DIMITRI NARRANDO
Cheguei em casa, tomei um belo banho e tentei dormir. Foi complicado dormir aquela noite, ainda mais com a visão dos olhos assustados de Elena em minha mente. Ela parece ser tão doce... Por que todos a odeiam tanto? De verdade, eu tenho raiva dela, mas depois do que eu fiz com ela, fiquei triste comigo. Tenho agido como um verdadeiro babaca... Tenho agido como minha mãe, do jeitinho que ela gosta.
Na manhã seguinte, como estou tecnicamente em lua de mel, eu não preciso ir para o trabalho na empresa da família. Todo o meu tempo que sobra eu uso para trabalhar na minha própria empresa. A verdade é que eu sou um doido workaholic, sempre fui maníaco por trabalho, mas uso essa minha imagem de garanhão pegador para me esconder. Não quero que meus pais saibam que não pretendo ser apenas o herdeiro do império deles... Quero construir o meu império, com minhas próprias forças. A mídia cai bastante no meu papel, ainda mais por causa do meu sucesso com as mulheres... Vez ou outra sou fotografado com uma, e já inventam uma história de que ela é uma amante. Ao menos, era o que acontecia até eu conhecer Elle. E agora... Eu preciso andar na linha, porque pra mídia, eu estou casado com Elena.
Elena, de novo, surgiu em minha mente. O corpo pequeno, os braços ao redor de si mesma e o cabelo castanho caído em frente ao rosto. Ela parecia tão frágil e delicada... E os bilhetes, os malditos bilhetes espalhados por todo o apartamento.
Respirei fundo e me troquei. Eu precisava ir para a minha empresa e usar todo o meu tempo para resolver questões que não posso resolver pelo telefone.
— Dimitri, você por aqui? — Um dos meus subordinados disse e eu sorri. — Não está em lua de mel?
— Estou, mas tenho coisas pra resolver. Trabalho em primeiro lugar, você sabe. A noite me entendo com minha esposa. — Eu falei e fui para o meu escritório.
Chamei meu empregado de confiança, e o fiz sentar à mesa comigo.
— Como estão as coisas? — Perguntei. Ele deu os ombros.
— O investidor ainda não apareceu. Olha, chefe, eu sei que o senhor deseja entregar o dinheiro para o investidor misterioso, mas já fazem três anos. Não seria melhor você esquecer isso? Ele deve ter morrido ou coisa do tipo. — Falou.
— Eu sei disso, mas penso que seria muita desonestidade ficar com um lucro desse tamanho, se a empresa não é só minha. Cara, você não tem nenhuma pista de quem é o XX? Alguma desconfiança? Nada? — Perguntei.
Acontece que, três anos atrás, quando fundei minha empresa, um investidor anônimo me cedeu uma bela quantia de dinheiro. Eu até desconfiei das pessoas da minha família, mas depois de uma pesquisa minuciosa, descobri que eles sequer sabiam da existência da minha empresa. Por isso, não poderia ser nenhum deles. Agora, o que me resta é procurar por XX e esperar que ele atenda minhas ligações um dia.
— E quanto ao casamento, Dimitri? — Meu subordinado perguntou. — Como estão as coisas?
— Promete que vai ouvir sem me julgar? — Eu falei e ele deu os ombros.
— É claro, chefe. O que o senhor manda?
— Eu preciso desabafar com alguém e como você é meu empregado de confiança, não existe pessoa no mundo que eu confie mais do que você. Olha, esse casamento... — Eu olhei para baixo e respirei fundo. — Bom, ele só aconteceu porque a mulher com quem eu ia me casar de verdade, fugiu por estar morrendo de raiva de mim. O dia da festa onde eu a pedi em casamento... Bom, foi aí onde toda a confusão começou. Uma amiga dela apareceu com o vestido que ela deveria usar no dia, como era um baile de máscaras e elas tem mais ou menos o mesmo corpo, o mesmo tipo de cabelo... Eu achei que fosse minha noiva e a pedi em casamento na frente de todos. Mas aí, o que aconteceu foi que minha noiva de verdade ficou com ódio de mim e não quis mais me ouvir... Fugiu e nunca mais me atendeu. — Meu empregado estava de olhos arregalados.
— Meu Deus! E aí? Isso parece uma novela, Dimitri. — Ele disse e eu ri.
— Pois é. Bom, pra evitar maiores constrangimentos, a amiga da minha noiva aceitou o pedido naquele dia, é claro. As pessoas não perceberam a mudança, eu sequer tinha apresentado minha noiva a alguém, você sabe como sou sigiloso com minha vida amorosa. As pessoas inventaram muitas coisas sobre mim e eu não gosto de aparecer nos jornais mais. — Comentei e ele concordou. — Enfim, o que aconteceu, no final das contas, foi que eu esperei minha noiva verdadeira voltar até alguns dias antes do casamento... Mas ela não voltou. Então, ofereci um contrato de casamento para a amiga dela, onde permaneceríamos casados por trinta dias.
— É, então não é bem um casamento. É um casamento de fachada. — Eu concordei com o que ele disse, acenando a cabeça.
— Exatamente. Eu queria me divorciar logo, porque... Minha noiva verdadeira voltou. Só que todos estão falando na minha cabeça que eu não devia fazer isso, principalmente meu avô. Ele não aceita divórcios na família, entende? E eu tenho medo de sofrer represálias da parte da minha família quando descobrirem do casamento falso. — Falei e meu empregado bufou.
— Isso é péssimo. — Ele disse.
— Piora pelo fato de eu gostar da minha noiva verdadeira, não da minha “esposa”, entende?
— Olha, só o fato de você ter se casado com uma mulher que não era quem você queria, já torna tudo muito ridículo. Foi uma saída momentânea, mas você arrumou mais problemas pra você. De qualquer forma, bom... Estamos começando a lançar propagandas na mídia pela primeira vez da nossa empresa, nossa última campanha de marketing foi um sucesso. Não seria bom para a imagem da empresa que você se separasse agora, principalmente com o contrato que fechamos. Em três meses temos o maior lançamento de campanha de marketing que essa empresa já viu, então, a melhor coisa a se fazer, é manter isso em segredo e continuar casado. — Eu olhei para baixo, meio que contrariado.
— Vou ter que ficar com a mulher que não gosto por mais tempo do que o previsto? — Perguntei e ele concordou.
— É o melhor para a empresa. As pessoas te vêem na mídia como um playboy mulherengo, se te verem no comando de uma empresa, sem estar casado, vão pensar que você não é um cara que leva as coisas a sério. Afinal, você não levava as mulheres a sério até um tempo atrás, certo? — Ele disse e eu concordei com a cabeça. — Pense nisso. E também, uma hora ou outra seus familiares irão descobrir dos seus negócios, acredito que antes do lançamento da campanha. É melhor que eles não tenham como surtar com você quando essa campanha começar ou tudo vai desmoronar.
Massageei minhas têmporas. Passar mais tempo com a Elena me deixa desconfortável, então, coloquei um alarme no meu celular que cronometrava o tempo que eu teria que permanecer casado com Elena, que seria o tempo do lançamento da campanha e um pouco depois, até que ela terminasse.
— Detesto essa mulher. — Falei, rosnando para o telefone.
— Por que você a odeia, Dimitri? — Perguntou.
— Ela armou a confusão do vestido e fez a mulher que eu amo fugir. Tenho certeza que ela fez isso porque queria se casar comigo e pegar uma parte da minha herança. Você sabe que meu pai tem quase meio bilhão só em imóveis, não sabe? — Eu repeti o que minha mente sempre dizia ao falar sobre meu ódio por Elena, mas dessa vez, eu não sabia se realmente a odiava.
Eu estava magoado, obviamente, mas confuso em relação a tudo. Tinha minhas dúvidas se Elena armou aquilo sozinha ou se ela queria realmente meu dinheiro, afinal, Elena não é alguém extravagante... E tinha minhas desconfianças sobre outras pessoas. Meus julgamentos sobre a moça de olhos cor de amêndoas foram baseados no que ouvi da minha mãe e de Elle. Fica complicado julgar alguém assim.
Depois da conversa que tive com meu empregado, peguei meu telefone e liguei para Elena. Precisava falar com ela sobre estender o nosso contrato de casamento, então, liguei para ela.
— Oi, Dimitri. — Ela atendeu. Ao menos salvou meu número na lista de contatos como pedi.
— Oi, Elena. Preciso te encontrar. Posso te levar para almoçar? — Perguntei. Ela respirou fundo do outro lado da linha.
— P-pode, é claro. — Respondeu.
— Te pego na sua casa em meia hora. — Falei. — Vou te levar em um restaurante famoso, então, esteja arrumada. Quero comer costela suína e no Malvo’s sempre tem a melhor. — Falei.
— T-tudo bem, pode deixar. — Falou.
A garota está falando engraçado. Talvez tenha ficado surpresa com o meu convite. Eu preciso trata-la bem para conseguir o que quero, que é estender meu contrato com ela.
Quando cheguei em seu apartamento, Elena desceu com um vestido de ombro a ombro vermelho, colado, dois dedos acima do joelho. Estava de salto e seu cabelo ondulado até a metade da cintura emoldurava seu rosto de forma perfeita. Ela entrou no carro e sorriu.
— Oi. — Ela disse.
— Bom, vamos lá. — Eu disse.
Elena conseguiu ficar tão linda que não pude deixar de olhá-la. Tudo bem ela sempre foi linda, sempre achei isso, mas essa minha confusão em relação a tudo tem me feito enxerga-la de outra forma. Eu não sei se isso é bom pra mim.
Chegamos ao restaurante e vi os casais na fila de mãos dadas. Elena estava visivelmente constrangida, então, eu peguei a mão dela e entrelacei nossos dedos. Ela olhou para mim e sorriu de leve.
Entramos no restaurante e sentamos juntos em uma mesa para dois. Ela pediu para tirarmos uma foto, para que ela enviasse ao avô, e eu concordei. Até sorri para a foto. Então, depois de fazer o pedido da comida, comecei a falar sobre o que realmente importava.
— Bom, eu acredito que você não tenha me convidado pra almoçar porque gosta da minha companhia. — Ela disse, me olhando nos olhos. A doçura dela me constrange. Mesmo falando uma frase assim, ela fez parecer leve. Que droga.
— Bom... Eu queria estender o contrato. Preciso de três ou quatro meses, pois estou envolvido com negócios onde minha imagem é importante e estar casado me ajudaria a não ser visto como um playboy irresponsável. — Eu falei. — Você aceita?
— Olha, Dimitri... Eu vou ser bem sincera com você. — Ela olhou pra baixo e respirou de forma profunda. — Eu nunca fui tão humilhada em toda minha vida como fui nos últimos dias. — Ela voltou a olhar pra mim, com os olhos marejados. — Eu não sei se aguento passar por isso.
O olhar dela, o maldito olhar dela partiu meu coração ao meio.
— Me desculpa pela forma como te tratei. Eu estou com raiva de tudo que aconteceu ainda. Vou tentar ser menos grosseiro. — Ela fechou os olhos.
— Então tudo bem. Eu aceito, contanto que você cumpra sua parte no acordo. Precisamos parecer um casal feliz para o meu avô, tá? — Falou.
— Certo.
Almoçamos e conversamos apenas sobre o sabor da comida. Eu passei um tempo olhando as mãos delicadas dela, e a forma como uma pequena covinha se formava em sua bochecha quando sorria. Quando terminamos e já estávamos no estacionamento, ela disse:
— Ah, posso te perguntar uma coisa sobre seu irmão?
— O que você quer saber? — Perguntei e entramos no carro.
— Quero saber o que houve três anos atrás, ele se envolveu em uma situação... — Eu a interrompi.
— Oi? Você quer informações sobre o passado do meu irmão? Por que, já está interessada nele? Ou quer arrumar um jeito de conquistar ele? — Ela arregalou os olhos, assustada. Droga.
— Não! Por favor, não pense uma coisa assim de mim, eu não sou esse tipo de pessoa... — Ela disse.
— É meio estranho você armar uma cena pra ser pedida em casamento por mim, e depois, querer informações sobre meu irmão. Talvez você esteja interessada na herança... — Eu falei, na esperança que ela negasse. Queria saber o que ela pensava sobre isso e suas reações sobre esse fato. Ela arregalou os olhos de um jeito que nunca vi antes. — Se essa for sua intenção, desista, o meu irmão jamais ficaria com você.