Começando do zero

1658 Palavras
Eduarda Quando acordo, as luzes do meu quarto estão apagadas, apenas uma lâmpada perto da mesa onde minhas rosas ainda estão lá ilumina o lugar. Perderam um pouco do encanto, mas ainda resistirão por mais um dia. Respiro pesarosamente e olho para a porta. Ela não está fechada, vejo uma pequena flecha de luz que vem do corredor. Uma garrafa está em cima da mesa, junto com um copo vazio. Está próximo o bastante para que eu consiga alcançar, mas não tento pegar com medo de me atrapalhar e acabar derrubando tudo no chão. Desvio o olhar e fixo nas minhas pernas cobertas. Tento senti-las, mas acho que elas não ouvem o meu pedido. Nesse momento a porta se abre e uma enfermeira entra no quarto. Ela acende a luz e me oferece um sorriso quando me vê observando-a. — Olá Eduarda, desculpe se atrapalho seu descanso, vim apenas verificar como você estava. Ela é morena, cabelos negros presos em um coque alto e olhos castanhos. Está usando uma maquiagem tão leve, quase não percebo até ela se aproximar da minha cama. — Onde está todo mundo? — Todos estiveram aqui à tarde inteira. Saíram há poucos minutos. Seus irmãos são lindos – ela riu. Sorrio também por que sei que meus irmãos são de parar o trânsito e conseguem encantar até mesma as amigas da rede de amizade da nossa mãe. — Ainda os verei hoje? — Hoje não, mas não fique triste, amanhã todos virão lhe ver, ao não ser que você esteja indisposta... — Não! – quase grito – Eu vou querer vê-los. — Ótimo. Vou avisar ao doutor Matias que você acordou. — Ele ainda está aqui? — Está de plantão. Pela manhã alguém virá substituí-lo. Aguarde um minuto. Não contei o tempo, mas Matias não demorou a entrar no quarto. Sua aparência estava diferente de quando nos encontramos antes. Parecia cansado. — Eduarda, como se sente? — Confusa, perdida... Qual delas você prefere? — É normal. Joana, estão precisando de você no quarto 115. A enfermeira nem questiona seu pedido. Os dois trocam olhares cúmplices e depois ela segue para a porta. — Volto pela manhã para lhe dar banho Eduarda. Oi? Me dar banho, como assim? Abro a boca para perguntar, mas ela já sumiu no corredor. — Muitas perguntas devem estar passando por sua cabeça, mas não se preocupe, vou responder todas. Ele puxa uma cadeira e senta próximo a minha cama. — Me desculpe por mais cedo, foi muita informação de uma só vez. Meu acidente, o coma, as minhas pernas... — É normal sentir isso. Não estou com você desde o início, mas acredite quando digo que tudo vai se resolver. Durante esse tempo em que ficou em coma, uma equipe foi mobilizada para cuidar de você. Todos os dias, alguém vinha fazer fisioterapia para que seus membros não atrofiassem. — Como consegui ficar tanto tempo assim? — É tudo muito complexo, não temos a resposta... A mente é um órgão muito complicado. — A minha então deve ter sido a pior de todas. Ele rir. — Posso fazer uma pergunta? — Quantas você quiser. — As minhas pernas... Eu não as sinto... Nunca mais vou voltar a andar, não é? — Quando fizemos os exames, não encontramos nenhum problema. O que pode está impedindo o movimento foi o longo período em que ficou dormindo. Temos excelentes profissionais na área de fisioterapia... — Então vou poder a andar novamente? – perguntei apreensiva. — Vamos trabalhar para isso. Ele não deu a resposta que eu esperava, mas por enquanto isso bastava. — Preciso voltar para a outra ala. Vejo você pela manhã antes de sair do meu turno. Descanse Eduarda. — Acho que já descansei demais, não acha? – eu ri. — Concordo. Vou ligar a TV, com certeza deve algo interessante para assistir – disse seguindo até onde estava a tela. ***** Nos primeiros raios da manhã acordei sentindo-me menos estranha com meu corpo. Uma enfermeira um pouco mais velha do que minha mãe trouxe o meu café. Ela me ajudou com todo o processo e teve uma paciência de monge comigo. Uma hora mais tarde, fui levada para fazer novos exames e uma ressonância magnética para ver como estava o meu cérebro. Ficamos cerca de duas horas repetindo os exames. Voltei para o quarto perto do almoço. Fui servida de uma sopa, pelo menos parecia isso. A mesma enfermeira veio me ajudar. Perto do horário de visita, Joana veio me ajudar com o banho. Ela retirou o cateter, para o meu alívio, quando foi informada que eu não precisaria mais dele. — Vou pegar uma cadeira de roda para ajudá-la a chegar ao banheiro – disse gentilmente saindo do quarto e voltando em seguida. Ela me ajudou a me sentar na cama e depois a me sentar na cadeira. Tive um pouco de dificuldade, mas Joana pareceu nem se incomodar. Acho que ela faz isso constantemente. Seu porte é bem maior do que o meu, não chega a ser gorda, tem um rosto angelical, quase como se fosse porcelana. Joana empurrou a cadeira até o banheiro do meu quarto e depois me transferiu para outra cadeira perto do chuveiro. — Vamos nos livrar dessa camisola? – perguntou. — Acho que consigo fazer isso sozinha... – comecei a falar. Joana sorriu. — Você não precisa ter vergonha, faço isso o tempo todo. Já vi muitas mulheres nuas. — Eu sei, é que... – falei olhando para minha perna observando minha cicatriz. — Não precisa ter vergonha dela. Quando você estiver bem, poderá fazer uma cirurgia e essa cicatriz não passará de uma lembrança. — Não é bem a cicatriz que está me incomodando... — Entendi o que quer dizer. Vou ajudá-la apenas com a camisola e deixarei você sozinha. Quando terminar é só me chamar, estarei esperando do lado do lado de fora. Depois do banho, Joana me ajudou a voltar para o quarto e a me deitar na cama. Estava terminando de ajeitar o lençol quando Kadu entrou no quarto acompanhado de Nick e nossa mãe. Nick também estava mudado, havia perdido aquele jeito de moleque travesso. Estava mais forte, cabelos curtos, um pouco mais escuros e um vestígio de barba completava seu visual. Seus olhos tinham um brilho diferente, quase como se tivessem olhando para um cometa passando pela terra. Minha mãe continuava a mesma, a mulher com porte forte e fino, sempre maquiada e bem vestida. Mas algo nela havia mudado. Olhei para os três e depois olhei para a porta, esperando alguém, meu pai. Senti meu coração dar alguns saltos só em pensar em ter que encará-lo. — Filha, estou tão feliz em ver seus lindos olhos... Minha mãe falou e roubou meu olhar. — Oi mãe... Oi Nick... – falei tentando controlar o medo que começava a tomar conta de mim. Os três se aproximaram cautelosos da minha cama. — Podem se aproximar, não vou morder – tentei disfarçar meu nervosismo. Um por um me abraçou e foi como se uma montanha de emoções tivesse sido liberado. Comecei a chorar enquanto sentia o calor da minha família. — Calma minha criança, estamos aqui desde o início... Tínhamos certeza que um dia a minha bela adormecida iria acordar – disse minha mãe tocando minha face. — Me desculpem... Eu sinto muito pelo o que fiz... — Não vamos mais falar do passado. O presente é o que importa – disse Nick. Compartilhamos o mesmo sorriso. Conversamos um pouco sobre os últimos anos em que estive dormindo, mas em nenhum momento o nome do meu pai foi tocado, achei estranho, mas não perguntei nada. Iria esperar o momento certo para fazer a pergunta. — Tem duas pessoas que estão ansiosas para conhecê-la - disse Nick. — Quem, minhas amigas da faculdade? – chuto. — Nossas noivas... – Kadu fala e os meus olhos faltam saltar das órbitas. — Sabemos que são muitas informações... Vamos ter muito tempo para explicar tudo... Posso chamá-las? – perguntou Nick. — É claro que pode. Estou louca para conhecer as loucas que aceitaram meus dois irmãos malucos. Estou muito curiosa para conhecê-las. Nick e Kadu saem do quarto e voltam de mãos dadas com as duas garotas. A que está com Nick é uma morena linda. Longos cabelos cacheados. Nossos olhos se encontram e logo de cara já me sinto como se no conhecêssemos desde sempre. A outra garota é uma linda ruiva, seus olhos parecem com os meus. Uma leve maquiagem cobre um pouco das suas sardas. Penso que não vou gostar dela, mas quando ela troca olhares com Kadu, meu rosto se ilumina e sorrio para as duas. — Eu durmo por quatro anos e quando acordo meus irmãos não só estão namorando, como já estão noivos. — De casamento marcado. – Kadu fala sorrindo também. — O quê? Quando? — Semana que vem. Belinda e nossa mãe estão me deixando maluco com tantos detalhes. — Calma aí, vamos devagar com as informações... — Kadu, não podemos metralhar sua irmã com tantas informações – sua noiva começa a falar. — Tenho tempo de sobra para ouvir. Para começar, que tal me apresentar as duas garotas que deixaram vocês com cara de idiotas apaixonados? Todos riram. — É claro. Elas vêm tanto aqui que é como se vocês já se conhecessem. Eduarda, essa é Nanda, minha noiva. — Oi. – Nanda acena. — E essa é a responsável pela minha mudança, Belinda. Kadu toca o queixo de Belinda. — Olá Eduarda. — Estamos muito felizes por sua recuperação. – diz Nanda. — Sentem aqui na cama e me contem como tudo aconteceu. Quero saber o que perdi. — Nossa, a história é tão longa que vamos levar o restante do dia. – Nick e kadu trocam risos. — Alguém tem compromisso? Cancelem. Quero ouvir tudo. Minha mãe senta na cadeira, enquanto meus irmãos e minhas cunhadas se amontoam na cama.
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