Capítulo 9

2805 Palavras
Daphne não esperava que dois homens pudessem ser tão teimosos. Mas, a quem ela queria enganar? Seus irmãos eram igualmente teimosos e ciumentos. E se ela não tivesse dado um basta há tanto tempo, sobre as atitudes possessivas deles quanto a segurança dela, ou com quem cavalheiro ela poderia conversar, Daphne estaria sufocada até o momento atual. E no momento, ela estava tentando desfrutar de um passeio a cavalo. Infelizmente, um passeio a cavalo não era algo agradável, não em Londres. Ela teria que usar sua sela feminina, a qual teria que montar de lado. Uma amazona deveria montar daquela maneira, devido ao uso do vestido. Ela usava um traje adequado, é claro, para equitação. Um vestido verde água e um chapéu no mesmo tom, com penas na lateral, em um tom verde escuro. Estava perfeita para uma cavalgada a tarde, no Hyde Park. Na propriedade em que sua família tinha em Somerset, a qual eles sempre passavam férias fora da temporada de casamentos, Daphne não fazia questão de manter o decoro e aparência. Ela montava como um cavalheiro, usando sela masculina. Ao seu lado, os dois cavalheiros, Erik e Antony estavam a acompanhando, tentando disputar sua atenção. Atrás deles, a dama de companhia dela, a senhorita Cooper, acompanhava em um sua égua. Para manter o decoro e as aparências, é claro. Mas, não era como se Daphne saísse sempre com sua dama de companhia. Ela não gostava nem um pouco de ser vigiada e acompanhada. - Senhorita Daphne – Antony tomou a palavra, depois que eles atravessaram os portões do parque e permaneceram no trecho onde passavam cavalos e carruagens – Gostaria de saber gostaria de ir à ópera essa noite. Comprei ingressos e vou usar o camarote da minha prima lady Klyne. Há espaço para a senhorita e seus irmãos. Daphne estava prestes a responder que não iria, pois deveria viajar na manhã seguinte, mas pensou melhor. Por que não ir à ópera? Seria divertido ter a companhia de Antony. Eles, sempre que iam à ópera, observavam os nobres que ali estavam, em seus camarotes, por trás dos binóculos. E eram observados de volta, medidos com tanto desdém, principalmente Antony, que não era um nobre, com sua prima. Ele era um burguês, rico, sem qualquer titulo. Um homem que trabalhava. Apesar de no momento atual ser comum o trabalho dentro da nobreza, ainda havia famílias que não desejam se misturar as classes trabalhadoras. Contudo, não era mais possível viver da terra e da agricultura. Era comum que famílias nobres que estavam empobrecidas por não terem ações em empresas e que viviam apenas do arrendamento de terras casassem suas filhas com homens que não possuíam títulos. Principalmente cavalheiros que enriqueceram nos Estados Unidos e que procuravam um título nobiliário, para ter mais prestigio e pompa. Contudo, algumas famílias nobres se renderam ao progresso e procuravam enriquecer por meio do trabalho e não pelo casamento. Por esse motivo, ir a ópera era tão interessante para Daphne. Ela via os olhares dos seus pares. Eram cheios de julgamentos para com ela, que se atrevia a se envolver com um simples burguês, que não possuía qualquer titulo. Há quem acusava Antony Morgenstein de ser um alpinista e que somente se relacionava com a família Harris para obter um título. Assim como acusaram cruelmente sua prima Henrietta no ano em que ela se casou com lorde Klyne. Não que ela não fosse parente distante de um marquês, mas seu pai, tio de Antony, era um burguês, editor e que trabalhava para ter seu sustento. E isso era visto com maus olhos. Como Daphne gostava de causar certo alvoroço, principalmente com suas ideias progressistas e sufragistas, ela apreciava a companhia de Antony, por ele não ser um nobre, principalmente, por não ser um dândi. Normalmente eram esses cavalheiros afetados que a procuravam nos bailes e insistiam em ter sua atenção. Contudo, Antony se mostrava o oposto desses cavalheiros. Ele não tinha medo de sujar suas mãos com trabalho honesto, além de ter conversar interessantes e nunca zombar das opiniões dela. Ele era sempre agradável e gentil. Seria um excelente marido, por não tentar sufoca-la, além do fato de não a colocar em uma posição subalterna. O que era comum entre os pares dela, devido ao fato de que uma dama deveria ser sempre recatada, sem opiniões, prendada e saber dirigir uma casa com excelência, servindo jantares em nome da família. - Sim, é claro que devemos ir, senhor – ela concordou com o pedido de Antony, quanto a ir a ópera – Devemos com certeza nos apressar em nosso passeio, para que eu possa me arrumar para esse evento. - Com toda certeza – ele disse exultante com a aceitação dela. Erik mordiscou os lábios, tenso. Não era o que estava esperando ouvir dela. Talvez, esperasse que ela lhe estendesse o convite para assistir a ópera. Era somente pelo fato de que aquele evento poderia ajuda-lo a recuperar sua memória. Não estava relacionando sua frustração em não ser convidado com outro sentimento. Com certeza, não estava. Daphne olhou para Erik ao seu lado e sorriu, enquanto trotava com sua égua. - Acredito o senhor Erik poderia ir junto, senhor Morgenstein – ela disse, olhando para seu amigo e depois para Erik – Aceitaria ir conosco? - Gostaria muito – Erik disse, com certa veemência – Afinal, isso pode me ajudar a recuperar minha memória. - Presumo que possa sim – ela disse sorridente – Mas, também seria agradável ter sua companhia. Antony pigarreou ao ouvir aquilo. Não estava esperando que Daphne flertasse tão descaradamente com Erik. E não sabia que sentiria certo ciúme da jovem. - Com certeza será uma noite agradável, para todos nós – ele tomou a palavra novamente, tentando desviar a atenção de Daphne. Sentiu o olhar severo de Erik sobre ele, mas isso não o desencorajou. Afinal, quem aquele mascarado pensava que era? Ele não conhecia Daphne há pouco tempo e não tinha o direito de olha-lo daquela maneira tão severa. Com certeza, ele devia estar enciumado. - É claro - Daphne disse, parecendo um pouco constrangida e com as bochechas afogueadas. Ela realmente havia dito o que disse? Realmente dissera que seria agradável ter a companhia de Erik? Estava se atirando nos braços dele, sem ao menos perceber. Era uma tola. Nunca fizera tal coisa em toda sua vida. Contudo, apesar da sua atitude, Erik parecia não ter ouvido sua frase tão embaraçosa. No momento, ele estava focando mais sua atenção na estrada a sua frente e percebendo que era observado com espanto pelas pessoas que por ali passavam. Inclusive por cavalheiros montados a cavalos. A quem olhava para ele e parecia reconhece-lo. Mas, não paravam para cumprimenta-lo. Então, ele não havia percebido que Daphne havia flertado com ele. No final, o passeio a cavalo terminou de forma rápida, pois Daphne queria ir para casa logo e se preparar para ópera. Antony se despediu, deixando o cavalo com um lacaio e ajudou Daphne a descer da égua dela e beijou sua mão enluvada demoradamente, prometendo vir busca-la as sete da noite. Daphne observou nos olhos de Antony uma chama, como se ele estivesse tentando a envolver. Começou a temer que ele estivesse realmente interessado nela. Nunca havia percebido aquele olhar antes, ou não estava prestando tanta atenção ao amigo, de fato. Ela estava sempre distraída, mas naquela manhã, notou que havia algo de diferente em Antony. E não estava apreciando perceber essa mudança. Quando pode se afastar dele e seguir para a entrada da mansão, deixando as éguas e os cavalos no estábulo, somente desejava manter distância de Antony o máximo possível. Talvez, Charles tivesse toda razão quanto a Antony estar interessado nela. Isso não era nada bom. Ser um bom pretende não queria dizer que ela o desejava. - Senhorita - a senhorita Cooper chamou, atrás dela, enquanto subiam a escada - A senhorita quer ajuda para se trocar, para essa noite? - Sim, gostaria de um banho - ela respondeu, sem se virar para a dama de companhia - Mas, pedirei a Betsy. Senhorita Cooper, está dispensada por essa tarde. A noite precisarei da sua companhia. A senhorita Cooper franziu o cenho. Ela não precisaria estar junto a jovem dama, pelo fato de que ela estaria em família, para ver a ópera. No caso, não haveria problema a dama de companhia estar junto dela, naquela noite. - Tem certeza, senhorita? - ela perguntou, mesmo sabendo que não era o certo questionar seus superiores. Como Daphne não era grosseira, nem altiva em seu relacionamento com os empregados, ela respondeu, enquanto abria a porta. - Sim, é claro que tenho certeza. A senhorita poderá se vestir com elegância essa noite e ver a ópera. Será maravilhoso. A senhorita Cooper questionou a sanidade de Daphne. Ela estaria bem para estender aquele convite? Normalmente, ela fugia da presença da dama de companhia e detestava ser seguida. Mas, aquela noite, parecia ser importante de a companhia da mesma. - Então, tudo bem senhorita. Irei deixa-la agora, se não precisar de mais nada - ela disse, ainda atônita pelo convite de Daphne. - Pode se retirar, senhorita Cooper, obrigada - Daphne disse, com um sorriso. - Tudo bem, senhorita. Irei chamar Betsy para preparar seu banho. A dama de companhia fez uma reverência e fechou a porta atrás de si. Daphne suspirou e deitou na cama de dossel de madeira, com cortinas lilases. Estava cansada e exausta. Ao mesmo tempo, receosa daquela noite. Seria possível que Antony tivesse mesmo sentimentos por ela? Ela não gostaria de comprova-los, muito menos magoa-lo com sua recusa em não retribuir os mesmos sentimentos. Apesar disso, ela sempre dissera a Antony que não se casaria. E não se casaria pelo fato de temer o mesmo casamento que seus pais tiveram. Inclusive, temia amar um homem e ver seu coração ser despedaçado. * Jonathan não desejava sair aquela noite, mas com a insistência de sua irmã e de Charles, para quem fossem se divertir na ópera, antes de sair de viagem para Paris, o fez aceitar os arranjos de última hora. De fato, ele desejava ficar recluso dentro de sua própria casa, a ter que enfrentar a sociedade aquela noite. Mas, ele não tinha muita escolha. Afinal, era um conde. E deveria marcar presença em eventos sociais, não somente do parlamento. Mesmo que quisesse fugir de sua amante, enquanto estivesse em Londres, não poderia. Mas, ao menos, iria para Paris no dia seguinte e ficaria longe dela. Infelizmente, ela não esqueceu dele e lhe enviou um bilhete aquela tarde, informando que estaria na ópera, sem o marido e que gostaria de vê-lo. Jonathan se sentiu enjoado por um momento. Não deveria recusar o convite, para não causar mais comoções. * Erik, em seu aposento, alheio aos problemas ao seu redor, decidia com Richard, o valete de lorde Derby, que roupa deveria usar aquela noite. Decidiu por um colete cinza, uma camisa branca, gravata azul metálica, calças sociais pretas, um casaco de veludo preto e um sobretudo, para o final da noite. Além disso, foi lhe emprestado um relógio de bolso, de ouro. Era uma cortesia de lorde Derby. Enquanto Richard ajudava Erik, ajeitando a gravata, a porta se abriu. Lorde Derby usava uma roupa similar a de Erik, contudo, usava uma gravata borboleta branca e seu colete era bordo. E usava uma cartola preta sobre a cabeça. Carregava uma similar em sua mão direita e tinha um sorriso. Erik não sabia se seu sorriso era verdadeiro ou não, pois os olhos azuis de lorde Derby, que normalmente eram cativantes e charmosos, estavam nublados e ao redor dos olhos poderia se ver as olheiras. Devia ter tido uma noite de sono r**m, apenas, Erik pensou consigo mesmo. - Vejo que minhas roupas caíram como uma luva para você, Erik - o conde se dirigiu com i********e a Erik. Contudo, Erik não conseguia se dirigir daquela maneira a lorde Derby. Era grato por tudo que o conde fizera por ele e sempre o trataria com deferência. Ele fez um reverência, seguido por Richard. Lorde Derby comprimiu os lábios. Não parecia agradado de sua forma de tratá-lo. O que deixou Erik confuso. - Eu agradeço milorde por me tratar com tanta amabilidade - Erik disse, sincero, voltando a mirar os olhos do conde. - Com certeza, está grato. Mas, eu ficaria mais agradado que não me tratasse dessa maneira tão polida. O considero um amigo e gostaria que me chamasse de Jonathan - ele pediu. E adentrou no recinto, estendendo a cartola a Erik - Por favor, use a cartola essa noite. É um presente meu. Erik assentiu, mesmo desejando recusar mais um presente de Jonathan. Pegou a cartola e colocou sobre a cabeça. Com a mascara branca e a cartola, ele parecia um cavalheiro excêntrico. Chamaria muito a atenção, mas não havia nada que poderia ser feito. Ele preferia ser visto como um cavalheiro que gostava de se exibir, do que os outros vissem as marcas de queimadura no seu rosto. - Eu agradeço milor...quero dizer, Jonathan. Lorde Derby sorriu e observou Erik atentamente. - É muito refinado, Erik. Estou muito curioso para saber sua origem. E gostaria muito de saber o motivo para estar preso daquele circo de ciganos - lorde Derby disse, com os braços cruzados para trás em uma atitude séria - Acredito que tenha aborrecido alguém, para ter seu rosto desfigurado e ter sido tratado como um animal. Erik realmente não sabia o que poderia ter acontecido consigo. Poderia mesmo ter irritado alguém com posses? Um nobre que tentou se vingar dele? Seria possível? - Eu não consigo me lembrar o que eu possa ter feito - ele disse, sincero. Richard pediu licença para se retirar. Tendo a autorização do conde, ele saiu dos aposentos, fechando a porta atrás de si, deixando os cavalheiros sozinhos. - Com essa noite, espero que possa se lembrar. E gostaria muito de encontrar sua família - lorde Derby disse, parecendo sincero - E espero ajuda-lo a encontrar quem foi o bastardo que mandou você ser torturado. - Por que se preocupa tanto comigo, milor...quero dizer, Jonathan? Não deve nada a mim e sou um fardo - Erik estava surpreso por ter conseguido a amizade daquele homem. Por um momento, ele acreditou que lorde Derby havia ruborizado. Seus sentidos estavam o enganando? Pelo cômodo estar iluminado por lâmpada a gás, devido ao escuro que já fazia do lado de fora, ele não poderia ver com tanta clareza o homem a sua frente. - Preocupo-me com você como um amigo - lorde Derby respondeu, com a voz tremula - E por tê-lo atropelado com minha carruagem, sua vida é minha responsabilidade. - Eu agradeço por isso, mas sabe que já me pagou pelo acidente, deixando-me ficar em sua residência. Mas, sinto que estou o explorando por ficar mais tempo aqui. Erik não teria para onde ir, apesar disso, estava se sentindo desconfortável por estar vivendo as custas de lorde Derby. Contudo, o conde não parecia meramente incomodado com esse fato. - Já lhe disse que não me incomodo com isso - lorde Derby reforçou - Eu o ajudarei até que encontre sua família. Não tem que se preocupar com isso. - Eu me preocupo muito, milorde - o conde estreitou os olhos - Quero dizer, Jonathan. Isso é realmente embaraçoso. Sinto que deveria estar seguindo o rumo da minha vida com minhas próprias forças. E assim que descobrir minhas origens, espero paga-lo por tudo que fez por mim. - Assim você me ofende - lorde Derby disse, com a voz ríspida. - Peço seu perdão, mas por que eu estaria o ofendendo? - Erik perguntou, podendo sentir a tensão que o conde emanava. - Pois apenas fiz isso pela amizade. E somente desejo a sua amizade, Erik - lorde Derby enfatizou - Jamais pedi-lhe algo em troco. E não desejo isso. - Oh - Erik estava ainda surpreso. Era óbvio que lorde Derby demonstrou isso desde o principio, mas Erik acreditou que seria somente sua forma polida de ser e de não demonstrar que desejava alguma coisa em troca - Bom, eu não sei o que dizer. Apenas que peço seu perdão. Não gostaria de tê-lo ofendido. Lorde Derby respirou fundo. - Acredito que não tenha feito isso deliberadamente, Erik - ele disse - Mas, espero que saiba que tem minha eterna amizade e espero isso em troca. - Com certeza serei eternamente grato e serei seu amigo mais leal - Erik prometeu, sem qualquer traço de ironia. Eles decidiram encerrar o assunto e se encaminhar a sala de estar, para esperar o horário em que Antony viria a mansão. Erik sentiu que algo estava diferente com o conde, enquanto se encaminhavam para lá. Havia algo muito errado seu anfitrião. E ele estaria disposto a descobrir.
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