Capítulo 9: Matteo Bianchi

1302 Palavras
O cheiro estéril do hospital me sufoca. Minha cabeça lateja pela pancada, mas graças a Deus não sofri nada grave. Mistura-se com o latejar constante na minha cabeça, uma lembrança c***l do impacto, do som metálico da batida e do grito dela que ainda ecoa nos meus ouvidos. Estou sentado em uma das cadeiras desconfortáveis da recepção, mas não consigo ficar parado. Levanto, começo a andar de um lado para o outro, com as mãos nos bolsos do casaco, tentando conter a agonia que cresce a cada minuto de espera. Stella. É o único nome que consigo pensar. A garota que conheci há poucos dias, que entrou na minha vida de um jeito tão improvável, agora está atrás de portas duplas, inconsciente, enquanto eu não tenho a menor ideia do que está acontecendo com ela. Lembro do som do impacto, do estalo do vidro se partindo, do silêncio que veio logo depois, mais apavorante do que qualquer barulho. Eu a chamei pelo nome, sacudi o ombro dela, mas Stella não respondeu. O lado dela foi o mais atingido. E eu... eu não fiz nada. Não consegui protegê-la. m*l a conheço e já consegui transformar a sua vida. Exatamente como aconteceu no passado. É como uma maldição que me persegue. Uma enfermeira passa por mim com uma prancheta, e eu dou um passo em sua direção. — Com licença, tem alguma informação sobre Stella? — Ela me lança um olhar educado, mas distante, e balança a cabeça. — Assim que o médico sair, ele virá falar com você. Eu agradeço, mas as palavras dela não me acalmam. Volto ao corredor, meus passos ecoando no piso frio. Olho para o relógio no meu pulso, mas o tempo parece não se mover. Não deveria ser tão difícil descobrir o que está acontecendo, certo? Um raio-X, uma avaliação, alguma coisa. E, no entanto, estou aqui, sozinho. Sozinho e confuso. Porque não deveria estar me sentindo assim. Não por Stella. Ela é minha funcionária, nada mais do que isso. Alguém que eu conheci há poucos dias, que se apresentou com aquele sorriso meio tímido, mas com olhos cheios de determinação. Ela nunca hesitou em me encarar, mesmo sabendo quem eu sou. Mesmo sabendo o que posso significar para a carreira dela. E agora estou aqui, o estômago embrulhado, os pensamentos girando numa espiral incontrolável. Pergunto-me se ela vai ficar bem. Se ela vai sorrir para mim de novo como fez no jantar, quando o vinho soltou suas barreiras e ela finalmente relaxou. Ao mesmo tempo em que preciso me afastar, sinto como uma força na natureza me puxando na direção dela. Eu prometi que não cometeria esse erro novamente, não colocaria alguém na bagunça que minha vida se tornou, já havia aprendido a lidar com a solidão por tem suficiente para chamá-la de amiga. Um médico sai de uma das salas, e meu coração para por um momento. Ele olha ao redor, hesitante, e finalmente pergunta: — Acompanhante da senhorita Bianchi? — Sim, sou eu. — Minha voz soa mais tensa do que eu gostaria, mas não consigo controlar. Dou alguns passos rápidos em direção a ele. — Como ela está? O médico para diante de mim, folheando alguns papéis na prancheta. Meu coração martela no peito enquanto espero ele falar. — Stella está estável —ele diz, e meu corpo inteiro relaxa com essas palavras. — Ela sofreu uma luxação na costela e quebrou o braço esquerdo, mas, considerando o impacto, ela teve muita sorte. Não houve nenhuma complicação mais grave. Um alívio profundo me invade. Meu coração, que parecia preso em um nó, começa a desacelerar. Por um momento, sinto vontade de fechar os olhos e apenas respirar. Ela está bem. Ela vai ficar bem. — Você pode vê-la em breve, mas ela precisa de repouso. — continua o médico, e eu aceno, pronto para agradecer. — Vocês três tiveram muita sorte, o anjo da guarda trabalhou bem hoje. Pisco para o médico, tentando decidir se ouvi direito. — Desculpe, o senhor disse três? — Sim, papai, pode ficar tranquilo quanto a isso também. O bebê está bem. O quê? Meu corpo congela, minha mente se recusa a processar. — Desculpe, o quê? — Minha voz sai mais ríspida do que eu pretendia. O médico levanta os olhos da prancheta, confuso. — O bebê. Ela está grávida. Está tudo bem com a gestação, apesar do trauma. A pancada não afetou o feto, mas ela precisará de repouso absoluto pelas próximas semanas. Sinto como se o chão estivesse se movendo sob meus pés. Um bebê? Stella está grávida? Eu não sou o marido dela. Eu m*l a conheço. Isso deve ser um engano, uma confusão absurda, mas antes que eu possa corrigir o médico, um turbilhão de emoções me atinge como uma onda. Lembro de algo que tentei enterrar há anos. A dor que se enroscou em mim como uma corrente, quando perdi algo que nem tive a chance de conhecer. Respiro fundo, tentando separar a confusão do peso desse sentimento inesperado. Stella é uma mulher que eu m*l conheço, minha funcionária, e agora descubro que ela carrega uma vida dentro dela. Uma vida pela qual, de repente, sinto uma responsabilidade esmagadora, mesmo sem entender por quê. — Ela já sabe? — pergunto, as palavras saindo hesitantes. O médico franze a testa, como se estivesse tentando se lembrar de algo. — Creio que sim. Ela já está ciente da gestação. Vou deixá-lo com a enfermeira para orientações. Assim que ela for transferida para o quarto, você poderá vê-la. Aceno automaticamente enquanto ele se afasta. Meus pensamentos estão caóticos, cada peça dessa nova informação lutando para encontrar seu lugar. Stella. Grávida. E eu, de repente, parte de uma situação que não consigo compreender, mas que parece arrancar sentimentos que jurava estarem enterrados. As palavras do médico ecoam na minha cabeça. Ela está grávida. Uma pergunta inevitável se forma: onde está o pai dessa criança? Stella não mencionou ninguém. Nenhum namorado, nenhum marido, nenhuma aliança em seu dedo. Mas isso não significa nada. Talvez ela tenha alguém. Talvez ele não pudesse estar aqui esta noite por algum motivo. Mas, se tem alguém, onde está esse homem agora? Meu olhar vagueia pelo corredor deserto, como se ele pudesse aparecer a qualquer momento, mas só encontro o vazio e o silêncio. A imagem de Stella, exausta e vulnerável, desmaiada no carro, surge na minha mente. Mesmo antes do acidente, ela parecia cansada. Não do tipo que você resolve com uma boa noite de sono, mas algo mais profundo, algo que pesa nos ombros e na alma. E, agora, ela está grávida. Esse cansaço fazia sentido de repente, mas também levantava mais perguntas. Por que ela estava jantando comigo, trabalhando até tarde, se carrega um bebê e deveria estar cuidando de si mesma? Por que ela estava sozinha? Se ela tem alguém, esse alguém deveria estar aqui. Não sou eu quem deveria estar andando em círculos nesse corredor, esperando notícias. Não sou eu quem deveria estar preocupado com ela e com essa criança. Mas sou. E isso me deixa confuso, com raiva até. Raiva de um homem que nem conheço por não estar aqui. Raiva de mim mesmo por me importar tanto com uma mulher que entrou na minha vida há tão pouco tempo. Por algum motivo, não consigo evitar me sentir responsável. Respiro fundo, tentando dissipar o nó na minha garganta. Talvez ela explique tudo quando acordar. Talvez tenha um motivo para ele não estar aqui. Talvez seja eu que estou imaginando demais, assumindo coisas que não me dizem respeito. Mas o silêncio ao meu redor parece confirmar algo que não quero admitir: ela está sozinha. E, por mais que eu lute contra isso, uma parte de mim sabe que, se depender de mim, Stella não vai enfrentar isso sozinha.
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