Trágica sintonia

2542 Palavras
_ Andrew _ comecei durante o café da manhã _ O seu nome é diferente. Você não é brasileiro, não é? _ Não, sou dinamarquês. Mas cresci na Inglaterra. _ Por quê veio para o Brasil trabalhar como faz tudo? _ Que resposta você espera? _ me encarou como quem já sabia onde eu queria chegar. _ A verdade. _ Aqui eu tenho paz _ soou sincero. _ Preciso que você fique a noite _ desconfiava dele, queria uma prova. _ Não posso _ negou com a cabeça se alterando. _ Só uma noite. Eu pago o que você ganha em um mês, por uma noite. Aproximou o seu rosto do meu, no máximo que a mesa, entre nós, permitiu _ Eu... não... posso _ esperou para ver, se falando assim, eu entendia. _ Me diga o motivo e eu desisto. Recostou em sua cadeira e bebeu o conteúdo do caneco, olhando para mim de forma desconfiada antes de se levantar e sair, encerrando o assunto. O que havia de tão grave que eu não podia saber? Semanas se passaram, e a cada dia em que ouvia aquele barulho antes do abrir da porta da cozinha, mais eu me convencia que a doméstica tinha bons motivos para sentir medo do lindo rapaz. Estava deitada, quando ouvi uma galopada ao redor da casa. O cavalo estava solto. Não pensei muito antes de levantar para ir prende-lo. Mas, uma vez lá fora, lembrei do homem-animal, do lobo enorme, e ainda do aviso do Andrew para que eu não saísse. Mas eu já estava ali fora. Fazer o que? Avistei o animal e ia pegá-lo, quando ele empinou as patas frontais e correu pra cima de mim. No meio dos meus pensamentos, não atentei nenhum segundo, para o fato do animal ainda não ter sido domado. O corcel veio rápido e eu sabia que o fim seria rápido e terrível se eu tivesse sorte. Se não tivesse, sobreviveria. Tudo estava acabado quando vi as patas frontais acima de mim, prestes a me esmagar _ fechei os olhos protegendo a cabeça com os braços, á frente do rosto, e esperei os primeiros terríveis golpes de quatrocentos quilos, me esmagar. Um rosnado baixo e o relinchar do cavalo que correu se distanciando, me fizeram abrir os olhos para ver o Andrew entre mim e o cavalo. Seus olhos brilhavam em vermelho e ele olhava para mim com sua expressão zangada. Ajeitei a minha postura constatando o que já desconfiava. _ Eu disse para ficar lá dentro _ cobrou em um quase rugir. _ O que você é? _ Volta para dentro. É muito perigoso aqui. _ Por quê você se importa? Hesitou por um segundo _ Vou prender o cavalo e depois eu entro, para conversarmos, se você entrar _ propôs e eu aceitei. Aguardei ele lá dentro, como o combinado. Logo entrou na cozinha iluminada. Sob a luz artificial, os seus olhos pareciam azuis de novo. _ O que há com as mulheres da sua família? Sabia que você e a sua mãe são as únicas a sair de casa a noite sozinhas, neste lugar? _ O que há com este lugar? _ É perigoso. Tem predadores que você não conhece. _ Como você. Suspirou _ Pior que eu. _ O que você é? _ Humano. _ E o que mais. _ Nada mais. _ Não pode ser. Os seus olhos... _ Enxergo no escuro. Sinto os seus sentimentos através do seu cheiro. O seu cheiro muda conforme você muda, como o de todos os outros animais. _ Está me comparando aos animais? _ Estou, você é um animal e eu também. A diferença é que nós pensamos. Claro. Aula de biologia basica. Balancei a cabeça irritada _ Está tentando me confundir? _ Estou tentando te explicar que eu sou como você, só que não fui domesticado. _ Está dizendo que eu sou um gato e você é um tigre...? _ Você está entendendo. _ Não estou. É loucura. _ O que você quer que eu diga? _ Que é um vampiro, um lobisomem, um sei lá o que, que todo mundo fala por aí que existe. Gargalhou _ Vampiro! Prefere acreditar em pactos demoníacos ao invés de acreditar na simples e velha evolução? _ Evolução? E o que seria você na evolução? _ Um tipo de ser humano diferente mais evoluído do que você, porquê a minha espécie precisou e, precisa superar a sua, para continuar viva. _ Você é perigoso? _ Sou mais capaz, isso me classifica como perigoso, para os que são como você. _ O que te faz mais capaz? _ Sou muito mais forte e rápido, inteligente também. Até consigo saber o que você está pensando. Não porque eu escuto os seus pensamentos, mas porque vocês são tão óbvios. _ A minha mãe, sabia? _ Sim. _ Por quê ela te deixou ficar? _ Porquê eu salvei ela de outro tipo de animal que, vocês não conhecem. _ Outro como você? _ Outro como você e, como um lobo. Um transmorfo. _ Um lobisomem. Sorriu _ La vem as crendices _ desdenhou _ Mas se você quer simplificar assim, vamos lá? Ele é humano sim, como eu. Mais pode se transformar num super mega lobo e comer carne crua até se fartar. Não importa de que, ou de quem é a carne. Eu não sei o motivo, mas ele sempre volta aqui. _ E por isso, que eu não posso sair? _ Agora que você sabe a razão, vai parar de sair a noite? Balancei a cabeça afirmando _ Mas se não é uma maldição, como ele pode mudar? _ Evolução. Já ouviu falar nos dragões? _ Não posso acreditar que eles existiram. _ Mas eles existem. Estão a salvo de vocês. Em ilhas que vocês nem sabem que existem. Alguns deles podem mudar a matéria do seu corpo para fogo, e voltar a matéria novamente. _ Como? _ É engraçado como vocês gostam do conforto da ignorância. Vocês tem os relatos dos seus antigos navegadores, mas preferem não acreditar. Vocês vêem filmes que mostram toda a verdade e, o que fazem? Aceitam aquilo como uma fantasia. Voltam para casa felizes, por pensar que nada do que viram é real. Sabe qual é o melhor jeito de manipulação? Misturar o real com a mentira. _ Está dizendo que alguém sabe? _ Vocês todos sabiam, mas esqueceram. Talvez seja o melhor. _ Eu vi suas presas. _ Sim, eu bebo sangue direto da veia de qualquer ser com sangue quente. Mas é mentira que não consigo me controlar. Acho que isso tem mais a ver com o impulso s****l e não com comida. _ Você acabou de tirar toda a graça do livro Dracula. _ Desculpa. Mas se isso me redimir, ninguém tem nada contra degustação em jogos de sedução. _ Estou pensando besteira, mas você está redimido. Rimos. Mas algo estava estranho. Para onde ele ia todas as noites? Eu queria saber. Será que ele fazia jogos de sedução com alguém? Havia uma parceira compatível com ele? Uma fêmea? Por algum motivo isso me entristeceu. Ele trancou a porta da cozinha e caminhou para o seu quarto, nos fundos da casa. Me lançou um olhar como despedida. Voltei para o meu quarto também. Degustação em jogos de sedução. As suas palavras rondavam a minha mente, dando voltas e, me excitando com a imaginação a solta. Imaginava ele, aquele perfeito e sedutor homem, sem camisa, me abraçando por trás e mordendo o meu pescoço. Sentia o seu cheiro no meu devaneio... Eu de olhos fechados levei uma mão por dentro da calcinha e penetrei um dedo na f***a, abrindo e deslizando pela umidade que os pensamentos causaram. Com o dedo úmido encontrei o meu c******s e o massageei. Pensava que o Andrew fazia isso no meu lugar. Cheguei ao orgasmo rápido e, deitei de lado para dormir. Com aquela descoberta, o meu desejo por ele aumentava. Acho que foi mais por isso, que decidi colher os frutos da horta, talvez. Eu conseguia vê-lo fazer o seu trabalho de onde eu estava. Cortava hortaliças para uma salada, quando ele sumiu. Não entendi como fez isso. Foi por um segundo de intervalo que eu olhei. Distraída, fiz um pequeno corte na palma da mão. Ai! _ gemi pela dor, notando que foi fundo. _ Deixa eu ver _ estava próximo a mim e pegou a minha mão levando a boca. Senti a sua língua quente sobre o corte e respirei ofegante pela dor. Tirou a minha mão da sua boca e examinou o corte. _ Pronto _ sorriu. Olhei para o local onde deveria haver um corte, mas não havia. _ Como fez...? _ levantei o olhar, mas ele já não estava lá. Aquilo tinha perdido a graça. Se eu não podia vê-lo, não havia motivos para estar ali. Peguei o que já tinha colhido e fui para cozinha, preparar. Olhei novamente para onde deveria haver um corte. Aquilo tudo era mesmo real? Meia hora antes do meio-dia, ele entrou na cozinha e lavou as mãos _ É só me dizer o que fazer? _ Você fazia isso, ajudava a minha mãe? Seu rosto ficou pensativo _ Sim _ o seu bom humor se foi _ Então? Aquilo me dizia que a relação entre ele e a minha mãe foi muito mais do que eu julguei. Fizemos o almoço e comemos e, durante todo o tempo eu repassava em minha mente o que poderia ter acontecido. A minha mãe Luana Yang, descente de asiáticos não sei bem qual deles, mas eu tinha olhos puxados, embora não parecesse asiática. O meu pai devia ser brasileiro. Ela havia morado aqui a vida toda. Engravidou de mim sem que ninguém a visse com homem algum. Ela nunca disse quem era o meu pai. Os meus avós morreram, deixando para ela uma vida confortável nos confins do mundo. Eu preferia o concreto e o brilho da cidade e tomei o rumo do meu sonho. Ela ficou sozinha aqui. Não era tão velha, tinha quarenta e três quando morreu. Será que o Andrew a amou como mulher? Olhei para os olhos azuis do rosto sério sobre mim. Parecia saber o que eu pensava. _ Você e a minha mãe...? _ Não. A sua mãe estava apaixonada por alguém. _ Quem? _ Eu não sei. Se você estivesse aqui, poderia perguntar para ela. Você é tão sutil _ sarcasmo na última frase. Suspirei engolindo o sapo. Ele tinha razão, eu não era sutil. Eu era bem óbvia. Devia feder à cio para ele. Devia ter esse cheiro desde que ele me viu na floresta. Por isso ele me odiou. Por causa da minha vulgaridade simples e nada especial. Só uma mais uma v***a camuflada de boa moça atrás de um macho. Era isso mesmo. Se tem uma coisa que eu aprendi com a Sra Yang, é a lutar pelo que eu quero. Andrew levantou retirando a mesa rápidamente e lavando numa velocidade que me deixava tonta. Logo ele mesmo secou e guardou tudo. _ Você tem visita _ avisou cabisbaixo e saiu de volta ao seu trabalho. Demorou um pouco até o carro do Kauã parar perto do casarão. Feliz com a visita, fui até o carro para recebê-lo. _ Oii! _ sorri. _ Pensei em visitar a minha vizinha preferida _ apeou me abraçando pela cintura, sorrindo. _ Entra _ Indiquei a porta principal e o vi entrar. O Andrew nos observava curioso, ao longe. Entrei na casa, atrás da minha visita. Fiz um refresco bem gelado para nós dois. Conversamos sobre o passado que eu nem lembrava mais. _ A sua mãe era uma mulher extraordinária. Assenti e depois de mais algumas frases nos despedimos. Andrew novamente nos observava daquele jeito cauteloso. O que ele tinha? Fiquei ali, olhando para ele que também me olhava de longe. _ Srta Laura _ ouvi a sua voz calma, vir da janela do meu quarto e, fui até ela. _ Há algum problema?_ imitei o seu jeito de falar. O seu olhar subiu o meu rosto de vagar, a partir do meu queixo _ Você gostaria de vir na cachoeira da sua propriedade... comigo? Aquilo era um encontro? Que fofo! E eu pensando em agarrá-lo na cozinha _ Tem um cachoeira aqui? Eu não sabia _ sorri. _ Então, vamos? _ Demorou. Só vou vestir um... _ Não precisa! _ soou urgente, meio assustado _ Vai assim _ tentou sorrir _ Short e camiseta tá ótimo. _ Não é melhor eu vestir um biquíni? _ Vai demorar _ soou a desculpa _ O sol logo vai se pôr. Olhei no meu celular, era duas da tarde _ Sei _ ele não queria me ver seminua _ Entendi _ eu devia ser muito feia para ele _ Estou pronta _ falei com a minha bola bem murcha. Não era um encontro. Era só uma ida a cachoeira com a amiga feia que ele protegia. A cachoeira ficava na parte não desmatada das terras do casarão. Por isso, eu não sabia da sua existência. Ele entrou na água só de cueca box e, eu ia entrar de short? Mas não, mesmo! Tirei a camisa diante do do seu olhar estupefato. _ Tá calor _ falei sonsa enquanto tirava o short e pulei na piscina natural geladinha. Ele me olhava sério com cara de quem não gostou do que comeu. Joguei água nele _ Relaxa. É só um pedaço de pano _ sorri. Ele devolveu o jato d'água com um ar mais descontraído. Mergulhei em direção às pedras onde fiquei deitada curtindo o sol no meu corpo semi mergulhado. Ele sentou na pedra onde eu estava encostada, ao meu lado _ Você não tem planos de ficar aqui, não é? _ Quer dizer para sempre? Não. Este lugar era bem melhor quando eu era pequena. Não tinha lobisomens e nem vampiros. _ Sempre teve lobisomens, Laura. Por quê os seus vizinhos iriam gostar tanto deste lugar se não fossem? É um lugar difícil para humanos comuns. Depender de um carro para se locomover pelas estradas, não favorece vocês. _ Está dizendo que..? _ Toma cuidado com os seus amigos. Nunca saia com eles para uma caminhada a noite. Você não tem defesa. _ Só está dizendo isso por ciúme do Kauã _ defendi ofendida. _ O Kauã tentou marcar a sua janela como território dele, quando você chegou aqui. É isso o que você quer? Ser a posse de um lobo? Fiquei assustada, mas não sabia como me defender. Nem o motivo de estar zangada e querendo me defender. Eu não fiz nada. O que estava acontecendo comigo? _ Eu vou embora deste inferno! _ rosnei baixo para mim mesma e nem sei como foi que ele me ouviu. _ Laura, não. Espera _ segurou a minha mão me parando. Olhou para o meu sutiã e desviou o olhar incomodado _ Não precisamos brigar. É só informação. Você pode aceitar ou negar, mas não mate o mensageiro, por favor? Achei engraçado o que ele disse e quase sorri. Estava confusa. Ele aproveitou para me abraçar e senti um beijo no topo da minha cabeça. _ Você cheira bem _ desabafou em um quase lamento.
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