão. Como um lembrete. Ele cerrou o punho. — Não há como contestar? — Não com sucesso. Silêncio novamente. Mais pesado que antes. Mais definitivo. Adrian se endireitou lentamente. Sua expressão voltou ao normal. Fria. Impenetrável. Controlada. Mas o advogado não se deixou enganar. Ele viu. A fúria. A frustração. O ódio. — Ele planejou tudo isso… — Adrian murmurou. Sim. William Blackwood o conhecia bem demais. Sabia exatamente como prendê-lo. Sabia exatamente onde atingir. Sabia que Adrian nunca abandonaria seu império. Mesmo que tivesse que se prender ao passado para mantê-lo. — Prepare os documentos. — Adrian disse finalmente. O advogado piscou. — Senhor? Adrian encontrou seu olhar. Frio. Decidido. Perigoso. — O contrato de casamento. As palavras deixaram um gosto amargo em sua boca. Mas ele as disse mesmo assim. Porque ele não tinha escolha. Porque seu avô garantiu isso. Porque Emily Carter agora era parte de seu destino. Que ele quisesse… Ou não. Quando o advogado saiu, Adrian ficou sozinho. O silêncio era ensurdecedor. Seu olhar foi até a cidade novamente. Livre. Infinita. Tudo que ele era. Tudo que ele construiu. E tudo que ele agora teria que proteger… Casando-se com a única pessoa que representava tudo que ele desprezava. Emily Carter. Ele fechou os olhos por um segundo. Apenas um segundo. E quando abriu novamente… O homem que restava não era um neto em luto. Era um CEO. Frio. Implacável. E pronto para transformar aquele casamento… Em apenas mais um negócio. Nova York Penthouse Blackwood A cidade brilhava abaixo dele. Luzes infinitas. Vida infinita. Liberdade. Adrian ficou parado diante da janela de vidro que ia do chão ao teto, o copo de uísque esquecido em sua mão. O líquido âmbar refletia as luzes da cidade, tremendo levemente com o movimento quase imperceptível de seus dedos. Ele odiava perder o controle. Odiava não ter escolha. Odiava o modo como o passado havia encontrado uma forma de alcançá-lo novamente. Ele levou o copo aos lábios, sentindo o gosto forte descer por sua garganta. Mas não apagou nada. Não apagou o nome dela. Emily Carter. Ele fechou os olhos por um momento. E, contra sua vontade… Ele se lembrou. — Boston Anos atrás Ele tinha dezesseis anos. E odiava aquele lugar com cada parte de si. O cheiro de desinfetante. As paredes claras. Os corredores estreitos. O som de crianças que não entendiam o que haviam perdido. Ele não pertencia ali. Nunca pertenceu. Ele estava encostado na parede do corredor, esperando o avô terminar sua visita inútil, quando a viu. Ela estava ajoelhada no chão, ajudando uma menina menor a amarrar os sapatos. Seus movimentos eram pacientes. Gentis. Como se ela tivesse todo o tempo do mundo. Como se não houvesse nada melhor lá fora. Aquilo o irritou. Como alguém podia aceitar aquele lugar? Como alguém podia pertencer àquela prisão? Ela levantou os olhos. E o viu. Seus olhos não mostraram medo. Não mostraram admiração. Não mostraram nada que ele estivesse acostumado a ver. Apenas… calma. Aquilo o irritou ainda mais. — O que você está olhando? — ele perguntou, frio. Ela se levantou lentamente. Menor que ele. Mais frágil. Mas não recuou. — Nada. Ele deu um passo à frente. Testando. Provocando. — Este lugar é patético. Ele esperava que ela ficasse em silêncio. Que abaixasse a cabeça. Que aceitasse. Mas ela não fez isso. — Este lugar é o único lar que algumas pessoas têm. Sua voz era firme. Sem tremor. Sem medo. Aquilo o atingiu de uma forma que ele não entendeu. E odiou. — Então você deveria querer algo melhor. Ela sustentou o olhar dele. — Eu quero. Silêncio. — Mas isso não significa que eu odeio o que me salvou. As palavras ficaram presas dentro dele. Porque aquele lugar nunca o salvou. Aquele lugar o lembrou do que ele havia perdido. Do que nunca voltaria. De tudo que havia sido tirado dele. E ela… Ela fazia parte daquilo. Parte daquele mundo que ele desprezava. Parte daquela fraqueza que ele se recusava a aceitar. — Eu vou sair daqui. — ele disse. Ela apenas o observou. — Então saia. Sem emoção. Sem implorar. Sem tentar fazê-lo ficar. Como se ele não importasse. Como se sua presença não fizesse diferença. Aquilo… Aquilo ele nunca esqueceu. — Nova York Presente Adrian abriu os olhos lentamente. O copo estava vazio agora. Mas a sensação permanecia. Ela nunca teve medo dele. Nem quando eram jovens. Nem agora. E isso o irritava mais do que qualquer coisa. Ela não o via como o mundo o via. Não via o CEO. Não via o poder. Via o garoto que odiava aquele lugar. O garoto que queria fugir. E talvez… Talvez isso fosse o que ele mais odiava nela. Ela o lembrava. De quem ele foi. De onde veio. De tudo que ele enterrou. Seu olhar caiu sobre os documentos sobre a mesa. O contrato de casamento. O nome dela. Ligado ao dele. Para sempre. Seu maxilar travou. Ele odiava aquilo. Odiava o plano do avô. Odiava o orfanato. Odiava tudo que aquele lugar representava. E acima de tudo… Ele odiava o fato de que Emily Carter agora fazia parte de sua vida novamente. Mesmo que ele tivesse passado anos construindo um mundo onde ela não existia. Ele terminou o uísque e colocou o copo sobre a mesa com força. O som ecoou pelo silêncio do apartamento. Frio. Vazio. Como ele. Este casamento seria um contrato. Nada mais. Ele garantiria isso. Ele nunca permitiria que ela significasse algo. Nunca permitiria que aquele lugar tivesse poder sobre ele novamente. Nunca permitiria que Emily Carter o afetasse. Mesmo que, no fundo… Uma parte dele soubesse… Que ela já afetava.
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