Capítulo 35: Henrique Moretti

814 Palavras
O barulho do isqueiro quebrei o silêncio do escritório como um estalo seco. A chama lambeu o cigarro, e traguei devagar, observando a fumaça subir em espirais preguiçosas. Do outro lado da sala, o ar-condicionado zumbia baixo, como se soubesse que deveria manter silêncio perto de mim. Meus olhos estavam fixos na foto que repousava sobre a mesa de vidro. Não era recente. Era de uma câmera de segurança. Granulada, m*l enquadrada. Mas o que importava estava ali. Stella. E ele. Matteo De Luca. Ela sorria. Levemente. Como se estivesse segura. — Ingênua — murmurei, quase com desprezo. Abaixei o olhar e recostei na cadeira de couro, girando-a devagar. O som do couro se moldando ao meu corpo soava como uma melodia íntima. O tipo de silêncio que gosto. O tipo de controle que exijo. — Senhor Andrade — a voz do meu advogado soou da porta entreaberta —, o detetive ligou. Ela marcou a primeira consulta médica. Terça-feira, nove e meia da manhã. Clínica particular, na Zona Oeste. Assenti, sem me mover. A fumaça do cigarro flutuava entre nós, como um véu de ameaça. — Ele vai com ela? — perguntei. — Ao que parece, sim. — Claro que vai. — Dei um sorriso torto. — O bom moço não perderia a chance de aparecer como herói. O advogado hesitou na porta, como sempre fazia quando pressentia que eu estava perto do meu limite. Inteligente da parte dele. — Posso preparar algo formal? Um pedido de reconhecimento de paternidade, talvez? — Ainda não. Deixe que o teatro continue. Apaguei o cigarro no cinzeiro de cristal e me levantei. Caminhei até o bar, servi dois dedos de uísque, mesmo sendo manhã. O gelo estalou quando tocou o líquido âmbar. Olhei para o reflexo do copo como se fosse um espelho distorcido do meu humor. — Stella ainda acha que pode me esconder o que é meu. — A voz saiu baixa, carregada de veneno contido. — Acha que um i****a como De Luca pode protegê-la. Mas ela esquece... eu não costumo perder. O advogado continuava imóvel na porta. — Precisa que eu faça alguma coisa? — Sim — respondi, virando o copo em um gole só. O gosto amargo escorreu pela garganta como uma promessa. — Quero um dossiê completo do Matteo. Família, empresas, vulnerabilidades, tudo. Se ela se esconde atrás dele... então ele vira meu alvo. A ordem flutuou no ar como sentença. O homem assentiu, rápido, e saiu sem dizer mais nada. Sabia que eu odiava repetições. Fiquei sozinho outra vez, o gosto do uísque ainda queimando a garganta. Voltei até a mesa e peguei a foto de Stella. Passei o dedo sobre o contorno do rosto dela. Ela sempre foi boa em fugir. Mas nunca soube esconder o que ama. E, por isso, sempre foi previsível. Deixei a foto de lado e abri a pasta de documentos sobre a mesa. Entre as certidões, e-mails impressos e registros de transações, estava a cópia do exame de gravidez que eu havia conseguido semanas atrás. Stella achava que eu não sabia. Mas eu sempre soube. E, agora, sabia também que esse filho poderia me servir de maneira muito mais útil do que ela jamais imaginou. Porque, no fim das contas, ninguém precisa amar um filho para usá-lo. Apenas saber onde dói. Peguei o telefone na mesa com as mãos firmes, embora meu corpo fosse uma mistura de impaciência e cálculo frio. Disquei o número que já sabia de cor. O som do toque atravessou a linha até que uma voz familiar atendeu do outro lado. — Detetive Moreira — respondeu, com a voz baixa e profissional. — Moreira — comecei, a voz tão calma quanto a lâmina de uma faca —, preciso que você atualize as informações sobre Stella Ribeiro. — Senhor Andrade, o que eu consegui até agora... — a voz dele hesitou, talvez porque soubesse o quanto era difícil —, ela mudou-se recentemente para um endereço em um prédio residencial na Zona Sul. Mas a segurança do apartamento é rígida. Matteo De Luca contratou um time especial, e até agora, não consegui nenhuma aproximação. — Sei disso — interrompi, com um leve sorriso que só eu podia ouvir. — Mas eu pago bem, Moreira. Quero que consiga mais do que isso. Quero saber onde ela está, com quem fala, para onde vai. Quero cada detalhe, cada movimento. — Vou redobrar os esforços, senhor. — Faça isso — disse, desligando antes que ele pudesse responder qualquer coisa a mais. Coloquei o aparelho no gancho, a certeza queimando no peito. Eles achavam que podiam me impedir. Que as barreiras iam me parar. Mas eu não costumo perder. E estava disposto a pagar o preço que fosse para descobrir onde Stella estava. Porque, no jogo que eu jogava, informação era poder. E eu estava determinado a recuperar o que sempre foi meu.
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