A festa já estava se iniciando no andar de baixo e no pátio, duraria até o amanhecer. Sauvage permaneceu na escuridão de seu quarto sentada no chão junto da parede com as palavras das mulheres de seu clã ecoando em sua cabeça, sentiu seus olhos pesando, o cansaço do dia estava cobrando seu preço. Marrant percebeu que ela estava adormecendo e cutucou Foncé com o focinho, as duas onças ajeitaram-se ao redor dela. Marrant deitou-se, permitindo que Sauvage repousasse a cabeça sobre o pelo de seu corpo e Foncé deitou-se junto ao corpo dela, mantendo-a aquecida para dormir mais confortável.
Inconscientemente, a mão de Sauvage se fechou ao redor do amuleto de pedra verde que trazia sempre preso em seu pescoço.
O som da correnteza de um rio chamou a atenção de Sauvage. Ao longe ela ouvia um cântico ou oração, o coro de vozes femininas era hipnótico, ela não entendia o que diziam, ficou alguns instantes de olhos fechados apreciando aqueles sons. Abriu os olhos lentamente, percebeu uma bela mata ao seu redor, a luz da lua cheia deixando tudo claro, não se lembrava como havia chegado aquele local. Quando seus olhos se acostumaram com a escuridão da noite, percebeu que não estava sozinha, parada próximo do rio, com um dos pés sobre uma pedra estava uma mulher com longos cabelos negros esvoaçantes, suas pernas longas e torneadas estavam nuas e seus braços musculosos também. Sauvage percebeu que ela tinha os cabelos enfeitados por penas coloridas, questionou curiosa:
— Onde eu estou?
A outra mulher olhou sobre o ombro para ela, seus olhos negros a analisaram por alguns instantes, antes que ela viesse em sua direção, a mulher parou na sua frente apenas alguns passos de distância, respondeu sem demonstrar emoção aparente:
— Você está em casa, na tribo onde nasceu.
— Tribo onde nasci?
— Sim, a família que lhe acolheu não é o seu povo... Nós somos.
— O meu povo?
— Venha, vamos para junto de nossas irmãs.
Sauvage observou a mulher na sua frente, sentiu uma sensação familiar ao observá-la melhor, tinha a impressão de que conhecia aquela mulher, era um pouco mais alta que ela e parecia um pouco mais velha também, seu rosto estava pintado com tinta vermelha e azul, ficou óbvio para Sauvage que ela era uma guerreira. Ela estava nua, os s***s eram cobertos pelas longas mechas negras e lisas de seus cabelos, apenas seu sexo estava coberto, ela andou calmamente em sua frente, fazendo com que fosse seguida.
Não andaram muito até chegarem ao centro do que ela chamava tribo, um grande grupo de mulheres cantava e dançava, em um ritmo hipnótico próximo a uma grande fogueira. A guerreira sentou-se no chão com as pernas cruzadas, olhou para Sauvage indicando que ela deveria se sentar ao seu lado, assim que ela o fez, lhe foi oferecido um recipiente com um líquido branco e ela sentiu o cheiro do líquido esbranquiçado que lhe foi oferecido, a mulher ao seu lado tinha um recipiente igual nas mãos. A guerreira ergueu as sobrancelhas percebendo que a jovem não fazia ideia do que se tratava e sorriu bebendo para incentivá-la a fazer o mesmo. Sauvage a imitou tossindo um pouco, a bebida tinha um gosto forte de algo que ela não conseguia identificar o que era. A guerreira questionou:
— Por que está tão magoada por não ser vista como uma igual pelas mulheres do lugar onde vive?
— Por que elas são muito melhores que eu...
— Você acredita mesmo nisso? Acredita que as guerreiras que vê não são tão valorosas quanto as mulheres que conhece?
Sauvage olhou ao redor, viu guerreiras como aquela que estava a seu lado, a maioria delas estava naquela cerimônia, pareciam mulheres orgulhosas e poderosas. Algo chamou sua atenção, não havia homens naquele local, havia algumas crianças, mas eram todas mulheres, a guerreira continuou:
— Não temos homens em nossa tribo, tudo que vê é feito por nós mesmas...
— Como se alimentam se não há homens para caçar e plantar?
— Temos braços e pernas para fazermos isso por nós mesmas...
— Como se defendem?
— Somos guerreiras, minha criança. Nós mesmas lutamos as nossas batalhas.
— E quem toma decisões?
— A rainha com as anciãs e as mulheres da tribo, todas ajudam em tudo.
A surpresa no rosto de Sauvage divertiu a guerreira a seu lado, ela jamais havia pensado em uma sociedade sem homens em que tudo dependia da força das mulheres. Olhou ao seu redor, tudo era muito limpo e organizado, as casas ao redor delas não eram grandes como as que conheciam, mas eram sólidas, construídas em pedras, todas elas semelhantes e muito bem construídas, olhou para uma espécie de mesa, viu um banquete de carnes, frutos e frutas e ficou pensativa. Nunca havia lhe passado na cabeça que não precisava de um homem e questionou, observando as crianças:
— E como se casam?
— Não nos casamos. Recebemos os homens que desejamos... Ficamos com eles e depois os devolvemos às suas tribos...
— Mas isso é errado, não é?
— Por que pensa que f********o com quem deseja é errado?
— Porque a deusa diz que só devemos nos entregar ao prazer de nosso companheiro...
— Você entendeu errado as palavras da deusa... Nunca foi dito que o companheiro de sua vida seria apenas um.
Sauvage ficou surpresa por aquela guerreira conhecer as palavras da deusa, tentou se lembrar sobre o que estava escrito nos livros que leu e franziu as sobrancelhas dizendo:
— Será fiel ao companheiro de sua jornada... Entendo que se tratava do companheiro para a vida, a vida é a jornada, não é?
— Minha criança, a vida é a grande jornada, mas dentro dela temos outras jornadas menores também, é a isso que as palavras da deusa se referem, nem sempre seu companheiro estará lá até o fim da grande jornada, mas significa que deve ser fiel a ele mesmo que seu tempo juntos seja curto, entende?
Sauvage ficou pensando no que lhe foi dito, ficou confusa e pensativa. A guerreira riu:
— Parece que lhe disse algo completamente novo...
— Sim.
— Você precisa estudar mais, precisa de algo que amplie seus horizontes...
— Quem é você?
— Não é obvio? Sou a mãe que lhe trouxe a vida.
— Quem eu sou?
— Você é uma guerreira Icamiaba como eu e todas antes de nós.
— Uma guerreira Icamiaba... Mas eu...
A mão da guerreira em seu ombro chamou sua atenção, a fez se calar, a ouviu questionando:
— Você está pronta para lutar suas próprias batalhas?
— Eu não sei...
— Quanto estiver tomada por dúvidas, pode vir para casa, seu Muiraquitã lhe trará em segurança.
Disse ela apontando para o amuleto de pedra verde pendurado no pescoço de Sauvage. Ela o segurou nas mãos, depois levantou seus olhos para a guerreira sentada ao seu lado que lhe sorriu dizendo:
— Vá agora, aproveite a festa de seu irmão.
Sauvage franziu as sobrancelhas, se questionando como aquela mulher sabia que a festa estava acontecendo. Fechou os olhos, o som de um ronco alto chamou sua atenção, abriu os olhos reconhecendo a escuridão de seu quarto, não demorou muito até perceber estar em seu próprio quarto e gritou assustada ao mover a cabeça, estava deitada com a cabeça sobre um homem nu, junto ao seu corpo havia uma mulher nua abraçando-lhe. Sauvage correu para o outro canto do cômodo, acendendo as lamparinas. Marrant acordou se assustando, sentando-se e olhando para os lados gritou:
— O que aconteceu?