O silêncio dentro do escritório era sufocante.
Emily não conseguia respirar direito.
As palavras ainda ecoavam em sua mente.
Casamento.
Ou o orfanato seria fechado.
Não havia meio termo.
Não havia escapatória.
Ela sentia o olhar dele sobre ela.
Pesado.
Frio.
Cheio de desprezo.
Adrian estava parado à sua frente, imóvel, como uma estátua esculpida em gelo.
Ele não parecia um homem que acabara de descobrir que sua vida seria alterada.
Ele parecia um homem que havia acabado de ser traído.
— Diga alguma coisa. — ele exigiu, sua voz baixa.
Ela engoliu em seco.
— Eu não sabia disso.
Ele soltou uma risada curta.
Cruel.
— Claro que não.
Mas seu olhar dizia que ele não acreditava.
Dizia que ele queria acreditar que ela fazia parte daquilo.
Que ela sempre fez parte.
— Você sempre esteve aqui. — ele continuou. — Sempre observando. Sempre… esperando.
Cada palavra era um golpe.
— Eu nunca esperei nada de você. — ela respondeu, sua voz firme apesar do tremor dentro dela.
Isso o irritou.
Ela viu.
No modo como seus olhos escureceram.
No modo como seu maxilar travou.
— Não finja que é inocente.
Ela levantou o queixo.
— Eu não estou fingindo.
O silêncio entre eles era carregado.
Pesado de anos de mágoa não resolvida.
Então ele disse, sem emoção:
— Eu não vou fazer isso.
O coração dela apertou.
— Adrian—
— Eu não vou me casar com você.
As palavras foram definitivas.
Finais.
Irrevogáveis.
Mas o advogado falou novamente:
— Então o orfanato será vendido imediatamente.
Emily sentiu o pânico subir como uma onda.
As crianças.
Seus quartos.
Suas risadas.
Seu lar.
Tudo desapareceria.
Ela fechou os olhos por um segundo.
Apenas um segundo.
Foi o suficiente.
Quando abriu novamente, sua decisão estava tomada.
— Eu aceito.
O silêncio caiu como uma bomba.
Adrian ficou completamente imóvel.
— O quê?
Ela olhou diretamente para ele.
Mesmo que seu coração estivesse quebrando.
— Eu aceito me casar com você.
Os olhos dele se estreitaram.
Não havia alívio ali.
Não havia gratidão.
Apenas algo escuro.
Algo perigoso.
Ele deu um passo em direção a ela.
— Você aceita?
Sua voz era baixa.
Controlada.
Mas havia algo sob a superfície.
Algo prestes a explodir.
— Sim.
Uma única palavra.
Mas foi o suficiente.
Ele a encarou por um longo momento.
Como se estivesse vendo ela pela primeira vez.
Como se estivesse tentando entender.
Ou talvez tentando odiá-la ainda mais.
Então ele disse:
— Não faça isso parecer um sacrifício.
Ela não respondeu.
Porque era exatamente isso.
Um sacrifício.
Ele se inclinou levemente, sua presença esmagadora.
— Você quer saber a verdade, Emily?
Ela não teve escolha a não ser ouvir.
— Eu desprezo este lugar.
As palavras saíram frias.
Sem hesitação.
Sem culpa.
— Eu desprezo estas paredes. Eu desprezo as memórias. Eu desprezo tudo que este lugar representa.
Seu coração apertou.
Mas ele não terminou.
Seus olhos se fixaram nos dela.
Duros.
Implacáveis.
— E você é parte disso.
O ar deixou seus pulmões.
— Você é como este lugar. — ele continuou. — Um lembrete de tudo que eu nunca quis.
Cada palavra destruía algo dentro dela.
Mas ela não chorou.
Não na frente dele.
Nunca na frente dele.
Ele se afastou um pouco, olhando para ela como se ela fosse apenas um objeto.
Uma obrigação.
Nada mais.
— Não confunda isso com escolha.
Sua voz caiu ainda mais.
— Isso é um contrato.
Nada mais.
Nada menos.
Ela assentiu lentamente.
Mesmo que aquilo a destruísse.
— Eu sei.
Ele a observou por mais um momento.
Então disse as palavras que selaram seu destino:
— Você terá seu casamento.
Mas não terá meu amor.
E, pela primeira vez desde que ela o conheceu…
Emily acreditou nele.
O escritório de Adrian Blackwood era exatamente como ele.
Impecável.
Frio.
Intimidante.
Emily permaneceu parada perto da porta, sentindo-se completamente deslocada naquele lugar. As paredes de vidro revelavam a cidade de Nova York se estendendo abaixo deles, viva e indiferente.
Tão diferente de Boston.
Tão diferente do orfanato.
Tão diferente de tudo que ela conhecia.
Adrian estava atrás da mesa.
Sentado.
Poderoso.
Intocável.
Ele não olhou para ela imediatamente.
Terminou de assinar o documento que tinha em mãos, como se ela não fosse importante o suficiente para interromper seu tempo.
Como se ela fosse apenas mais um item em sua agenda.
— Sente-se. — ele disse, finalmente.
Não foi um convite.
Foi uma ordem.
Ela obedeceu.
Porque agora… aquele era o mundo dele.
E ela estava presa nele.
Ele empurrou um documento em sua direção.
— Leia.
Ela olhou para o papel.
Contrato de casamento.
As palavras pareciam irreais.
Distantes.
Erradas.
— Este é o acordo legal. — ele disse. — Você receberá suporte financeiro. O orfanato continuará funcionando. Todas as despesas serão cobertas.
Ela assentiu lentamente.
Era tudo que ela queria.
Tudo que ela precisava.
Mas ele não terminou.
Ele nunca terminava.
— Em troca, você cumprirá seu papel.
Ela levantou os olhos.
— Seu papel?
Seus olhos cinza encontraram os dela.
Frios.
Calculados.
— Você será minha esposa. Publicamente.
As palavras ficaram suspensas entre eles.
— Apenas isso. — ele completou.
Apenas isso.
Como se fosse simples.
Como se não fosse sua vida.
Sua liberdade.
Seu futuro.
— Há regras. — ele continuou.
Claro que havia.
Sempre havia.
Ele se levantou.
Deu a volta na mesa.
Parou na frente dela.
Perto demais.
Dominante demais.
— Você vai morar comigo.
Seu coração acelerou.
— Mas terá seu próprio quarto.
Ela não sabia por que aquilo doeu.
Talvez porque confirmou tudo.
Tudo que ele sentia.
Ou não sentia.
— Não interfira na minha vida. — ele continuou. — Não faça perguntas. Não crie expectativas.
Cada palavra era precisa.
Ensaiada.
Como se ele já tivesse pensado nisso antes.
Como se já tivesse decidido tudo.
— Este casamento é uma formalidade.
Nada mais.
Nada menos.
Ela manteve o olhar firme.
Mesmo que algo dentro dela estivesse se quebrando.
— Eu entendo.
Seus olhos permaneceram nos dela por mais tempo do que o necessário.
Como se procurasse algo.
Como se testasse algo.
— Entende?
Ele se inclinou levemente.
Sua voz baixa.
Perigosa.
— Você pode usar meu nome.
Seu coração disparou.
— Pode usar minha casa.
Mais perto.
Mais frio.
— Pode usar minha p******o.
E então, as palavras que destruíram qualquer ilusão restante:
— Mas nunca será minha esposa de verdade.
O silêncio caiu entre eles.
Pesado.
Brutal.
Final.
Ela assentiu lentamente.
Porque ela já sabia.
Ele se afastou.
Como se a proximidade tivesse sido um erro.
Como se ela fosse algo que ele não queria tocar.
Mas antes de voltar para sua mesa, ele disse:
— O casamento será em uma semana.
Uma semana.
Era tudo que restava de sua antiga vida.
Ele parou.
Sem olhar para ela.
— Prepare-se.
Ela se levantou.
Suas pernas estavam firmes.
Mesmo que seu mundo não estivesse.
Ela caminhou até a porta.
Mas antes que saísse, sua voz o fez parar:
— Adrian.
Ele não se virou.
Mas ouviu.
Sempre ouvia.
— Eu nunca quis isso também.
O silêncio respondeu.
Mas seus dedos apertaram levemente a borda da mesa.
Um gesto pequeno.
Quase invisível.
Mas real.
Ela saiu.
Sem olhar para trás.
Sem ver o modo como os olhos dele permaneceram na porta por vários segundos depois que ela desapareceu.
Sem ver o conflito silencioso que ele jamais admitiria.
Ele a desprezava.
Ele desprezava tudo que ela representava.
Então por que…
Ele não conseguia parar de olhar para ela?