CAPÍTULO 3 – O DIA EM QUE EU MORRI PRA NASCER DE NOVO
Narrado por Matheus (vulgo Bala)
Sete anos.
Foi com essa idade que me disseram, sem dizer, que eu não valia nada.
Lembro da porta do carro batendo com força.
Do barulho seco.
Do cheiro de gasolina e couro.
Do frio da noite encostando na minha pele suada.
Fui jogado num beco, entre o lixo de um restaurante, com o joelho ralado e a alma sem nome.
Nem entendi o que tava acontecendo.
O homem que me arrastou pra fora do carro usava terno. Fala arrastada.
Cuspiu no chão antes de virar as costas:
— “O juiz não te quer. Tu é filho da vergonha. E vergonha… a gente apaga.”
E me apagaram.
O carro sumiu.
A rua ficou muda.
E eu fiquei ali.
Dois dias. Ou talvez um.
Não sei. A cabeça de criança embaralha o tempo.
Só lembro de fome.
Fome de comida.
Fome de abraço.
Fome de sentido.
Chorei no começo. Depois parei.
Não tinha mais lágrima.
Foi quando um homem chegou.
Bota suja. Corrente no pescoço. Arma no cós da calça.
Parou na minha frente. Me olhou de cima.
Ficou em silêncio por longos segundos.
Depois falou, com voz baixa:
— “Matar criança não é comigo. Vai comigo.”
Foi só isso.
Sem perguntar nome. Sem estender a mão.
Só virou as costas e esperou.
Levantei do chão.
Segui.
Ele me levou pro Morro Heliópolis.
Pro mundo onde o terno não vale nada, mas o respeito vale tudo.
O nome dele era Caveira.
E naquele dia, sem saber, ele me salvou da morte.
Não da física. Da outra.
A do esquecimento.
**
Chegamos num barraco lá em cima, numa rua estreita, cheia de criança descalça correndo e mulher xingando do portão.
O cheiro de café com pão velho invadia a sala.
O sofá tava rasgado. A televisão chiava.
Tinha vida ali. E caos.
No quarto, dois moleques dividiam um colchão.
— “Divide aí. Esse agora é da casa.”
Foi só o que Caveira disse.
Um deles era magrelo, cabelo espetado, olhar desconfiado.
Ficou me encarando.
O outro nem ligou. Continuou brincando com um carrinho sem roda.
Naquela noite, dormi com a cabeça num travesseiro duro e o coração zonzo.
Não entendi se eu tinha sido resgatado… ou só mudado de prisão.
**
No outro dia, acordei com uma vassourada na porta:
— “ACORDA, MOLECADA! QUEM NÃO COME, PERDE O PÃO!”
Era a voz da Dona Jurema, vizinha de cima, que cuidava dos três como se fosse mãe — no grito e na pancada.
Sentei à mesa com eles.
Comi ovo mexido no prato de alumínio, pão sem manteiga, suco quente de pacote.
E pela primeira vez em dias… alguém me ofereceu mais.
— “Quer o meu resto?” — o mais novo falou, empurrando o prato.
— “Ele é Fabrício,” disse o mais velho. “Eu sou Ramon. E tu?”
Engoli em seco. Não respondi.
— “Sem nome, é?” Ramon riu de lado. “Então fica calado e aprende.”
**
Eu aprendi.
Na marra.
Na rua.
No morro.
Aprendi a correr de viatura.
A fazer entrega pra boca.
A entender o que podia ou não ser falado na frente dos homens.
Caveira nunca foi doce.
Mas me dava teto, comida e ordem.
E no morro, isso é amor do jeito que dá.
Fui crescendo.
Ao lado do Ramon — que viraria o Coringa.
E do Fabrício — que cresceu com alma mole mas dedo firme no gatilho.
A gente dividia a mesma água do banho, o mesmo chinelo, os mesmos palavrões.
Irmãos.
Sem sangue.
Mas com história.
**
Aos doze, Caveira me levou pra um galpão.
— “Hora de virar homem.”
Colocou uma arma na minha mão.
Mandou mirar em três garrafas.
Eu tremia. Mas não recuei.
Acertei duas. Errei uma.
Ele sorriu.
— “Já vi muito homem errar tudo. Tu serve.”
E naquela noite, Ramon me chamou no canto e disse:
— “A partir de hoje, tu é Bala. Porque tu não pergunta. Só dispara.”
Desde então, ninguém mais me chamou de Matheus.
**
Anos depois, Caveira morreu.
E no fundo falso do guarda-roupa dele, Ramon encontrou uma gravação.
O juiz.
Meu pai.
O homem que assinava sentenças com a mesma frieza que mandou me descartar.
— “A criança precisa desaparecer. Sem rastro. Sem escândalo.”
No fim da fita, um bilhete escrito à mão.
“Não tive coragem. O moleque não tem culpa.”
Era do Caveira.
Eu não chorei.
Não tremi.
Só fiquei parado.
Enquanto Ramon colocava a mão no meu ombro e dizia:
— “Ele te criou. Agora tu é meu irmão. Ponto final.”
**
Hoje, sou o braço direito do Coringa.
Sou a sombra do morro.
O nome que resolve o que ninguém tem coragem.
E o que ficou pra trás?
Matheus.
Aquele moleque esquecido num beco.
O irmão arrancado.
A criança que chamava pela irmã e nunca foi respondido.
**
Agora ela tá por perto.
Patrícia.
Linda. Intocável. Mimada.
Criada na mansão.
Enquanto eu cresci com o fuzil no colo e o coração calejado.
Ela não sabe que eu existo.
Mas eu sei.
E quando ela olhar nos meus olhos...
...vai sentir o sangue que tentou esquecer.
O sangue que agora... é do morro.
E é mais sujo, mais frio, mais letal do que ela pode imaginar.
A fumaça da boca subia grossa. O cheiro de maconha, suor e graxa misturava no ar. Ramon tá sentado no caixote, com o colete aberto, o fuzil encostado na perna e o copo de whisky na mão, como se fosse vinho barato.
Eu encostei do lado. Quieto. Observando.
A molecada corria. A grana contada. A arma passada de mão em mão. Tudo funcionava como ele mandava.
O rei da p***a toda. O Coringa.
Mas eu lembrava do Ramon que dividia miojo no prato de alumínio. Que jogava o chinelo em mim quando eu ria alto. Que limpava o sangue do Fabrício quando ele caía da bicicleta.
Hoje ele era outra coisa. Outro bicho.
— Tu vai ficar me encarando até quando, Bala? — ele rosnou, sem tirar o olho do copo. — Fala logo essa merda.
Dei um gole na minha cerveja.
— Tava lembrando do Caveira.
Ele riu. Sério. Seco. Sem humor.
— Esse filho da p**a morreu e ainda atormenta mais que vivo. Mas foi homem.
Eu assenti.
— Foi. Me segurou quando ninguém quis. Salvou meu couro.
Ramon olhou pra mim pela primeira vez. O olhar dele era de quem não devia nada pra Deus.
— Ele não te segurou. Ele te escolheu. Tu acha que ele podia ter dado fim? Podia. Mas ele viu utilidade. Viu futuro. Caveira não salvava. Ele moldava.
Silêncio.
— Tu sabe que ele me mostrou a fita, né? — falei. — Antes de morrer.
Ramon travou a mandíbula.
— Sei. Eu que escondi essa p***a de novo. Pra tu não ficar remoendo. Mas tu é teimoso.
— Era meu pai, p***a.
Ele se levantou. Veio devagar. Ficou na minha frente.
— Não. Pai é quem segura tua cabeça quando tu sangra. Pai é quem te ensina a mirar sem tremer. Pai é quem te chama de homem quando tu ainda é moleque. Aquele juiz de merda não é teu pai. É o filho da p**a que te jogou fora.
Respirei fundo. A veia da minha testa pulava.
— Tu tem razão.
Ele riu de lado.
— Claro que tenho, c*****o. Eu sou a p***a da razão nesse morro. Não gosto de lembrar dessa merda, mas tu é meu irmão. Caveira deixou. Eu cumpro.
Fiquei quieto.
Ele voltou a sentar. Acendeu outro baseado.
— Agora cê me vem com papo de lembrança... justo hoje. Que p***a cê quer, Bala? Hein? Vai vomita logo.
— Ela.
Ele franziu a sobrancelha.
— Ela quem?
— Patrícia.
Ele soltou a fumaça devagar.
— A princesinha do Godoy?
Assenti.
— Tu conhece ela? — perguntei.
Ramon deu um gole no whisky.
— Só de ver na TV. Ar metido, nariz empinado, fala bonita e cu apertado. É o tipo que se acha invencível porque nunca sujou o salto na lama.
— Ela é minha irmã.
Ramon deu uma risada curta. Cínica.
— Eu sei, p***a. Desde o dia que Caveira me mostrou a fita. Tu acha que eu ia esquecer aquela voz de merda do juiz dizendo que tu era o erro dele?
Tragou o baseado com calma, soltou a fumaça na direção do céu e depois me encarou com aquele olhar de quem já viu o inferno de perto.
— E é isso que faz tudo mais interessante… a mimadinha, a rainha do salto agulha, se achando a última gota de Chanel no deserto. Nem sonha que o sangue que ela despreza corre na veia do irmão que o pai jogou no lixo.
— Nunca vi ela de perto — falei.
— E nem vai — ele rebateu, direto. — Porque tu não tá pronto, Bala. Nem finge que tá. Tu fala o nome dela e já treme o maxilar.
Ele se aproximou devagar, arrastando o coturno pela terra batida.
— Tu quer o quê? Que ela olhe nos teus olhos e diga “me perdoa”? Que reconheça o irmão perdido e te abrace com lágrima no rosto?
Ramon cuspiu no chão.
— Acorda, c*****o. Isso aqui não é novela da Globo. Aquela mulher posta story reclamando da água Evian quente. Tu acha mesmo que ela tem espaço pra lembrar do moleque que berrava por ela no escuro?
Fiquei em silêncio.
Ele se sentou de novo, bufando. Depois apontou o copo de whisky pra mim:
— Mas eu entendo.
— Entende?
— Entendo. Porque eu também tenho minha p***a m*l resolvida. Só que eu espero o dia certo. O lugar certo. E quando eu for encarar… não vai ser tremendo.
Ele tragou fundo, o olho carregado de sinceridade suja.
— Quando tu tiver pronto, tu vai olhar na cara dela sem desmoronar. Vai dizer “eu sou o erro que sobreviveu”. Mas hoje? Hoje tu ainda é só o menino que sangra por dentro.
Ramon virou o copo, bateu ele no caixote e finalizou:
— Então engole isso. E quando tu parar de querer abraço, a gente pensa no próximo passo.