Capítulo 1

2127 Palavras
Erik ainda não conseguia se acostumar com aquela casa limpa, com cheiro de alvejante e desinfetante, exalando no ar. Seu quarto era limpo todos os dias e os lençóis eram trocados duas vezes ao dia. Uma camareira era responsável por isso, enquanto que um lacaio ajudava Erik a repousar em uma poltrona confortável, na varanda. Era tudo tão estranho para ele, que só se recordava de ficar em uma cela suja e ser maltratado. Lembrar-se dos cortes em seu corpo o deixava furioso. Queria muito fazê-los pagar pela sua constante humilhação. O médico que o atendeu disse que ele tinha quebrado algumas costelas e precisava de repouso. Ou não se recuperaria totalmente. Não era nada grave, mas mesmo assim, Erik devia tomar cuidado ao se deslocar. Apenas o esforço que fazia, sentia o ar faltar nos pulmões. E tudo aquilo, o acidente e sua situação fora causada pelo medo de ser pego de volta. De ser tratado como um animal, para o deleitamento de todos. Como odiava aqueles malditos aristocratas. Não poderia coloca-los todos no mesmo páreo, pois lorde Derby se mostrara um bom amigo. A porta do seu quarto se abriu, de repente, enquanto ele lia sentado na poltrona. O bom era saber que sabia as letras. Sentiu dentro de si que não poderia decifrar as palavras, mas ao passar os olhos pelo texto, conseguiu distinguir as palavras, depois frases e até mesmo tentou ler em francês. Pelo visto, era filho de alguém abastado, para saber ler em dois idiomas. - Boa tarde Erik, meu amigo - ele escutou a voz de lorde Derby atrás de si - Eu tenho boas novas. Ele se aproximou de Erik na varanda. O lugar era bonito, dando visão para um jardim pequeno e bem cuidado. Com lirios e rosas brancas. - Boa tarde, milorde - ele disse, com um sorriso afável. Parecia saber como lidar com pessoas da classe dele. Sentiu isso desde que cruzou o caminho daquele cavalheiro. O que mais deveria saber fazer? Estava curioso em saber sobre seu passado e não via a hora de saber se tinha uma família preocupada com ele. Será que ele era importante para alguém? Será que a mulher dos seus sonhos que sempre aparecia, dizendo que o amava muito, estaria preocupada com ele? Ele poderia jurar que era sua mãe. Tinha uma mãe? Seria reconfortante saber disso - E qual seria as noticias boas? - Primeiro, consegui localizar o local que o prendia e com meus contatos, nós vamos conseguir pega-los - lorde Derby respondeu, com um olhar entusiasmado - Mas, não poderemos ficar para ver o desfecho. - E por que não? - Erik perguntou. Pois, queria ele mesmo colocar as mãos naqueles homens e mata-los. Sentiu dentro de si um choque violento de brutalidade. Ficou espantado com esses pensamentos. Será que era tão violento assim? - Bom, infelizmente preciso voltar. Minha irmã está sozinha em Londres, pois meu irmão Charles se recusava a sair do campo. Está irritado com algo. Com minha prima Flora. Ela recusou o pedido de casamento dele e ele parece ter entrado em um estado melancólico. Alguma vez, isso já o acometeu? Pois, a mim isso nunca se passou e não sei lidar com temperamentais. Para mim, uma boa bebida e horas jogando cartas, depois uma bela loira ou morena deve resolver o dilema. Erik não pode deixar de rir. Seu anfitrião era um homem do mundo. Um libertino costumaz. - Bom, eu não posso dizer que já adoeci por amor ou coisa parecida. Eu não me lembro de nada - ele disse, encolhendo os ombros. Detestava não lembrar. Sentia-se vulnerável. - Pois, há de lembrar, meu amigo. Reconheço em você um britânico. Seu sotaque não me engana. Talvez, se voltar comigo para Inglaterra, nós encontraremos as respostas para seu caso particular. Erik assentiu. Sair de Paris era algo que queria fazer, realmente. Tinha a impressão que teria feito isso, se não estivesse preso e tratado como um animal. Algo o impediu. Quem queria que ele fosse tratado daquela maneira? Quem poderia o odiar tanto? - Eu agradeço milorde. Mas, por que está me ajudando? - ele perguntou curioso. Ninguém poderia ajuda-lo sem querer algo em troco, afinal. - Bom, me sinto culpado por seu atropelamento, como eu já havia dito – lorde Derby respondeu sincero – Não sabe o quanto me sinto culpado por isso. E veja, me sinto só. As pessoas que se aproximam de mim só querem meu bom nome, ou dinheiro. E não sei, confio em você, Erik. - Milorde pode confiar em mim. Não me interesso por nada disso. Apenas quero lembrar quem sou. Assim, posso ressarcir tudo que gastou comigo. - Não há nada a ser pago, Erik – lorde Derby garantiu – Agora, vou me preparar para viagem de volta. Pedirei para os lacaios o ajudarem com tudo. * Paris, 1881, primavera. Anne se sentia aflita quando recebeu de lorde Durant. Erik e sua filha estavam desaparecidos há dois meses. E nenhum das buscas que a policia empreendeu, encontrou vestígios dos dois. Não conseguia dormir direito, comer e pensar. Contatou Robert para ver se ele conseguia levantar informações, mas até o momento não havia noticias. Henry e Anne saíram do hotel Savoy, de mãos dadas, um mergulhado em seu mundo. Em seus pensamentos. Ela pensava o quanto tinha saudades de Erik. Seu querido filho de coração. Antony também queria estar junto, mas, como estava na universidade de Oxford, não poderia participar das buscas. - Querida, vamos encontra-lo, sim – Henry disse, beijando o dorso da mão dela – Precisa acreditar que Robert terá mais êxito que os detetives de Durant. - É o que espero. Já estão acusando meu filho de colocar fogo na ópera – ela disse, nervosa – Não posso acreditar nas barbaridades que essas pessoas inventam. Anne avistou um cavalheiro distinto atravessar a rua. Usava um chapéu fedora sobre a cabeça. Sua roupa era bem cortada e ajustada. Um casaco longo no tom preto, indo até os joelhos, calças sociais, camisa branca e um coleta azul metálico. Ela já o viu em bailes e consertos, em Londres. - Venha querida, vamos cumprimentar lorde Derby. Não podemos olvidar dos nossos compromissos sociais – Henry pediu, guiando ela pela calçada, com sua mão sobre as costas dela. Anne sempre fugia de cumprimentar as pessoas de nível social mais alto que ela. Já fora muito difícil passar despercebida por eles. Todos a tratavam com desprezo. Fazia anos que não ligava para isso, mas ainda doía o desprezo. Ela era filha de um vigário e mesmo tendo casado com Henry, que era segundo filho de um visconde, as más línguas diziam na verdade ela queria tirar a sorte grande e se casar com lorde Klyne, seu primo. Mas, ela nunca quis casar com Robert, de maneira alguma. - Lorde Derby – Henry cumprimentou – Espero que esteja em um bom dia. - Igualmente, doutor Collins – ele sorriu afável, fazendo covinhas em suas bochechas. Tinha grandes olhos azuis, parecendo duas safiras – Senhora Collins – ele levantou o chapéu, cumprimentando. - Milorde – ela fez uma reverência. - Deixe-me dizer que sua esposa é encantadora, doutor Collins – ele disse – Quase não a vejo nos eventos sociais. Como pode esconder tal joia de nós? Henry riu, sem ser nada forçado. Parecia confortável. Anne não. Queria acertar uma luva no rosto belo daquele homem. Que era muito mais jovem que ela, presumiu. Ela tinha quase quarenta anos, quanto ele devia não ter atingido seus trinta anos. Como ele se atrevia? - Minha Anne é reservada, milorde. Gosta de permanecer no campo, se possível – seu marido respondeu – Bom, devemos ir. Estamos atrasados para um compromisso. Foi muito bom vê-lo, milorde. - É claro. Foi um prazer revê-lo doutor. Se soubesse que viria, teria contratado seus serviços. - Verdade? Mas, milorde não passa bem? Parece ótimo para mim – Henry disse, surpreso. - Não para mim, mas para um amigo. Infelizmente, eu o atropelei com minha carruagem, há dois dias. - Ó, pobrezinho – disse Anne – E quem é ele? - Não sei. Ele não sabe seu nome – lorde Derby respondeu – Ele parece ter perdido a memória e não sabe quem é. Uma lástima. - Realmente, o caso dele é interessante – Henry comentou curioso – Mas, não sei como lidar. Não é minha especialidade. Sei lidar com fraturas, ossos quebrados e remendar machucados, mas com isso, infelizmente não. - Não há problema. Acredito que em algum momento ele ira se lembrar. Enfim, não quero delongar mais. Um prazer revê-los novamente e quando voltarem a Londres, eu enviarei um convite para que jantem em minha casa. Estarei esperando ansioso. Ele sorriu, olhando para os dois. Anne acreditou que ele poderia estar flertando, mas se sentiu confortável ao ver que o cavalheiro não fez nenhuma menção de olha-la mais detidamente. Eles voltaram a caminhar, para ir ao escritório do detetive particular que Robert contratou. Anne não iria desistir do seu filho. Isso jamais. * Londres, primavera, 1881 Erik se sentia muito melhor agora, por estar deitado em uma cama macia, longe do sacolejar da carruagem. Viajar de trem foi uma espécie de tortura. Lorde Derby era um homem afável, fácil de lidar e cativante em suas conversas, ao menos. Contava sobre suas expedições a Índia e como cause um macaco arrancou seu dedo indicador. Ele agora sabia que não deveria tentar toca-los. Além disso, contava suas aventuras amorosas, de forma desastrosa. Erik somente fora atropelado, pois lorde Derby conduzia a carruagem no momento e queria fugir de um marido ciumento. Por isso, ele estava tentando sair de Paris o mais rápido possível. Não era pela irmã, mas para preservar sua vida, pensou Erik, com um sorriso no rosto. No dia seguinte ao chegar a Londres, ele conseguiu levantar da cama mais disposto, mas ainda com algumas dores pelo corpo. Já fazia duas semanas que estava deitado e não suportava mais ficar inativo. Ao menos, deixaram um robe para ele em uma cadeira ao lado da sua cama. Queria explorar o lugar, mas sentia dentro de si que não estava com roupas adequadas para isso. Sua porta abriu, abruptamente. Ele saltou para trás, assustado. A dor na costela o açoitou logo em seguida. Respirar parecia um martírio. Quando recobrou os sentidos, viu uma moça parada na porta, com um ar curioso, com olhos de gato. Muito verdes e cabelos negros como azeviche. Ela estava acompanhada de uma criatura pequena. Uma criança de pelo menos sete anos, com cabelos loiros e olhos azuis. - Ele é grande – disse a menina – Não sabia que nosso visitante seria tão alto. - Me desculpe, senhor – a outro jovem disse, corando. Erik queria ralhar com as duas, mas elas pareciam adoráveis – Louise ficou tão curiosa com o nosso novo visitante, que não via a hora de conhecê-lo. Sou Daphne Harris e essa é minha prima, Louise Stuart. Cumprimente ele, Louise. - Olá, senhor. Desculpe-me por isso – Louise disse, mas com um sorriso travesso em seu rosto angelical. Erik queria rir das duas e do papel que estavam fazendo. Manteve a atitude séria, para demonstrar respeito. - Bom, eu sugiro que se retirem senhoritas. Não estou devidamente vestido. E logo irei ao encontro das duas – ele prometeu. Louise entrou no quarto, olhando para ele curiosa. Não tinha o menor pudor. - Quem machucou você? – ela perguntou, em sua voz infantil. - Louise, saia do quarto dele. Não pode entrar assim – a senhorita Daphne ralhou e olhava para Erik, com um ar de desculpas. Ele apenas assentiu. - Não sei. Onde está o machucado? – ele perguntou, sem entender. - Aqui – ela indicou com a mão em seu próprio rosto, do lado esquerdo. - Louise – a senhorita Daphne disse, atônita e se aproximou da menina, pegando-a pela mão – Eu peço seu perdão senhor. Minha prima não tem modos ainda – ela olhava para baixo, com uma expressão mortificada. - Não se preocupe com isso. Achei as duas adoráveis – Erik garantiu, com sinceridade. Mas, queria correr para um espelho e ver seu rosto. O que havia de errado com ele? A jovem levantou o rosto, olhando mais atentamente para ele e sorriu. - Seus olhos são da minha cor. Mas, muito mais bonitos – ela murmurou e corou – Ah, nós vamos deixa-lo sozinho agora, senhor. Mais uma vez, nos perdoe. Erik assentiu confuso. Viu a senhorita Daphne sair com a pequena Louise, que olhava para trás, com toda sua curiosidade de criança. Seus olhos são da minha cor. Mas, muito mais bonitos. Aquela frase ecoava em sua mente. E os olhos dela continuariam a assombra-lo por muito tempo, com toda a certeza.
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