Ela estará lá.
O destino tem gosto de ironia.
Chego tarde. O salão é amplo, frio e dourado, cheio de gente que disfarça ambição com carisma.
Mas quando a vejo, o mundo volta a silenciar.
Selena.
Vestido vinho, cabelos presos, uma mecha caída sobre o rosto — imperfeição que, nela, é deliberada.
Ela está rindo de algo que outro homem diz. Um riso curto, seco. Forçado.
Ciúme não é algo que costumo sentir. É um instinto primitivo, e eu costumo me orgulhar de ter deixado isso para trás.
Mas há algo nela — o jeito como fala, como olha — que faz o sangue ferver.
Caminho até ela, sem pressa.
— Doutora Duarte.
Ela se vira, surpresa contida.
— Senhor Moreau. Achei que preferisse jantares privados.
— Às vezes é preciso queimar em público para ver quem aguenta o calor.
O olhar dela se estreita, e eu percebo que a provocação funcionou.
A noite está só começando.
Durante o jantar, conversamos o mínimo necessário. Há outras pessoas, mas só existe ela.
A cada vez que sua voz surge, é como se o som de todos os talheres cessasse.
Ela domina o espaço com naturalidade — como quem sabe que o inferno inteiro a observa e ainda assim sorri.
Em determinado momento, quando todos estão distraídos, ela levanta-se e segue para o terraço.
Sigo logo atrás.
Lá fora, o ar é fresco. As luzes da cidade tremem ao longe, refletidas nas janelas.
Ela não se vira.
— Está me seguindo, senhor Moreau?
— Talvez.
— Isso é perigoso.
— Só se eu for.
Ela se volta, devagar. O olhar âmbar brilha à meia-luz.
— E é?
— Sempre.
Silêncio. A tensão é quase física.
Dou um passo à frente. Ela não recua.
Mais um passo, e já sinto o calor da pele dela.
A mão dela segura a taça com firmeza, mas os dedos tremem levemente.
Ela tenta parecer imune. Eu também.
— Por que está aqui, Dante? — pergunta, o tom firme, mas a voz ligeiramente trêmula.
— Para descobrir o quanto você aguenta brincar com fogo.
Ela ri. Um som curto, bonito e perigoso.
— E se eu não queimar?
— Então eu queimo por nós dois.
As palavras saem mais baixas do que eu esperava.
Ela respira fundo, o peito sobe e desce lentamente, e por um segundo o mundo parece se inclinar.
Mas então ela dá um passo para trás, quebrando o feitiço.
— Cuidado, senhor Moreau — diz, voltando o olhar para as luzes da cidade. — O fogo não escolhe o que destrói.
Saio antes que perceba que ela tem razão.
Selena
Eu deveria ter ignorado o jantar.
Deveria ter deixado o nome dele sumir entre os contratos e as horas de sono atrasadas.
Mas o problema é que Dante Moreau não some. Ele permanece — como um perfume que gruda na pele, uma lembrança que insiste em ser tocada.
O evento da Helix era apenas uma obrigação. Até ele aparecer.
Dante entra no salão como quem não precisa de convite.
O ar muda.
As conversas perdem o ritmo.
Os olhos o seguem, mas ele só enxerga um alvo: eu.
Finjo indiferença. Falo com um investidor qualquer.
Mas quando ele se aproxima, sinto o corpo reagir antes da mente.
O tom de voz, a escolha das palavras, o perigo.
Ele me provoca na frente de todos, e eu revido.
É um jogo — e sei que, no fundo, ambos esperamos perder.
O jantar é longo, sufocante.
Em cada olhar, ele me lembra o que aconteceu — e o que quase aconteceu.
Decido sair por alguns minutos. Preciso respirar.
No terraço, o vento é um alívio.
Ou seria, se ele não tivesse me seguido.
— Está me seguindo, senhor Moreau? — digo sem virar.
Quando ouço a resposta, o corpo inteiro desperta.
Ele se aproxima, devagar, como quem conhece o poder que tem.
A presença dele é uma força que preenche o espaço.
Quando diz “sempre”, sinto o chão ceder.
Tento manter o controle.
Pergunto por que está ali, e ele responde o que não devia: para descobrir o quanto você aguenta brincar com fogo.
As palavras tocam a pele como um sopro quente.
E, por um instante, acredito que ele vá me beijar.
Quero que vá.
Odiaria se fosse.
Essas duas verdades coexistem, como lâminas cruzadas.
Mas então recuo. Preciso.
— Cuidado, senhor Moreau. O fogo não escolhe o que destrói.
Ele me observa por um instante, depois se afasta.
Fico sozinha.
O coração pulsa rápido, a respiração curta.
Fecho os olhos.
E vejo o rosto dele — o olhar, a tensão, o controle prestes a se romper.
Algo dentro de mim está mudando, e eu odeio admitir.
De volta ao salão, o jantar segue.
Sorrisos, brindes, promessas falsas.
Mas o corpo ainda arde.
Quando tudo termina, volto para casa e tiro os sapatos.
O silêncio me engole.
No espelho, vejo uma mulher que não reconheço totalmente.
Aquela que entrou nesse jogo por vingança começa a duvidar das próprias armas.
No celular, uma notificação.
Uma mensagem.
Dele.
“Você estava certa. O fogo não escolhe o que destrói. Mas às vezes vale o preço.”
Olho para a tela por longos segundos antes de responder.
Não respondo.
Apago a mensagem.
Mas a frase fica.
Queima.
Deito, viro de lado e tento dormir.
A escuridão do quarto é densa, mas o inferno dentro de mim não se apaga.
Ele apenas muda de cor.
Dois corpos em guerra, duas vontades queimando o mesmo ar.
O jantar terminou, mas o jogo está apenas começando.
E no campo do desejo, às vezes o perdão é mais perigoso que o pecado.
Dante
O caos chega cedo.
Não é algo que me surpreenda — eu aprendi a esperar o pior de todas as pessoas, inclusive de mim mesmo.
Mas o que me irrita é o momento: justamente agora, quando minha mente ainda está dividida entre o trabalho e a lembrança de uma mulher de olhos âmbar.
Sete e meia da manhã, Antony entra na minha sala sem bater.
O rosto dele está tenso.