Seria possível alguém morrer de puro nervosismo?
De onde ele havia tirado toda aquela calmaria quando sentira Gabriel segurar seus pulsos e conversar consigo? Pelos céus, havia desenvolvido novas habilidades por acaso?
O coração batia desenfreado dentro do peito de Theodore. Lilian havia lhe aconselhado a ser indiferente com o alfa, agir como se nada tivesse acontecido. Dentro da cabeça do ômega aquilo seria apenas uma provocação para extrair uma reação esperada. Queria saber como Gabriel reagiria ao vê-lo tão diferente.
— Você tem que admitir que ele ficou babando quando te viu.
Lilian era a mais empolgada, mesmo que os dois estivessem enchendo as garrafas no bebedouro com água gelada. O lugar era afastado da bagunça entre os participantes do campeonato, dando vista para o time que usava o uniforme preto e dourado.
— Seu plano deu certo, estou surpreso.
— Hm... Então estão armando um plano?
Os dois loiros ergueram as cabeças e os olhos esbugalhados para o capitão marrento de braços cruzados. Engolindo em seco, Theodore apenas suspirava sem começar a se justificar. Voltara a encher as garrafas entregando para Lilian tampá-las e colocar na bolsa térmica com gelo.
— Desde quando guardamos segredos um do outro, Theo?
— Não é um segredo.
— É um plano. Para quê? Que mudança repentina é essa?
— A classe de Lilian me convidou pra representá-lo no concurso da escola. E como eu aceitei, ela disse que mudaria meu visual para que pudessem vencer.
— Quanta bosta estou ouvindo agora. Você caiu nessa, Theo? Desde quando uma turma inteira iria querer se aproximar de você?
— Ei! Por que desconfia tanto de mim? — Intervinha a garota baixinha, piscando os olhos claros com mágoa.
— Ninguém daquele maldito lugar é capaz de se aproximar de nós sem segundas intenções.
— Nico...
— Não conhece as pessoas da minha turma, então não diga que eles sejam ruins desse jeito!
— Se são pessoas que evitam Theodore por ouvirem boatos ridículos, é claro que são um bando de imbecis que só se aproximariam com segundas intenções!
Theodore segurara o ombro de Nicolas quando ele se aproximara ameaçadoramente de Lilian.
— Nico, meça suas palavras, certo? — Tendo os olhos vazios sobre si, Theodore sorria para o amigo — Você melhor do que ninguém sabe que os rumores à meu respeito são verdadeiros. Sou um ômega e sou gay, não tenho vergonha de mim mesmo.
— Sabe muto bem que me refiro ao que não condiz à realidade. Estão espalhando que você seduz os caras do time só pra transar...
— O querubim não é assim! — Explodia a garota com beicinho, ganhando a atenção dos dois rapazes. Parecendo uma pequena garota infantil, as lágrimas escapavam do seu controle na medida em que suas bochechas ficavam avermelhadas. — Theodore é uma pessoa gentil e honesta! Sempre disposto a ajudar os outros sem esperar nada em troca, um verdadeiro príncipe.
Nicolas soltara um riso abafado.
— Qual é garota, você não me engana.
— Você é malvado demais com o Theodore. Ele está todo feliz por se sentir bonito, então qual o problema dele continuar assim? Não me importo em usar o concurso como desculpa pra fazê-lo se sentir bem. Eu não me importo!
Prestes a responder a garota, Theodore dera uma cotovelada no braço do amigo baixinho impedindo-o de falar. Então o ômega fora até a garota tirando a bolsa que era esmagada em seus finos braços a deixando em seus pés.
Como poderia deixar aquela garota chorar daquele jeito? Ela lembrava muito a sua querida irmã mais nova quando fazia birra. Será que quando Lisa crescesse, seria como Lilian? Até mesmo seus nomes eram parecidos.
Theodore abraçara a garota contra seu peito, suspirando baixo enquanto se questionava como poderia acalmá-la. Quando sua irmã ficava de manha, doces e abraços a acalmavam. Mas não tinha nenhum doce consigo naquela manhã.
Tudo o que poderia fazer era acariciar seus cabelos dourados e macios, deixando que chorasse contra seu peito. Então, os dedos finos e compridos se agarraram às costas de Theodore, onde ela continuou a chorar manhosamente.
— Está tudo bem, Lilian. Nico está sendo protetor, isso é normal. Apesar de suas palavras serem rudes, ele é um cara legal.
— Como pode considerá-lo seu amigo se ele te trata desse jeito? Theodore é um garoto muito legal, e eu não estou aqui para enganá-lo.
Theodore lançou um olhar preocupado para Nicolas, que observava a cena com as mãos na cintura. Os dois amigos se encaravam e então o mais baixo resmungou.
— Garota, você deve ser nova na escola e não sabe como as coisas tem funcionado há um ano. Pare de chorar e solte o Theo.
— Não! Você vai brigar com ele. — Lilian apertara Theodore em seus braços, e o ômega a confortava da melhor maneira que podia.
— Ei... Solte ele. — Rosnava Nico arqueando a sobrancelha, sem ter respostas da garota. — Eu mandei você soltar o Theo agora!
O grito de Nicolas surpreendera os dois loiros, assim como o alfa moreno que acabara de chegar ali. A presença de Gabriel fora percebida, tornando a situação intensa. O ômega desviou o olhar para a garota agarrada à sua cintura, retomando a missão em acalmá-la.
— O que está acontecendo aqui?
Nicolas passava a mão entre os fios escuros e lisos, respirando fundo tentando se acalmar. Percebendo que um quinto elemento estava aproximando, a situação poderia perder o controle.
— O que quer?
— O técnico está te procurando...
Virando-se para a garota, Nicolas apontara para ela.
— Estarei de olho em ti pirralha. Se ousar fazer algum mau ao meu amigo...
— Nico, não viaja.
— Eu não vou fazer nada pra magoar o Theodore, porque eu gosto muito dele.
A declaração repentina de Lilian surpreendera três híbridos atletas. Nicolas arregalava os olhos com olheiras arroxeadas, respirando fundo. Seus braços tremiam, seus dedos se fecharam em punho. Estava prestes a explodir quando Milles intervira segurando a nuca do capitão.
— Quer atrasar a p***a da partida, seu baixinho filho da p**a? Anda logo que eu tenho mais o que fazer.
E assim Nicolas fora simplesmente arrastado pelo alfa loiro, que diferente de antes não tinha o seu costumeiro sorriso estampado no rosto.
Ficando para trás, Gabriel petrificara no lugar sem desgrudar os olhos daqueles dois que se mantinham abraçados. Theodore o olhara sem deixar de tentar afagar os cabelos de Lilian, e em seguida descera os olhos para a bolsa térmica.
Precisava ir para o ginásio entregar as garrafas para os jogadores antes deles irem pra quadra. Lilian ao menos parara de chorar, porém escondera o rosto contra o seu peito se agarrando em sua blusa.
— Está tudo bem, Lilian. Ninguém mais irá pensar isso de você.
— Ei Jones! Anda logo! — Gritava Thunder do ginásio.
— Theodore, eu...
— Não precisa se preocupar, eu me viro por aqui...
— Mas ela...
— Eu vou ficar com ela até que se acalme, não se preocupe.
Percebera que Gabriel estava relutando em ir, porém tivera de entrar no ginásio antes que fosse chamado novamente.
Estando devidamente sozinhos, Lilian erguera o rosto espiando a área e se afastando de Theodore.
— E então?
— Uau você é terrível. Como sabia que o Nico agiria desse jeito?
— Meu amigo que participa do time disse que tinha a impressão do capitão ser bem enciumado. Se ele não agisse desse jeito, como poderíamos fazer o seu paquera se sentir preocupado? — Ria Lilian ao pegar um lenço de sua bolsa para enxugar as lágrimas que escorriam.
— Será que não exageramos muito? Quero dizer... Tenho receio que ele vá atrás de você.
— Continuarei com o meu papel, não se preocupe haha. Mas a grande questão é o Gabriel... Como ele reagiu à minha declaração?
— Não sei dizer, ele pareceu bastante surpreso. Enfim, vamos entrar se não a galera ficará com sede.
Como se nada tivesse acontecido, Lilian e Theodore entraram no ginásio com a bolsa térmica. Aproximaram-se do técnico entregando as bebidas e logo se afastaram para a entrada do ginásio.
Apenas Theodore poderia ficar ao lado do técnico nos bancos como assistente, e por isso tivera que se despedir de Lilian. Estava receoso de deixar a garota sozinha, mas o alívio viera quando encontrara alguns colegas de sua classe a esperando.
— Uaaaaaau, ele é bonito...
— Eu disse! — Respondia Lilian pomposa com os elogios, mesmo deixando o mais velho envergonhado.
— Pela primeira vez eu acho que conseguimos vencer esse concurso.
— Nossa representante de turma tinha razão.
Theodore estava surpreso com aquele pequeno grupo de amigos que interagiam em grande respeito com Lilian. Eram dois rapazes e três garotas que lhe encaravam de cima à baixo surpresos, lhe cobrindo de elogios quanto à sua aparência.
— Quando ouvi os rumores, não imaginei que se tratasse de um cara bonito...
— Estou duvidando da minha sexualidade nesse momento. — Murmurava um outro garoto, recebendo uma cotovelada de Lilian.
— Mas você é mesmo...?
— Eu disse que isso não importa! — Repreendia a representante loira — Nosso querubim gostando de homens ou mulheres, alfas ou betas, não importa desde que ele nos ajude a vencer o concurso, certo?
— Certo... Então já que está acompanhada de seus amigos, eu vou indo pra quadra. Qualquer coisa me avisem, tudo bem?
Era a primeira vez que um grupo de estudantes da sua escola conversava com ele daquela maneira. Geralmente as pessoas o ignoravam com maestria, temendo ficar no mesmo lugar que Theodore por muito tempo. Já havia se esquecido de como era a sensação de estar com um grupo de pessoas que pudessem conversar normalmente.
Lilian era uma caixa de surpresas.
De qualquer maneira a grande questão era outra.
A primeira partida iria começar, e Theodore estava ansioso para saber quais seriam os resultados do pequeno teatro montado à pouco. Uma coisa era descobrir como Gabriel teria se sentido com o beijo entre eles, outra era lidar com a proteção de Nicolas.
Se Theodore fosse cuidar de um plano daqueles, não iria pensar no seu melhor amigo. Lilian fora geniosa em englobá-lo na sua trama.
Estaria devendo uma bebida doce a ela por isso.
Quando se sentou ao lado do técnico no banco perto da quadra, Theodore sentia um incomodo na barriga. Estava ansioso pela partida, observando atentamente o time se organizar para ouvir as últimas instruções.
— Enfrentamos esse time ano passado, e acredito que pouca coisa deve ter mudado. Eles são desorganizados com ataques rápidos, e geralmente seus saques são muito bons. Por isso focaremos na recepção e bloqueio, certo? Mas quero que Jones e Howard estejam prontos para trabalharem juntos em seus ataques rápidos.
Nos alto falantes eram anunciados o início das partidas. Os jogadores arrumavam seus uniformes e se aqueciam, logo indo para a quadra tomar suas posições. O apito da primeira partida soara, e então a bola fora jogada ao alto dando início ao primeiro turno das eliminatórias.
Certamente Theodore torcia para que o time de sua escola vencesse. Faltou pouco para conseguirem no ano anterior, mas o técnico mudara os treinos para garantir o sucesso nesse ano. Até imaginara que ficaria nervoso quando pisasse naquele lugar novamente.
Só que sua ansiedade estava centralizada em uma única pessoa. Mais precisamente no alfa que jogava na rede, focado na bola com uma expressão fechada. Gabriel estava diferente do que havia visto nos treinos, parecendo perseguir a bola com toda a sua força e energia.
Não tinha como desgrudar os olhos dele.
Cada movimento de Gabriel parecia seduzir Theodore de um jeito incontrolável. Principalmente quando balançava os cabelos que começavam a ficar suados. O ômega estava completamente hipnotizado, levando inconscientemente seus dedos a tocarem sua boca.
Pelos céus, sonhara com o beijo de Gabriel desde sexta-feira. Sentira uma conexão tão profunda com ele que era insuportável de lidar. Precisava de mais, muito mais.
E tê-lo próximo de si, mas longe de seu toque era agonizante.
Poderia mandar às favas o plano ardiloso de Lilian, mas precisava de respostas. Se agisse indiferente, Gabriel procuraria por si? Se estivesse sofrendo como ele sofre, então iriam se encontrar mais uma vez para ficarem.
Caso contrário a amizade retomaria seu curso natural, e Theodore não precisaria se humilhar na frente de Gabriel.
Sim, seria humilhante se fosse atrás do alfa perguntar se sentiu algo. Se gostaria de tentar de novo. E se Gabriel mudasse? Ficasse com nojo e se afastasse?
Não, Theodore não queria aquilo de maneira alguma. Preferia ser cuidadoso e observar atentamente as reações do alfa antes de concluir alguma coisa.
Acordara de seus devaneios quando o grito das arquibancadas fora alto o suficiente. O grupo de garotas que costumavam torcer por Milles não faltaram ao compromisso e celebravam o primeiro ponto feito pelo time.
Quando Theodore prestara atenção no que realmente acontecia em quadra, engolira em seco. As três figuras que tornavam o time forte pareciam cobertas por chamas escaldantes. Seria esperado de Nicolas, afinal ele ainda estaria bravo pelo o que ocorrera anteriormente, mas aqueles dois alfas? Era muito estranho.
O mais estranho ainda eram os olhares daqueles três sobre si. Mais uma vez esperaria isso de Nicolas, e até mesmo de Gabriel, mas de Milles? Oh céus, o que havia acontecido com o mundo?
Virando a cabeça disfarçadamente, Theodore buscara pela amiga na primeira fila das arquibancadas, arregalando os olhos claros em um pedido de ajuda. A pobre garota parecia surpresa quando balançou os ombros em um sorriso triste sem poder fazer muita coisa dali.
Certo, estava sozinho por enquanto. Teria de enfrentar aqueles olhos fumegantes repletos de raiva.
— Tô achando que nosso capitão vai precisar de uma soneca urgente depois do almoço. — Sussurrava o técnico para o seu assistente. — Apesar dele parecer bem enquanto joga... Ah que confuso.
— Professor, admita que quer deixar seu capitão desse jeito só pra vencer.
—Mas é claro, veja só aqueles magricelas tremendo de medo. Estamos com tudo hoje.
— Se Nico for dormir, ele vai perder essa marra toda.
— É o que penso... Mas seria o certo.... Como poderíamos estimular o nosso capitão na dose certa?
Theodore suspirava acompanhado de seu professor de educação física. Depois que a partida acabasse, provavelmente Nicolas se sentiria tão cansado que seria necessário dormir. Porém havia a segunda partida que também decidiria a próxima fase das eliminatórias. De maneira alguma o capitão deveria jogar com menos empolgação do que a primeira partida, o time adversário tomaria vantagem disso.
Aproveitando o momento de saque do outro time, Theodore olhara para a outra quadra atrás de si, onde o time que jogaria à tarde vencia seu oponente em grande escala. A diferença de pontos era grande mesmo no primeiro set.
— Eles são bons... Ah... O assistente deles está assistindo o nosso jogo.
Com o comentário do ômega o professor virou-se rapidamente para encontrar o sujeito que não fazia questão alguma de esconder sua presença. Um rapaz de óculos e olhar frio assistia fazendo anotações, sem se importar em ser descarado.
— Ah que merda... Quer saber? Seja o que Deus quiser. No segundo set vou deixar Howard na reserva e você o coloca pra dormir. O que acha do Jones levantando pro Mckenzie e Thunder?
Theodore fizera uma careta diante da dificuldade em conseguir cumprir aquela tarefa. Seu amigo provavelmente estaria muito disposto a discutir consigo ao invés de descansar.
Mas o bem do time era maior naquele momento.
— Tudo bem... Acho que pode funcionar, Gabriel consegue se adaptar bem aos atacantes do nosso time.
— Foi o que pensei.
Recebendo tapinhas do treinador, Theodore tornou a assistir a partida. Tivera de engolir em seco quando seu time conseguira mais pontos graças aquela atmosfera escaldante. Nicolas atravessava a quadra curvado atrás de Milles, escondendo sua presença do time adversário, saltando ao mesmo tempo que Gabriel levantava a bola em sua direção. O corte feito na bola furara o bloqueio do outro time, tendo uma recepção tempestuosa garantindo outro ponto.
Conseguindo três pontos de distância do outro time, o primeiro set logo se encerrava com o apito. Os jogadores deixaram a quadra sentando-se nas cadeiras para beberem a água distribuída pelo técnico junto das toalhas. Diferente das outras vezes, Nicolas não se sentara ao lado do seu melhor amigo.
Ah, certamente a sua fúria era imensa, pensava Theodore. Apoiando os cotovelos em suas pernas, o ômega logo tivera que afastar aquela preocupação quando o suor dos atletas começara a serpentear no ar.
A mistura dos odores era definitivamente enjoativa para o ômega. Mesmo tendo tomado seu comprimido supressor antes de sair de casa, não conseguia evitar de se sentir m*l com o cheiro de betas e alfas mesclados. Era horrível.
Cobrindo o nariz disfarçadamente com os dedos, o ômega virava o rosto na tentativa falha de fugir daquele oceano de odores. O cheiro de um alfa era capaz de entorpecer um ômega, enquanto que de um beta resultaria em uma sedução mais branda. Mesclar os odores era como causar um conflito dentro de um ômega. Certamente o cheiro de alfa deveria ser mais forte, mas Theodore se encontrava perto de um time predominantemente beta.
Oh céus, estava começando a suar e sua visão estava prestes a ficar embaçada. Seus instintos não faziam a menor ideia para qual odor reagir.
Por que aquilo estaria acontecendo consigo? No ano anterior não se sentiu dessa maneira. Os seus comprimidos tinham dado conta do recado, ficara tranquilo o dia inteiro conseguido acompanhar seu time. Então porquê agora perdiam o efeito?
Fechando os olhos que embaçavam de vez, Theodore tentava se acalmar. O coração disparara, e o temor de que seu próprio cheiro começasse a escapar o deixava temeroso.
Sentindo um movimento ao seu lado, Theodore não ousara se mover. Puxando o ar para seus pulmões, sentira um odor predominante em sua volta. Um cheiro que fora capaz de afastar a mistura tão odiosa. Virando a cabeça quando reconhecera, seus olhos claros se arregalavam em notar Gabriel sentado ao seu lado enxugando o suor com a toalha branca.
— Gabriel?
O alfa o olhara seriamente, como se ainda estivesse preso naquela atmosfera flamejante da quadra. O ômega até ficara receoso de falar consigo.
— Estou descansando um pouco, não se importa não é?
— Não, claro que não.
Estaria bravo consigo? Uma reação um tanto quanto curiosa. Mas deveria agradecê-lo mais tarde, já que sua presença trouxera calmaria para seus instintos. Theodore respirara fundo dando leves tapas em seu peito, apaziguando todo o furacão que havia surgido repentinamente.
Os dois não foram capazes de conversar, principalmente quando Nicolas se aproximou com uma carranca e se sentou no outro lado de Theodore. A chegada do capitão causara a saída de Gabriel, para a tristeza do ômega, que queria conversar mais um pouco.
Mas teria de esperar, já que Nicolas bufava do seu lado como sempre fazia quando as coisas não iam de acordo com o planejado.
— Vai dormir agora?
— Acha que estou com sono? — Respondia o baixinho bebendo sua água antes de virar os olhos zangados para seu amigo — E a pirralha?
Assim como havia imaginado, seu amigo não iria dormir até entender o que raios estaria acontecendo com Lilian. Theodore se ajeitou na cadeira cruzando os braços tentando encontrar uma saída para aquele beco.
— Está junto com os amigos dela assistindo as partidas.
— Fale logo o que eu quero saber, Theodore.
— Eu já disse, você que não acreditou. Ela me chamou pra participar do concurso.
— Sinto que tem algo a mais nessa história...
Theodore sorriu levemente baixando os olhos para suas mãos sobre o colo. Há quanto tempo eles se conheciam? Claro que Nicolas iria saber que tem muita coisa sendo omitida, e que ele não iria gostar de ser mantido fora. Faria o mesmo em seu lugar.
Mas se contasse, seu amigo ficaria bravo consigo e com Gabriel. Não... Naquele momento Nicolas deveria descansar.
Então uma ideia surgira na cabeça de Theodore.
— Te contarei depois que acordar. Não quero levar uma bronca do professor se eu não te fizer dormir agora.
Suspirando, Nicolas relaxara os ombros parecendo desistir de discutir.
— Promete que será sincero comigo?
— Responderei todas as suas perguntas, eu prometo.
Recebendo um afago em seus cabelos, Nicolas se ajeitara no banco deitando a cabeça no colo de Theodore. O ômega puxava a bolsa do seu amigo para tirar dela um casaco de moletom, o jogando para cobrir Nicolas. Acariciando seus cabelos suavemente do jeito que ele gostava, esperou que seu amigo caísse no sono como esperado.
Uma vez que cumprira sua tarefa de acalmar o pequeno demônio, e o chamado para o segundo set ocorrera, Theodore voltara a observar a quadra. Para a sua surpresa, a atmosfera quente e furiosa não havia dispersado mesmo com a ausência do capitão.
Para a felicidade do técnico, Gabriel jogara perfeitamente com os demais atletas. Principalmente com Milles, como se os dois estivessem sincronizados seus sentimentos. Os primeiros pontos garantiram vantagem sobre o outro time. E para a surpresa de Theodore, quem lançara um olhar mortal em sua direção fora Milles.
Estranho.
Milles costumava ser alguém que comemorava suas vitórias junto com sua torcida. No entanto ele mantinha a cara fechada e o olhar raivoso em sua direção. Ora essa, que bicho teria o mordido?
Vez ou outra o ômega olhava para o seu colo, notando que seu amigo continuava a dormir independente da barulheira em sua volta. E observando Nicolas dormir é que o loiro recordara-se de que mais cedo quem havia levado seu amigo para a quadra fora Milles.
Naquele momento ele já estava irritado.
— Parece um namorado ciumento. — Pensava alto o ômega.
Cruzando os braços enquanto assistia a partida, Theodore se acalmava lentamente. Diferente de antes onde havia todo um nervosismo sobre a partida, aquela dupla criara uma distância na pontuação que determinara sua vitória.
O técnico gritava implorando que seus bloqueadores mantivessem a defesa do time para impedir que o adversário fizesse pontos. Alguns palavreados escapavam da boca do professor, porém Milles fazia questão de recuperar a pontuação com seus cortes fortes. E é claro, sem deixar de sempre olhar em direção de Theodore.
Minutos depois a partida se encerrara ali. A vitória do time de sua escola fora declarada e os jogadores pulavam de um lado para outro celebrando. Theodore ficara aliviado que o primeiro desafio do dia tenha garantido bons resultados, porém o pior seria à tarde.
Observando os jogadores pegarem suas bolsas para deixarem a quadra, Theodore baixara os olhos se preparando para acordar o amigo. Em tese deveria deixá-lo dormir até acordar sozinho, pois seu humor estaria mais calmo, porém precisariam sair dali...
Coçando a cabeça prestes a tomar uma decisão, Theodore notara um par de tênis esportivos pararem na sua frente. Erguendo a cabeça lentamente surpreendia-se em ver Milles encarando o seu capitão.
— Ham...
— Eu levo ele.
Contestar seria inútil quando Milles pegara Nicolas nos braços com facilidade, deixando um ômega loiro boquiaberto. O alfa lhe dera as costas seguindo junto com o time para fora da quadra com naturalidade. Piscando algumas vezes, Theodore pegara a sua bolsa e a de Nicolas para seguir mais atrás o seu grupo, ainda se questionando o que faria aquele alfa carregar o seu inimigo nos braços.
Estando preparado em seguir o time para fora, uma mão forte segurara firmemente o pulso do ômega o guiando para outro caminho contrário. Sem entender o motivo de seus pés seguirem, Theodore era trombado com a multidão que ansiava deixar o ginásio. Na sua frente encontrara o sujeito alto vestindo o uniforme preto com detalhes dourado, que tinha as costas largas como uma grande muralha.
Entorpecido pelo repentino chamado, Theodore percebia que o alfa estaria lhe guiando para o corredor dos vestiários, que também estaria cheio de pessoas. Queria chamar o seu nome e perguntar o que estaria fazendo, porém aquele moreno não ousara lhe dirigir o olhar. Apenas puxava pelo pulso atravessando a multidão até que estivessem sozinhos em um canto.
Sendo empurrado contra a parede, Theodore olhava em volta sem saber exatamente onde estariam graças à parca iluminação. Ainda que tentasse entender a situação em que se encontrava não adiantaria, sua atenção fora roubada quando Gabriel o encurralara fitando-o ameaçadoramente.
— O que... O que está fazendo Gabriel?
Gabriel não lhe dirigia um sorriso gentil, nem estaria conversando consigo com sempre fazia. No lugar de seus brilhantes olhos castanhos, havia uma escuridão arrepiante. O cavalheirismo ausente era ocupado por um alfa dominador que se aproximava de sua presa ameaçadoramente.
Seu cheiro envolvera Theodore, tendo o efeito imediato de tornar o ômega loiro seu refém. As pernas perdiam as forças para fugir, o coração disparava intensamente fazendo com que o aroma adocicado escapasse suavemente.
E então, sem ainda prestar quaisquer justificativas de seus atos, Gabriel beijava Theodore.