Capítulo 23: Stella Conti

1283 Palavras
Eu estava sentada no carro, observando as ruas movimentadas de São Paulo passarem pela janela, quando a notificação do meu celular vibrou. A tela iluminada mostrava uma mensagem do banco: o meu pagamento havia caído. Suspirei, aliviada. Era sempre um conforto ver aquele número aparecer, saber que pelo menos as contas do mês estavam garantidas. Mas algo estava errado. Franzi a testa ao perceber que o valor era maior do que deveria. Bem maior. Virei para Matteo, que dirigia com uma calma irritantemente natural. — Matteo, o que é isso? — perguntei, levantando o celular para ele dar uma olhada. — Por que meu pagamento veio tão alto esse mês? Ele desviou os olhos da estrada por um segundo, arqueando uma sobrancelha. — Ah, isso? É o aumento de final de ano para todos os funcionários. Um tipo de bônus. Pisquei, desconfiada. — Desde quando temos bônus de final de ano? Isso nunca aconteceu antes. Matteo deu de ombros, mantendo o olhar fixo na estrada. — Desde este ano. Decidi que seria uma boa ideia. Ele estava mentindo. Eu sabia. Matteo tinha aquele jeito peculiar de mentir: direto, sem pestanejar, mas com um pequeno vinco na testa que eu já tinha aprendido a identificar. — Matteo… — comecei, tentando parecer séria, mas minha voz saiu hesitante. — Stella, aceita. — Ele me interrompeu, com o tom mais firme e autoritário que ele conseguia usar sem parecer rude. — Use o dinheiro. Compre o que você precisa para o bebê. Hesitei, olhando para ele e depois para o celular em minhas mãos. Aquele dinheiro realmente me tiraria de um aperto enorme. Poderia comprar algumas coisas para o bebê, talvez até pagar as últimas parcelas do acordo com o hospital da minha mãe. Mas aceitar isso dele parecia tão… estranho. Era como se eu estivesse cruzando uma linha invisível. Não éramos um casal. Ele não era obrigado a fazer isso por mim. — Matteo, eu… não sei se deveria aceitar isso — confessei, minha voz saindo quase como um sussurro. Ele deu um longo suspiro, diminuindo a velocidade ao parar em um semáforo. — Stella, olha para mim. Eu olhei, relutante. Os olhos dele estavam mais suaves do que eu esperava, quase… carinhosos. — Por favor, só aceita. — Ele pausou, como se procurasse as palavras certas. — Eu sei que você não gosta de depender de ninguém, mas isso não é caridade. É o mínimo que posso fazer, e além disso, todos os funcionários receberam. Fiquei em silêncio, sentindo um nó no peito. Ele estava insistindo. Não de forma invasiva, mas de um jeito que fazia tudo parecer menos constrangedor. — Tudo bem… — cedi, baixando a cabeça e mexendo no celular. — Obrigada. O sorriso satisfeito dele foi discreto, mas eu notei. Matteo acelerou novamente, e, alguns minutos depois, virou o carro para um estacionamento de uma loja de departamentos. — O que estamos fazendo aqui? — perguntei, mesmo já sabendo a resposta. — Compras — ele respondeu simplesmente, saindo do carro e vindo abrir minha porta antes que eu tivesse a chance. Suspirei, ajustando a alça da bolsa no ombro e seguindo ele até a entrada, sempre insistindo para que eu andasse devagar. Cogitei que ele me colocaria em um daqueles carrinhos como uma criança. A loja era enorme, com corredores e mais corredores cheios de tudo o que você pudesse imaginar. Matteo parecia à vontade, como se já tivesse um plano. Enquanto ele puxava um carrinho, eu fiquei parada por um momento, olhando para as pequenas roupinhas penduradas nos cabides. Elas eram tão pequenas, tão delicadas. Por um instante, senti meu coração apertar com a realidade de que, em poucos meses, meu bebê estaria aqui. Matteo empurrou o carrinho até mim, e sua voz baixa quebrou o silêncio: — Por onde começamos? Eu olhei para ele, ainda incerta. — Eu nem sei o que comprar. — Vamos descobrir juntos — ele disse, com um pequeno sorriso. — Vou procurar uma vendedora. E, pela primeira vez em muito tempo, senti uma pontinha de conforto. Como se, de alguma forma, eu realmente não estivesse sozinha. Enquanto caminhávamos pelos corredores, Matteo parecia genuinamente interessado em tudo. Ele analisava cada detalhe das explicações da vendedora, fazia perguntas sobre os materiais das roupinhas e até pegava os produtos para sentir a textura. Eu o observava com uma mistura de surpresa e admiração. Era difícil imaginar aquele homem tão sério, sempre tão focado no trabalho, prestando atenção nos detalhes de um macacãozinho de algodão ou de uma mantinha decorada com elefantes. — Este aqui parece bom — Matteo disse, segurando um conjuntinho de pijama azul claro com nuvens bordadas. Ele virou para mim, levantando as sobrancelhas, como se esperasse minha aprovação. — É lindo — respondi, com um sorriso pequeno. A vendedora aproveitou o momento para nos apresentar algumas opções de carrinhos de bebê, explicando as vantagens de cada modelo. Matteo se inclinava para ouvir melhor, questionando sobre segurança e conforto, como se aquilo fosse a coisa mais importante do mundo. Eu só conseguia observar em silêncio, tentando absorver a cena. Ele estava levando aquilo tão a sério… mais sério do que eu mesma tinha levado até então. Enquanto Matteo e a vendedora discutiam sobre um modelo de carrinho que "facilitava a mobilidade urbana", o telefone dele vibrou no bolso do casaco. Ele pediu licença, se afastou alguns passos e atendeu a ligação, com a expressão automaticamente mais séria. Fingi estar ocupada observando algumas roupinhas na arara ao lado, mas minha atenção estava toda nele. — Sim, estou ciente — Matteo disse, em tom firme, mas controlado. — Não, ainda não. Vou precisar de mais alguns dias para organizar as coisas aqui antes de voltar. Meu peito apertou ao ouvir a palavra "voltar". Ele continuou falando em um tom mais baixo, mas eu consegui captar algumas palavras: "agenda", "reuniões" e "Itália". Voltar para Itália. Claro, ele tinha uma vida para retomar, negócios importantes, pessoas que precisavam dele. Eu sabia disso desde o início, mas ouvir aquelas palavras em voz alta fez com que a realidade me atingisse como um soco no estômago. Eu abaixei a cabeça, fingindo estar distraída com um macacão amarelo, mas meus dedos tremiam levemente enquanto deslizavam pelo tecido. Era inevitável. Por mais que Matteo estivesse presente agora, ele não podia ficar para sempre. Não era o luxo ou o conforto da presença dele que eu temia perder. Era a forma como ele fazia tudo parecer menos assustador, como o peso da gravidez parecia mais leve com ele ao meu lado. A forma como ele cuidava de mim, mesmo quando eu insistia que não precisava. Voltei meu olhar para ele, que ainda estava no telefone, gesticulando de forma contida, mas com aquela expressão séria que me lembrava o Matteo que eu conheci no trabalho: focado, inabalável. Ele vai embora, pensei, sentindo um vazio começar a se formar no peito. Quando Matteo encerrou a ligação e voltou para onde eu estava, ele parecia mais relaxado, como se tivesse resolvido o problema. — Tudo certo? — ele perguntou, como se nada tivesse acontecido. — Sim, claro — respondi, forçando um sorriso e colocando o macacão amarelo de volta na arara. — O que você achou daquele carrinho? — ele continuou, apontando para o modelo que a vendedora havia mostrado antes. Eu não tinha prestado atenção em absolutamente nada do que ela disse, mas assenti. — Parece ótimo. Matteo sorriu, aparentemente satisfeito, e empurrou o carrinho de compras para o próximo corredor. Eu o segui, tentando ignorar o peso no meu peito e o nó que se formava na minha garganta. Eu sabia que aquilo tudo acabaria. Talvez mais cedo do que eu estava pronta para aceitar.
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