Matteo Bianchi estava completamente maluco.
Talvez seja coisa de italiano achar que alguém que conheceu há apenas uma semana se torne algum tipo de posse. Meu chefe me ignorou e saiu para o corredor com a minha médica, fingindo ser meu marido! Entendo que ela não daria qualquer informação a ele se não tivessemos algum tipo de relacionamento, mas fingir que somos casados é demais.
Casados sem o meu consentimento.
A luz fria do hospital parecia zombar de mim, iluminando cada canto do quarto com uma claridade irritante. Eu ajustei o travesseiro atrás de mim, tentando encontrar uma posição minimamente confortável, mas o gesso na minha perna e a dor constante não ajudavam em nada.
Do outro lado da porta, Matteo estava no corredor, conversando com a médica. O tom de voz dele era calmo e controlado, como se ele fosse um marido preocupado. Meu marido. Que piada! Só porque ele decidiu fingir ser meu marido para... sei lá, facilitar as coisas? O que ele estava pensando?
Observei a silhueta dele através do vidro da porta, gesticulando enquanto ouvia a médica. Ele parecia tão confiante, tão dono da situação, como se realmente tivesse algum direito de decidir qualquer coisa sobre a minha vida.
Eu apertei o lençol com força, sentindo a raiva crescer dentro de mim. Quando ele voltasse, eu deixaria claro que não ia aceitar aquela ideia absurda de morar com ele. Nem o conhecia! Por mais que ele tivesse causado o acidente, isso não lhe dava o direito de interferir assim. Eu tinha minha vida, minhas escolhas.
A porta se abriu, e ele entrou, fechando-a atrás de si. Matteo olhou para mim, com aquela expressão que misturava culpa e determinação, como se estivesse preparado para enfrentar a minha objeção.
— Stella, eu...
— Não! — cortei, antes que ele pudesse começar. — Eu não vou morar com você. Isso não tem cabimento. Nós nem nos conhecemos, e você acha que pode simplesmente aparecer e decidir isso?
Ele cruzou os braços e inclinou a cabeça, me observando como se eu fosse uma criança fazendo birra.
— É o mínimo que posso fazer, considerando que foi eu quem causou essa situação.
— O mínimo? — repeti, incrédula. — Você está brincando? Eu não pedi nada disso. Eu consigo me virar sozinha.
— Consegue? — Ele arqueou uma sobrancelha, apontando para a perna engessada. — E como você vai subir as escadas do seu apartamento?
Engoli em seco.
— Eu... posso dar um jeito.
— Um jeito? — Ele soltou uma risada seca. — Stella, você nem pode sair da cama sozinha agora. Não tem jeito.
— Isso não significa que eu preciso de você.
Ele deu um passo à frente, apoiando as mãos na beirada da cama. Seu tom ficou mais baixo, quase como se estivesse tentando me convencer.
— Eu pago pelo seu tratamento. Por tudo. É o mínimo que posso fazer para me desculpar pelo acidente.
Eu odiava como aquilo fazia sentido. Mas odiava ainda mais como ele parecia tão certo de que tinha que cuidar de mim.
— Isso não é responsabilidade sua, Matteo.
— Talvez não seja — ele respondeu, os olhos fixos nos meus.
Eu não soube o que dizer. E, pela primeira vez desde que acordei naquele hospital, não era só a dor na perna que me deixava desconfortável. Seus olhos desceram para onde minha mão estava apoiada na barriga. Por um momento, pensei que a conversa havia terminado. Mas então percebi que os olhos de Matteo não estavam mais fixos no meu rosto. Ele estava olhando para a minha mão. Eu nem tinha percebido que ela estava repousando sobre minha barriga, um gesto instintivo que eu fazia sem pensar, como se estivesse tentando proteger algo que nem parecia real ainda.
Seu olhar subiu até encontrar o meu, e eu senti meu coração acelerar.
— De quantas semanas você está? — ele perguntou, a voz baixa, mas firme.
Eu hesitei, odiando a vulnerabilidade que essa pergunta trazia.
— Seis semanas — respondi, tentando parecer indiferente. — Mas ainda não fiz um ultrassom.
— É um momento único, nunca vai se esquecer quando fizer o primeiro.
— Já participou de algum? — questiono automaticamente, sem notas as palavras saltando curiosas para fora. Matteo não responde, e acho que a sombra em seus olhos é o suficiente para que eu junte algumas pessoas. Quem ele perdeu? Ele inspirou profundamente, fechando os olhos por um segundo antes de se sentar na beirada da cama. Quando os abriu novamente, havia algo diferente neles, algo mais suave e... humano.
— Stella, por favor — ele disse, a voz carregada de sinceridade. — Aceite minha ajuda. Não como um estranho metido ou alguém que acha que tem algum direito sobre sua vida. Mas como... amigos.
Eu estreitei os olhos.
— Amigos? — perguntei, desconfiada.
Ele assentiu, inclinando-se ligeiramente para frente.
— Sim, amigos. Sei que parece loucura agora, mas você é a única pessoa com quem sinto que posso ser... verdadeiro, sabe? E eu quero ajudar. É minha forma de me desculpar pelo acidente, pela confusão toda.
Eu queria retrucar, dizer que não precisava de ninguém, que podia lidar com tudo sozinha, mas as palavras não saíam. Ele parecia tão sincero, quase desesperado para que eu dissesse sim.
— Prometo que, assim que a médica te liberar, levo você de volta para sua casa — ele continuou. — Mas até lá, deixe-me estar aqui por você. Você pode contar comigo, Stella. Porque, no momento, você é minha única amiga. E é isso que os amigos fazem um pelo outro, não é?
As palavras dele pairaram no ar, me desarmando aos poucos. Não era a primeira vez que alguém oferecia ajuda, mas era a primeira vez em que parecia que essa ajuda vinha sem segundas intenções, sem expectativas. Eu soltei um suspiro, olhando para a mão dele apoiada ao lado da minha na cama. Talvez, só talvez, aceitar não fosse o fim do mundo.
Eu desviei o olhar para o teto, tentando organizar o turbilhão de pensamentos na minha cabeça. Cada fibra do meu ser gritava para eu recusar, para eu manter minha independência intacta. Mas, no fundo, talvez eu soubesse que ele estava certo.
Nos últimos meses, parecia que tudo na minha vida tinha se resumido a lutar. Lutar para pagar as contas, lutar para manter meu trabalho, lutar contra a exaustão de carregar esse segredo sozinha. E agora, com a perna quebrada e um bebê crescendo dentro de mim, parecia que a vida estava me desafiando a lutar ainda mais.
Eu estava cansada. Tão cansada que só de imaginar não ter que fazer tudo sozinha por algum tempo... era quase um alívio.
Virei o rosto para Matteo, que ainda estava sentado na beirada da cama, me observando com aquela mistura de culpa e determinação. Talvez ele não fosse o vilão que eu queria acreditar que era. Talvez aceitar ajuda não fosse o fim do mundo.
— Certo — disse, finalmente. Minha voz saiu mais baixa do que eu pretendia, mas pelo menos saiu. — Dois meses.
A expressão dele mudou instantaneamente, como se eu tivesse tirado um peso enorme de seus ombros.
— Dois meses — repeti, firme. — E ninguém pode saber. Ninguém no trabalho, ninguém.
Ele franziu a testa, mas assentiu.
— Tudo bem. Só nós dois.
— E você tem que prometer que, assim que eu estiver melhor, você me leva de volta para a minha casa.
— Eu prometo.
A intensidade na voz dele me fez acreditar, pelo menos por agora, que ele estava falando sério. Eu não confiava totalmente em Matteo, mas também não tinha forças para continuar carregando tudo sozinha.
— E, Matteo... — acrescentei, cruzando os braços sobre o peito. — Isso é só ajuda, não é outra coisa.
Ele soltou um pequeno sorriso, como se entendesse o que eu queria dizer.
— Só ajuda, Stella. Eu juro.
Eu suspirei, me afundando nos travesseiros.
— Melhor você manter sua palavra.
Ele apenas assentiu, mas o brilho de determinação em seus olhos não diminuiu nem um pouco. Por mais estranho que fosse, eu sabia que ele não iria quebrar aquela promessa. Pela primeira vez em muito tempo, me permiti parar de lutar. Pelo menos por dois meses.
Matteo relaxou os ombros, como se minha resposta tivesse tirado um peso das costas dele. Ele passou a mão pelos cabelos, respirando fundo antes de me encarar novamente.
— Vou preparar tudo para que você se sinta confortável no meu apartamento — disse ele, o tom prático, quase casual. — Vou providenciar o que for necessário para sua recuperação.
Eu arqueei uma sobrancelha.
— Seu apartamento? Onde?
— Aqui na cidade. Não é nada muito grande, mas tem espaço suficiente e, o mais importante, nenhum degrau.
A lógica dele era irritante, mas fazia sentido. Antes que eu pudesse dizer algo, ele continuou:
— Além disso, eu também voltarei para a Itália dentro de dois meses.
Isso chamou minha atenção.
— Dois meses? — perguntei, franzindo a testa.
Ele deu de ombros.
— Sim. Tenho compromissos que não posso adiar, então... nenhum de nós precisa se preocupar com algo além disso. Só dois meses. Apenas amigos.
A forma como ele enfatizou a palavra “amigos” parecia um esforço deliberado para me convencer de que ele estava sendo sincero. E, contra todas as minhas expectativas, eu quase acreditei nele.
— Certo — murmurei, como se dissesse isso mais para mim do que para ele.
Matteo se levantou, ajustando o terno sobre o ombro e lançando-me um último olhar firme.
— Vou falar com a médica e organizar tudo. Só descanse, Stella. Não se preocupe com mais nada.
Eu não respondi, apenas o observei sair do quarto, a presença dele ainda pairando no ar. Enquanto o silêncio retornava ao ambiente, um pensamento cruzou minha mente. Talvez, por dois meses, eu pudesse aprender o que era ter alguém ao meu lado, mesmo que fosse apenas como um amigo.
Mas, de alguma forma, algo me dizia que nada sobre Matteo seria tão simples assim.