CHRISTIAN
— Preciso ir ao banheiro, eu vou ... dar um jeito na minha cara. — Dá um sorriso mentiroso em meio a uma brincadeira boba.
É o que ela faz sempre após ter uma crise emocional – Usar uma brincadeira para fingir estar bem e sorrir desse mesmo jeito falso. Eu sempre sei quando ela faz isso mas deixo ela ir.
Jasmine precisa de um tempo e precisa acreditar que é convincente ou pode se fechar ainda mais.
— Tudo bem, eu te vejo em breve. Por favor, fique bem. — Seguro as mãos pequenas dela e as acaricio devagar.
— Não se preocupe, estou bem melhor graças a você. Agora você finalmente pode... bom... encontrar a presa da noite. — Volta a sorri sem graça.
— Acho que hoje não. — Seu olhar toma um brilho diferente. — Estou cansado e sabe, eu só gosto de dar meus cem porcento.
— Tudo bem, tanque de guerra. Nos vemos depois. — Ela se afasta e vai em direção ao banheiro.
Eu a observo partir e caminhar para longe, é muito difícil para mim não poder impedir que ela sofra tanto ou não saber se ela vai surtar novamente em algum momento.
Após Jasmine sumir no corredor, torno a voltar para o meio das pessoas, agora a Cristal está dançando com meu pai no centro. Alejandro está no bar, observando encantado minha irmã dançar. É essa a cara que alguém apaixonado faz? Deus, me impeça de ficar assim um dia.
Caminho até lá, vejo o copo de Whisky puro na mão dele e peço o mesmo no bar, recostado no balcão ao lado dele.
— Foi uma bela festa.
— Sim. — Concorda, sorrindo pensativo e orgulhoso. — Você imaginaria isso, a pouco mais de um ano?
— Você casando com a minha irmã? Não, definitivamente não. — Afirmo cheio de certeza, ele solta uma pequena gargalhada.
— Eu me casando.
— Não. Quer dizer, quando eu te conheci já foi depois da Kamila. Não te via num relacionamento sério mesmo que fosse a mulher perfeita e todos sabemos que perfeição não existe. — Concordo. — E quando você me falava sobre a mulher misteriosa, antes de descobrir que era a Cris... era tão... c*****o!
— Sim, meu amigo. Foi uma loucura e tanto mas foi a melhor loucura da minha vida. — Vira a bebida na garganta e deixa o copo vazio no balcão. — Eu descobri que eu não precisava da mulher perfeita. Só precisava da maior jóia que esse mundo já viu... e agora eu tenho.
É loucura que a única coisa que vem na minha cabeça quando ele fala de uma jóia, é a Jasmine?
Claro que não amo de forma romântica a minha amiga. Cuido dela porque me importo, sim, ela é essencial na minha vida e não suportaria perde-la assim como detesto vê-la sofrer. Mas qualquer amigo faz isso.
Já o meu desejo por ela, sim, é real, cru. Eu a desejo tanto que parece que sinto o fogo do desejo derreter meu coração. É tão certo quanto o vermelho dos cabelos dela.
O que é outra coisa normal, olhando para a imperial beleza dela.
Seguro esse desejo, esse fogo, esse ímã que me puxa para perto dela porque eu não posso fazer isso com ela. Sei o que um relacionamento malsucedido faria com o emocional dela, sei que t*****r só por causa de um momento de fraqueza e depois ter que seguir em frente seria o fim para ela.
Não sou capaz de ter um relacionamento agora, não quero um romance, não quero amor ou me casar, não ainda.
Por que eu destruiria o que resta dos sistema emocional da minha amiga, apenas por que ela me enlouquece? Não, nunca faria isso. Então, me mantenho longe dela e tento impedir que outros possam machuca-la também.
Podem me chamar de covarde, podem me julgar. Mas essa droga é por ela, c*****o!
Definitivamente não é por mim, ou eu já teria arrancado a roupa e a sanidade dela. f**a-se os julgamentos errôneos, apesar da minha proteção por ela, eu nunca ficaria no caminho dela. Quando Jasmine encontrar alguém que a mereça, eu deixarei ela ir.
Normalmente eu não sei se gostaria disso, mas os acontecimentos com a minha irmã me ensinaram a parar de tentar controlar tudo e aceitar as decisões dos outros.
— Estou feliz por vocês, de coração. Vejo o quanto vocês se amam e lutaram para estar aqui, o quanto são corajosos. Espero um dia ter essa coragem, — Também termino de tomar minha bebida — quando chegar a hora certa.
— Chris, nunca vai ser a hora certa e sim pessoas certas. E torço do fundo do coração para que você não perca essa pessoa especial esperando algo que nunca vai chegar. — Me viro para encara-lo.
Seu olhar observa Jas, que está de volta a festa já com sua maquiagem no lugar e agora está conversando tranquila com Kamila Medeiros, a outra madrinha. As duas estão afastadas e distraídas, não nos veem olhando para lá.
— Qual o seu ponto? — Questiono.
— Meu ponto é que eu te conheço e a esse olhar. Pare de mentir, Christian, isso só vai machucar vocês dois. — Não, não vai. É exatamente isso que estou tentando evitar, ninguém pode me entender? Eu não ligo se machucar a mim, mas me recuso que isso a abale. — É assustador no começo, esse sentimento, acredite, eu sei; mas fingir que ele não existe não vai fazer desaparecer.
— Jasmine é minha amiga e eu a amo e protejo porque me importo. Aquela garota já sofreu demais e hoje faço o que posso para tornar a vida dela mais fácil. — Tento explicar pela milésima vez. — Não, eu não estou mentindo quando digo que não tenho nenhuma intenção de namora-la ou algo do tipo. Não n**o que tenho desejos por ela, desejos fortes e inexplicáveis mas não é uma paixão. Saiba que eu não vou ceder a esses desejos, apenas para dizer a ela que foi só... diversão. Não posso fazer isso com ela...
— Então, se você a deseja tanto, todas essas garotas que você...
— Sim. Sou um canalha de merda que dorme com mais mulheres que se pode contar, apenas porque não posso dormir com quem eu realmente quero.
— Bom, boa sorte com isso. — Curva os lábios num sorriso pretensioso. — Logo ela estará aqui.
— Ela quem? — Questiono com o cenho franzido assistindo ele se afastar ainda com o sorrisinho miserável no rosto.
— A sua domadora de corações. — Dá de ombros. — Tem uma para cada um de nós. E com sorte você não vai perde-la.
Reviro os olhos, desacreditando em suas palavras. Alejandro caminha para longe, indo cumprimentar Kamila que conversa com Jasmine. Queria que tivesse um botão de desligar no meu subconsciente, mas como não tem, eu caminho até a pista de dança.
Uma música lenta está acabando e meu pai fazendo graça com minha irmã, me aproximo e toco o ombro dele.
— Posso? — Questiono fingindo cerimônia para pedir a vez. — Não posso perder a chance de dançar com a noiva mais linda desse mundo.
— Não irá, um dia você terá a sua própria para dançar. — Meu pai provoca e nem espera minha resposta.
Quando abro a boca para responder, ele acena com a cabeça para Cris e vai embora. Cerro o maxilar, toda essa conversa já está me irritando e controlar está ficando mais difícil.
Deslizo a mão pela cintura fina da Cris, bem marcada pelo vestido, sentindo as elevações dos cristais. Seguro a mão dela com a outra e começamos a balançar pelo salão, ao som de uma música clássica.
— Não aguento mais esse complô dizendo que estou apaixonado pela Jasmine ou que vou me casar em breve. — Sussurro para ela, emburrado. — É sério que ninguém entende amizade entre homem e mulher?
— Não existia complô nenhum comigo e o Jay, sabia? — Claro que ela está do lado deles.
— Traidora. — Brinco. — Não entendo o que acontece.
— Sei que se afasta dela porque acha que é o melhor para ela, que está tentando protege-la de sabe-se lá o que, como sempre faz. Mas Christian, você não precisa proteger todo mundo. — Nem quero proteger tudo mundo, de verdade, apenas as pessoas com quem me importo. — Além disso, essa decisão não é só sua.
— Do que está falando? — Dou um giro nela e logo voltamos a mesma posição.
— Estou falando que você não pode decidir sozinho o que é melhor para ela, se ela deve ficar perto ou longe de você. Quem tem que tomar essa decisão não é você, é ela, sabe disso. — Diz séria. — Pare de controlar tudo ao ser redor.
— Eu agradeço a preocupação, mas nós vamos ficar bem, acredite. — Me mexo lentamente com ela nos braços, decidimos em silêncio um pouco. — Estou muito feliz por vocês!
— Obrigada. — Sinto a sinceridade na voz dela e consigo senti-la sorrir.
— Sabe... eu realmente queria que vocês tivessem me contado antes de eu descobrir daquela forma. — Não é desculpa para como eu a magoei na tentativa de protege-la, mas é uma explicação. — Talvez... se tivéssemos conversado antes eu teria percebido.
— Percebido o que?
— O quanto vocês se amam. Sei que aquele espanhol miserável é louco por você, sei que ele vai fazer de tudo para manter você feliz, amada e segura. Gostaria de ter descoberto antes.
— Fomos covardes, mas já queríamos te contar muito antes. — Se agarra firme em mim, como a menina que corria comigo nos quintais de nossa casa. — Você é o melhor irmão do mundo, não importa o que houve.
— Sempre seremos Cris e Chris. — Eu acabo não resistindo a brincadeira, ela gargalha enquanto a música acaba e se afasta um pouco com um sorriso nos lábios. — Quero que sejam muito feliz.
— Nós seremos.
A festa se estende noite a dentro, mesmo quando os convidados vão embora ficamos festejando com a família na casa. Caímos no lago durante a noite, comendo o resto da comida da festa e bebendo cerveja.
Ficamos todos nós e a Jasmine, já que não achamos uma boa ideia ela ir embora sozinha tão tarde.
Todos sorriem, se divertem e comemoram a união do Alejandro com a Cristal. Os dois partem amanhã para a lua de mel na Grécia.
Permaneço sentado na borda do lago, com os pés na água doce e fria. Uma música lenta e baixa toma o ambiente, mantendo o clima de casamento no local.
Observo minha família, todos apaixonados e se divertindo. Não parece mas é como se eu fosse a ovelha n***a da família, até minha irmã de dezenove anos está casada. Meus pais, minha tia, todos viveram grandes amores. E eu?
Sou o único que não sente? Que nem mesmo pensa em estar com uma mulher vivendo esse tipo de relacionamento?
— No que está pensando? — Jas se aproxima, sentando ao meu lado.
Sorrio sem olhar para ela, bebendo um pouco do conteúdo da garrafa de cerveja que tenho mas mãos.
— Nada. — Minto. — Só estou feliz por eles.
— Tudo bem se você não quer falar, então eu falo. — Fito os olhos verdes e brilhantes me encarando. — Hoje, eu senti vontade de... sabe, eu tenho saudade de dançar.
— Não acha que está na hora de você tentar mais uma vez? Quero dizer, eu posso te ajudar.
— Christian, você tem uma empresa mundial nas costas, não pode passar a vida cuidando de mim e dos meus problemas. — Abaixa a cabeça brincando com os próprios dedos.
Olho para os lados, todos estão distraídos. Jas me encara confusa percebendo minha intenção, levanto e seguro as mãos dela puxando-a também.
— Vem comigo. — Não preciso dizer mais nada, ela caminha com a mão agarrada na minha conferindo se alguém está nos vendo.
Eu a conduzo para um pouco mais longe da minha família, entre o lago e casa. Há algumas árvores, grama e está escuro. Conseguimos ouvir a música baixinha daqui, então deslizo a mão cobrindo a cintura dela.
Jasmine treme com o contato e se contrai quando entende minha intenção. Não é a primeira vez que consigo faze-la dançar comigo, apenas nós dois, mas já faz muito tempo.
— O que está fazendo? — Questiona, com a voz abafada.
— Não importa qual seja o peso que eu precise que carregar, você vai sempre ser minha prioridade. — Puxo o corpo pequeno para perto, Jasmine solta uns suspiros leves. — Feche os olhos.
Ela reluta, mas após engolir seco, aceita fechando os olhos. Sinto as mãos pequenas deslizando de leve nos meus braços, por cima do fino tecido da camisa já que tirei o paletó. Deixo ela bem perto, deixando minhas duas mãos rodeando a cintura.
Jas deixa as mãos nos meus bíceps e apoia a cabeça no meu peito, então começamos a nos mexer, bem devagar, como se um passo mais rápido fosse fazer esse momento desaparecer.
Sem fazer nenhum movimento brusco, percorro uma mão pelo corpo dela até uma das mãos pequenas e faço-a girar, ainda apoiando o corpo pela cintura. O coração dela está tão acelerado que consigo sentir, logo ela volta a se agarrar a mim. Eu a assisto dançar com toda a leveza do mundo, em passos curtos, apenas mexendo os pés.
— Sei que não quer que ninguém saiba, mas eu sei. — Solta, com voz quase inaudível.
— O que?
— Que você tem sentimentos.