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579 Palavras
Abandonada pelo o destino ,ela ficou ali, no quarto do hospital, com o som dos aparelhos e o choro silencioso preso na garganta. O berço ao lado parecia pequeno demais para toda a dor que ela estava sentindo. A bebê dormia tranquila, alheia a tudo. Era linda. Pequena. Frágil. E completamente inocente de tudo o que tinha acabado de acontecer. Vitória passou a mão no rosto, tentando respirar direito. Douglas tinha ido embora como se nada tivesse acontecido. Como se ela e a filha não significassem nada. Ela olhou para o celular, a mão tremendo. — Eu não posso ficar assim… eu não posso… Num impulso desesperado, abriu um site de relacionamentos, aqueles que ela sempre tinha visto falar, mas nunca imaginou usar. Os dedos hesitaram por alguns segundos. Depois ela digitou. Criou um perfil. Colocou fotos antigas, de quando ainda sorria sem medo, sem saber o que era ser descartada daquele jeito. Enquanto isso, seus olhos iam da tela para o berço. — Me perdoa… — ela sussurrou para a bebê. — Mamãe não sabe mais o que fazer… O coração dela parecia dividido entre a vergonha, o medo e a vontade de sobreviver. Assim que terminou o cadastro, ela largou o celular na cama e ficou olhando para o teto, sentindo um vazio enorme. O silêncio foi quebrado pelo barulho de notificação. Uma mensagem. Depois outra. Vitória congelou. Ela não sabia ainda, mas aquela decisão tomada no desespero ia mudar tudo outra vez — e não necessariamente para o caminho que ela imaginava. Dois dias depois, Vitória recebeu alta. Ela saiu do hospital em silêncio, segurando a bebê com cuidado no colo, como se qualquer passo em falso pudesse quebrar o pouco que ainda restava da sua vida. Douglas não apareceu. Nenhuma mensagem. Nenhuma ligação. Só o vazio. Um carro por aplicativo a levou até um hotel simples, mas limpo. Não era luxo, mas naquele momento era abrigo. Quando entrou no quarto, fechou a porta e finalmente respirou como se estivesse fora de uma prisão. Colocou a bebê no berço improvisado que o hotel conseguiu providenciar e ficou alguns segundos só olhando. A menina mexeu a mãozinha dormindo. Vitória sentou na beira da cama. Ela já não parecia mais aquela mulher destruída do hospital. A barriga, que antes chamava atenção, agora estava quase normal de novo, ainda com leve inchaço da gestação recente, mas nada comparado aos últimos meses. Morena, pele suave, cachos ruivos caindo pelos ombros, olhos cor de mel cansados… e ao mesmo tempo vivos de um jeito estranho. Uma beleza forte, marcante, daquelas que não passavam despercebidas mesmo no pior momento. Ela passou a mão no rosto e pegou o celular. A mensagem ainda estava lá: “Eu quero você. Vamos assinar o contrato.” Vitória engoliu seco. Respirou fundo e respondeu, com os dedos tremendo: — Senhor, precisamos conversar pessoalmente em uma semana. Te mando o endereço. Você vem até mim. Ela hesitou antes de enviar… mas apertou “enviar”. Naquele instante, ela percebeu uma coisa: ela não sabia quem era aquele homem. Não sabia a idade, não sabia o rosto, não sabia as intenções. Só sabia de uma coisa: alguém tinha “comprado” a atenção dela sem nem conhecê-la. E isso deveria assustar. Mas, naquele momento, o que mais assustava Vitória era não ter mais nada. Ela olhou para a filha no berço. — Eu vou te proteger… nem que eu tenha que ir até o inferno por isso.
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