Capítulo 19: Matteo Bianchi

1393 Palavras
Quando entro em casa, o apartamento parece mais silencioso do que o normal. Coloco as sacolas com o almoço na bancada da cozinha e sigo pelo corredor em direção à sala de TV. O cheiro da comida começa a preencher o ar, e eu já me imagino sentado ao lado dela, compartilhando uma refeição. Chego à sala e encontro Stella encolhida no sofá gigante, com uma coberta cobrindo o seu corpo. Ela parece confortável, mas a TV exibe um filme qualquer, sem muito foco. Me aproximo com cautela, sem querer assustá-la, e a vejo apenas mexer os olhos na direção da tela. — Está tudo bem? — Pergunto, me sentando no canto do sofá, preocupado. A última coisa que eu quero é que ela esteja se sentindo m*l, ainda mais depois de tudo que aconteceu. Ela vira os olhos para mim e dá um pequeno sorriso, embora seu rosto esteja pálido. — Estou bem. — diz ela com uma leveza na voz, mas eu consigo ver que algo não está certo. — Só que há algumas horas comecei a me sentir muito enjoada, então deitei. Não queria fazer nada que me deixasse pior. — Quer ir ao médico? Ou posso ligar para sua médica vim vê-la em casa. — Não precisa. — ela sorri e se senta. — É normal nesse período, apenas ficou mais forte hoje. Resisto ao desejo de me sentar ao seu lado e acomodá-la em meus braços. Minha preocupação aumenta um pouco, mas tento esconder. — Quer que eu faça algo para você comer? Pode te ajudar a se sentir melhor. Stella pensa por um momento, e depois de um tempo ela responde com um tom mais suave. — Acho que seria uma boa ideia. Sento por um segundo e, sem perder tempo, me levanto novamente. — Fica aí, vou preparar algo para você. Vou até a cozinha, mas não consigo deixar de sentir uma vontade de fazer o possível para ela se sentir melhor. Entro na cozinha, pego o que já trouxe e preparo rapidamente uma bandeja com comida, incluindo algumas opções leves. Coloco também um copo de água, pensando que é o que ela provavelmente vai precisar. Quando volto para a sala, me sento ao lado dela no sofá, colocando a bandeja entre nós. — Coma, vai te fazer bem. — digo com um sorriso, passando um pedaço de macarrão para ela. Ela parece relutante por um momento, mexendo na comida, mas depois começa a comer devagar, como se realmente estivesse tentando. — Eu não sei... ainda estou me sentindo meio m*l. — ela reclama, mas minha insistência é mais forte. — Vamos, só um pouco mais. Ela suspira, mas continua. O silêncio entre nós é confortável, mas então, de repente, Stella olha para mim e diz algo que me pega de surpresa. — É a primeira vez em muito tempo que alguém cuida de mim. — ela fala baixinho, como se as palavras tivessem saído de forma espontânea. Isso me pega de surpresa. Fico sem saber o que dizer, a sensação de desconforto crescendo dentro de mim. Mas também é uma sensação boa, algo que eu nunca pensei que iria sentir. Eu sempre cuidei de tanta gente, e agora... era como se alguém estivesse permitindo que eu cuidasse dela também. — É o que um homem de verdade faria. — digo de forma quase automática, tentando soar mais seguro do que realmente me sinto. Ela me olha com os olhos levemente arregalados, como se tivesse absorvido minhas palavras de maneira mais profunda do que eu imaginava. Mas então, sem perceber, uma frase escapa dos meus lábios. — Se eu fosse o homem de sorte a ser o pai desse bebê, — começo, minha voz soando mais suave e hesitante do que o normal. — Eu nunca teria deixado você sozinha. Nunca teria soltado sua mão. E agora eu odeio um completo desconhecido, odeio um cara que nem conheço por ele ter sido um merda com você e ao mesmo tempo agradeço pelo filho da p**a não estar aqui... Sinto um gelo no peito, como se uma parte de mim tivesse se revelado sem querer. Olho para ela, e vejo seus olhos brilharam com algo que eu não esperava – uma leve chama de esperança que, por um instante, me faz questionar o que eu disse. Stella não diz nada de imediato, mas o silêncio entre nós se torna carregado com uma tensão inesperada. Eu me viro para ela, tentando evitar os olhos dela, e fico um pouco mais tenso. — Eu... não devia ter dito isso. — murmuro, tentando disfarçar o peso que minhas palavras deixaram no ar. — Me desculpe. Mas Stella não parece incomodada. Ela me observa de forma profunda, e seu olhar está tão sincero, tão vulnerável, que por um momento eu quase esqueço de respirar. Ela não diz nada, mas seus olhos dizem o que as palavras não conseguem. Meu peito aperta, como se aquele simples comentário tivesse despertado uma verdade que eu não estava pronto para encarar. O que estou dizendo? Eu não sei, mas, de alguma forma, eu não me arrependo. Eu queria poder ser aquele homem para ela. Queria poder prometer que estaria sempre ao lado dela, mas as circunstâncias... bem, as circunstâncias são complicadas. — Eu... não quero te dar falsas esperanças. — tento dizer, mas a verdade é que, no fundo, eu também tenho esperança. Eu sinto algo por ela, algo mais forte do que uma simples amizade, mais forte do que qualquer razão lógica. Ela balança a cabeça, com um sorriso pequeno e quase tímido. — Não me preocupo com falsas esperanças, temos um acordo, não se preocupe, em dois meses ficará livre de mim. Eu engulo em seco, o peso das suas palavras caindo sobre mim. Ela se recosta novamente no sofá, ainda com a coberta sobre os ombros, e por um segundo, nos perdemos em um silêncio confortável, mas carregado de algo mais. — Eu não consigo... Não consigo me afastar de você. — começo, a voz baixa, carregada de confusão. Olho para as mãos, sentindo o peso das minhas palavras, tentando processar o que estou sentindo. — Eu não sei o que é... mas eu sinto a necessidade de cuidar de você, Stella. Não consigo deixar você sozinha, não sei por que. Sinto o calor do meu próprio rosto, e, por um momento, fico em silêncio, como se minhas palavras não fizessem sentido. A sensação é estranha, quase perturbadora, como se eu estivesse admitindo algo que deveria esconder. Mas, no fundo, há algo em mim que não consegue resistir a essa sensação. Algo em mim que quer estar aqui, ao lado dela, a qualquer custo. Então, sem saber o que mais fazer, dou um passo tímido. Coloco minha mão sobre a dela, sentando ao seu lado. O toque é leve, quase inseguro, mas eu a sinto ali, firme e real. Minha respiração fica um pouco mais curta. Ela olha para minha mão, e antes que eu tenha tempo de me preocupar com o que estou fazendo, ela entrelaça os dedos comigo, com uma suavidade que me faz perder o fôlego. Eu a encaro, vendo a leveza no seu olhar, uma confiança que não consigo explicar. Ela parece tão vulnerável, mas ao mesmo tempo tão forte. Como se, de alguma forma, ela estivesse me permitindo fazer parte de algo que eu não deveria estar, e ao mesmo tempo, de alguma forma, precisava estar. — Não fique. Eu também me sinto assim. — ela diz suavemente, a voz tranquila, mas cheia de uma sinceridade palpável. — Estou com medo, mas... Você pode ficar. Pelo menos enquanto esse pequeno momento de paz durar, eu... eu vou estar feliz. As palavras dela caem sobre mim como uma onda suave. Eu me sinto confuso, mas ao mesmo tempo, há uma paz estranha no fato de que, neste momento, não preciso buscar respostas, não preciso entender tudo. Eu posso ficar. Podemos ficar. E isso, por algum motivo, é o suficiente. Eu respiro fundo, tentando processar tudo. — Eu fico. — digo, com mais certeza do que eu esperava. E ali, juntos, o tempo parece desacelerar. O mundo lá fora desaparece enquanto estamos sentados ali, a simples presença um do outro sendo tudo o que precisamos para encontrar, por um breve momento, um tipo de paz que parecia tão distante.
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