- Bom, o que acha? - ele perguntou, olhando Erik do espelho.
Ele usava uma mascara, pela metade, apenas cubrindo seu rosto queimado. Respirou fundo. Tudo bem, não havia problema quanto a isso. O lado do seu rosto que era perfeitamente normal deixava o aspecto menos exótico. Poderia até se imaginar com o rosto inteiro. Quando havia se olhado de novo no espelho, se sentiu um homem pela metade. Primeiro, por não saber quem era, segundo por ter um rosto deformado. Sentia-se quebrado. Partido ao meio, como se sua parte queimada fosse a de uma fera e a outra, sem macula, fosse a de um anjo. O que deixava tudo mais exótico eram seus olhos verdes.
- Bom - Erik respondeu.
- Só bom? - lorde Derby perguntou, chateado - Eu demorei tanto tempo para encontrar alguém que confeccionasse essa mascara Erik. Não me diga que só é bom. Isso é uma obra de arte. Veja como se encaixou perfeitamente ao seu rosto. Aderindo completamente sua pele. Mesmo que seja uma mascara branca, ainda assim, você parece ser um homem misterioso. Vai deixar as mulheres de Londres suspirando. Pensando bem, vou acabar perdendo meu charme - ele colou a mão no queixo, pensativo.
Erik explodiu em uma gargalhada. Realmente, lorde Derby era excentrico a sua maneira. Um dandi preocupado com a aparência, mas um homem com um coração nobre. Parecia preocupado com tudo e com todos. Até mesmo com sua irmã. Não a tratou com condescêndencia. Mas, com paciência e um afeto ilimitado.
- Então, eu não sairei, meu amigo. Fique descansado. Apenas sairei na parte da noite, para espairecer. E para continuar minha busca sobre quem eu sou - Erik disse, ajeitando seu casaco n***o pela lapela.
Sentiu-se muito bem com aquela roupa. Só faltava uma gravata borboleta branca. Lembrou-se que devia usar uma, mas onde e por que? Como se sua mente precisasse desse estimulo, ele viu uma plateia em um teatro mergulhado em vermelho, com camarotes e ele gesticulava com os braços. A sua frente, viu uma orquestra. Os músicos obedeciam seus comandos. A visão sumiu e ele se sentiu tonto e com uma leve dor de cabeça.
Alguém pousava a mão em seu ombro.
- Está tudo bem, Erik? - lorde Derby perguntou.
- Sim...eu...só uma dor de cabeça. E tive uma visão de mim mesmo em um teatro - ele respondeu, abrindo e fechando o olho, tentando focar a visão do quarto.
- Isso é excelente - lorde Derby disse, aproveitando para usar o espelho e ajeitar a gravata de tecido bordo - Quer dizer que esta se recordando. O que mais se lembra?
Erik se sentou na cama de dossel, pensativo.
- Me vi em frente a uma orquestra, gesticulando. Eu era o maestro.
- Ó, isso é excelente - lorde Derby disse, se virando para ele - Está bom assim? - ele gesticulou para si mesmo.
Erik não conseguia se acostumar a ter de dar opiniões sobre a vestimenta masculina de lorde Derby. Mas, não queria ser rude com ele.
- Está perfeito, como sempre.
Lorde Derby sorriu, envaidecido.
- Muito bem - ele disse - Vamos agora para a sala de música. Mas, antes é melhor tomarmos o almoço. Louise quer muito conhecer você, Erik. Pense como ela ficou fascinada pelo novo visitante.
Erik sorriu. Aquela menina havia consigo seu coração. O arrebatou. Mas, sua prima, a jovem de cabelos azeviche o deixou com sentimentos muito pouco fraternos. Precisava se controlar, afinal, o que mais poderia oferecer a senhorita Daphne? Enquanto não tivesse memória, não era ninguém. E muito menos alguém para cortejar a irmã de conde.
- E o que faremos na sala de música depois? - Erik perguntou, curioso. Em sua mente, ele sabia o que era. E já teve a impressão de estar em uma.
- Ora, ver suas habilidades musicais, é claro. Quem sabe isso o fara ter lembranças do passado - Lorde Derby explicou.
Erik assentiu, com concordância. Queria pegar em um violino. Era como se já tivesse sentindo aquele instrumento em suas mãos.
Eles sairam do quarto e foram para o andar debaixo da mansão, passando pelo hall de entrada e indo direto para uma sala de jantar. Havia lugar para pelo menos vinte pessoas. Sala era maior do que seu quarto de hospede, com grandes janelas, com vista para o jardim interno. Sentadas a mesa estavam a menina Louise, a senhorita Daphne e um cavalheiro que Erik não havia visto anteriormente.
- Senhoritas, senhores - ele cumprimentou, ainda em pé.
- Erik, me deixe apresentar meu irmão Charles Harris - Lord Derby se adiantou com as apresentações - Charles, este é o homem que lhe falei mais cedo.
Charles era uma cópia de lorde Harris, mas um pouco mais jovem e com cabelos castanhos. Grandes olhos verdes, assim como os da senhorita Dapnhe. Ele se levantou, inclinando com a cabeça, sem demonstrar qualquer emoção.
- Seja bem vindo, senhor - ele disse, sério, voltando a se sentar.
Erik se preocupou com o fato de o cavalheiro não demonstrar agrado ou desagrado com sua presença.
- Sente-se Erik, por favor - a senhorita Daphne o convidou - Não se importa se eu roubar seu convidado, se importa, Jonathan?
- De modo algum. Desde que mantenha suas ideias visionárias dentro dessa sua cachola - lorde Derby provocou e se sentando do outro lado da mesa, ao lado de Charles.
Erik ficou entre a senhorita Daphne e Louise. Sentiu-se observado, como se fosse um animal exótico no circo.
- Que mascara bonita, senhor - Daphne disse, com um leve sorriso coquete.
- Obrigado - ele agradeceu, olhando rapidamente para ela e voltando sua atenção para o prato. Havia tantos talheres e impressionamente, sabia qual usar. Como se lembrar de algo tão complexo e não se lembrar quem era? Queria gritar consigo mesmo, por causa disso.
- E como está seu machucado? - ela perguntou.
- Melhorou, desde ontem - ele respondeu, agora, sem fita-la. Suas perguntas eram por uma mera convenção social, ou para irrita-lo?
- Isso é ótimo - ela disse.
- Daph, pare de entendiar nosso convidado - Lorde Derby disse, em tom jocoso - Daphne não para de falar, quando lhe dão atenção.
- Daphne deveria se portar como uma dama. Mas, sem nossa mãe, ela perdeu sua direção - Charles comentou, olhando para sua irmã com carinho - Mas, se ela não fosse assim, não seria nossa Daphne.
- Sou muito comportada. Mas, isso é muito tedioso - ela comentou, com um sorriso malicioso.
Erik escolheu esse momento exato para olha-la. Seu coração parecia querer soltar pela boca. Ela tinha um sorriso belo. Lábios nem tem cheios, nem tão finos. Lábios rosados. Lábios que ele poderia provar. Se repreendeu mentalmente por isso. Devia se lembrar do seu lugar ali. Era simplesmente um convidado. Alguém quebrado. Desmemoriado. E taxado como uma fera. Nunca poderia ter olhos para a senhorita Daphne, não enquanto não sabia suas próprias origens.
- O senhor me acha tediosa, senhor Erik? - ela perguntou.
- Eu...- ele tentou pensar em uma resposta rápida e não comprometedora. Não a achava tediosa. De fato, a achava irritante e orgulhosa. Também corajosa e inteligente. E bela. Aquela jovem devia ter o coração de qualquer cavalheiro em sua mão. Esperava não ser o próximo. Em realidade, não seria. Estava convicto de que poderia ter apenas um flerte inocente com ela e ir embora.
- Deixou nosso Erik sem palavras - lorde Derby disse, rindo.
Os criados se aproximaram para servir os pratos a mesa e Erik agradeceu por isso. Não queria pensar na resposta. Não sabia o que sairia de sua boca se dissesse. Pensar não era algo que estava conseguindo fazer, com ela tão perto. Eles comeram em silêncio o primeiro prato, mas logo lorde Derby estabeleceu uma conversa agradável sobre a produção de vinhos. Qual uva era melhor, qual era mais saborosa. Erik não entendia nada disso, apenas concordou com a cabeça. Pensou se era dado a beber, quando provou do vinho do porto que estava em sua taça. Provou um gole e descobriu que não. Definitivamente não era aficcionado nisso.
Sua manga foi puxada de repente e ele encontrou os olhos azuis e placidos da jovem Louise.
- Sim? - Erik disse.
- O senhor escondeu seu machucado? - ela perguntou.
- Eu escondi. Era muito f**o para me expor - ele respondeu.
Ela o fitou, sem entender.
- Era f**o, mas o senhor é bonito - ela disse, com um sorriso - A Daphne disse que o senhor é bonito e eu concordo com ela.
Erik engoliu seco e olhou para o lado. Daphne discutia com o senhor Harris sobre ir ao chá na casa de lady Klyne, ao qual ele se recusava a deixar.
- Da ultima vez, você desapareceu por um dia e estava na frente do parlamento, com placas de protesto. Vai me m***r desse jeito. John, fale algo sobre isso - ele disse, irado.
- Eu não sei o que dizer - lorde Derby disse - Ela tem seu ponto a defender. E adoro a lady Klyne. Na verdade, se eu fosse mais velho, teria me casado com aquela ruiva.
- Jonathan, não fale essas coisas a mesa - Daphne ralhou.
Erik estava perdido na conversa. Olhando de um a outro, como se fosse um jogo de tênis. Aquela família era agitada de mais para ele acompanhar.
- Tio Erik, você tira sua mascara para eu ver seu machucado? - Louise pediu, puxando sua manga.
- Ah...- Erik ficou sem fala naquele instante.
- Eu acho que você não deve falar de política, então, Daph - lorde Derby rebateu, ao mesmo tempo que Louise havia pedido para Erik tirar sua mascara - Que algo frequente nessa casa. Estou cansado de ouvir sobre isso.
- E você devia ser uma presença mais ativa na câmara dos Lordes. Devia defender os interesses da sua irmã e de todos as mulheres - ele argumentou, fervorosa.
Erik estava perdido naquela conversa. Louise o olhava com expectativa.
- Tira a mascara, tio Erik? - ela pediu, novamente.
- Sem discussões sobre isso na mesa, por favor - o senhor Harris pediu.
Erik respirou fundo. Sentia que ia desmaiar em um instante.
- Tio Erik? - ele escutou Louise dizer.
Não escutava mais nada, apenas afastou a cadeira a derrubando com um baque.
- Me perdoem, eu preciso...
Ele não sabia o que precisava, apenas saiu da sala e encontrou o corredor. Procurou uma saída. Precisava respirar, apenas respirar. Por que o mundo estava girando para ele?
Erik encontrou a saída para o jardim interno, por uma sala de estar decorada em azul e ajoelhou na grama. O sol era gentil, aparecendo no horizonte. Ele respirou fundo várias vezes. Escutou passos, em seguida.
- Senhor? - era a voz da senhorita Daphne.
- Erik - a outra era de lorde Derby - O que houve meu amigo?
Sem se levantar, Erik apenas se deixou sentar na grama. A senhorita Daphne e lorde Derby estavam a sua frente agora. Olhando de cima, preocupados. Ele escutou mais passos pela grama e alguém agarrar seu pescoço
- Tio Erik - Louise disse em seu ouvido.
- Ele está bem? - o senhor Harris perguntou - Parecia que iria desmaiar lá dentro.
- Erik, amigo - lorde Derby se agachou a frente dele - Fale comigo. Outra lembrança?
- Não, eu só me senti sufocado. Estava prestes a perder o ar - ele comentou - Ou a consciência. Não sei. Passei tanto tempo sozinho que não sei lidar com tantas pessoas ao meu redor.
- Erik, sinto muito. Nós somos uma família um pouco exaltad - lorde Derby comentou, sorrindo - Prometemos parar de falar tanto.
- Seria nos m***r de tédio - a senhorita Daphne disse, em tom ironico.
Erik não pode deixar de rir.
- Viu, ele está rindo. Está ótimo - o senhor Harris disse - Passou em nosso ritual. E quem consegue aguentar Daph e Louise, tem meu respeito.
- Ei - a senhorita Daphne prostestou.
Louise sentou ao lado de Erik na grama, puxando a folha com as mãozinhas pequenas, distraida. Erik olhou para aquela família. Felizes, sorrindo. Pareciam se amar. Ele se perguntava se alguém o amava. Esperava muito que sim.