Doze anos depois
Estava em frente ao espelho terminando de me aprontar. Os cabelos formam cachos largos e caem em ondas sobre meus ombros. O lápis preto destaca meus olhos verdes e o batom vermelho deixa meus lábios ainda mais atrativos.
Meu filho está na cama jogando em seu celular.
— Kayo, venha cá. — Ele é tudo que tenho na vida, sou capaz de tudo por essa criança e quero garantir que ele jamais se sinta desprezado, abandonado, como eu fui.
Chamo e ele resmunga ao se erguer da cama com o jogo pausado.
— Eu vou perder o jogo, mamãe.
— É rápido. — Bato a mão na minha coxa e ele se senta. — Seu aniversário de onze anos está chegando, quer festa ou presente?
O sorriso do menino amplia. Ele está tão bonito quanto o pai, meu filho saiu a cópia fiel do homem que destruiu minha vida.
— Já tenho tanta coisa, quero uma festa na piscina com meus amigos da escola.
— Então vai ter sua festa na piscina.
— Oba! — O menino se alegra e isso é toda satisfação que tenho.
— Fica quietinho aqui que a mamãe vai trabalhar, tá bom.
— Tá. — Ele volta feliz para a cama onde retoma o seu jogo.
Tive tudo o que Nice me prometeu e a mulher é como uma mãe para mim e uma avó para Kayo, inclusive ele a chama assim.
Infelizmente, para viver aqui tive que me habituar a algo que jamais imaginei para minha vida.
Desço as escadas e vou para a área da mansão que é destinada aos encontros com os homens que visitam o ambiente. Me sento no bar, mais duas moças se sentam ao meu lado. Pelo tempo que estou aqui, sou uma das mais antigas. A maioria já se envolveu com algum cliente rico e não perdeu a oportunidade de ir embora.
— Hoje choveu o dia todo, pode contar que vai ficar vazio. — Uma das meninas comenta.
— Folga às vezes é bom — fala a outra em resposta.
— Eu quero comprar meu carro, como vou juntar dinheiro desse jeito.
— Logo você arruma um cliente que te dê um carro — responde a amiga.
— E você, Luma, nunca se interessou por algum cliente? — Olho na face da pessoa inconveniente e respondo seca enquanto levo a bebida até a boca.
— Não.
A campainha toca no mesmo instante e Nice vai atender a porta toda pomposa.
Quando a porta se abre, meu coração para. Um homem moreno de cavanhaque atravessa a porta. Ele é lindo e tem olhos castanhos brilhantes, um sorriso arrebatador, não havia como esquecer aqueles traços. Ele estava mais velho, e como se fosse possível, ainda mais bonito. Gabriel.
— Meu Deus, amigas, aquilo nem é um homem é um deus - comenta a mais nova.
O homem olha para nós e Nice faz sinal para que ele se aproxime de nós e ele vem, mas para na metade do caminho e fala algo com a senhora. Será que ele me reconheceu assim como o reconheci?
Ele volta a se aproximar com um sorriso arrebatador. Nice o acompanha.
— Estas são Janaína, Camila e a Lu...
— Lu — corto Nice e ela me olha atravessado, depois conto a ela quem é o homem a seu lado. Estendo a mão e o canalha aperta meus dedos com um sorriso largo.
— Gabriel — apresenta-se apenas para confirmar aquilo que eu tinha certeza — Encantado por sua beleza, Lu. - Ele fala e leva minha mão à boca, deixando um beijo ali.