Capítulo 9 – O Preço da Verdade

1309 Palavras
O silêncio do apartamento era sufocante. Arkan estava sentado diante da janela, observando a cidade que começava a despertar. O amanhecer sobre o Bósforo nunca parecera tão frio. Desde a noite anterior, o telefone não parava de vibrar: mensagens de advogados, acionistas, repórteres. Mas nenhuma delas importava. O que importava — o que o consumia — era a ausência de Valéria. Ela havia desaparecido. Pegou o celular, discou o número dela pela milésima vez, e ouviu a mesma mensagem automática: “O número chamado está temporariamente indisponível.” Arkan fechou os olhos e apertou o aparelho nas mãos, como se o pudesse forçar a responder. O orgulho que sempre o guiara parecia agora um fardo. O homem que comandava impérios não conseguia proteger a única mulher que amava. --- Enquanto isso, Valéria caminhava pelas ruas estreitas de Kadıköy, o bairro que começava a se tornar refúgio para suas fugas silenciosas. O lenço escuro escondia parte do rosto, e o coração ainda batia acelerado a cada olhar curioso. Mas, naquele dia, algo dentro dela havia mudado. A humilhação pública, a solidão, as lágrimas — tudo se transformava, lentamente, em algo mais forte. Em raiva. Em propósito. Entrou em um pequeno café, o mesmo onde conhecera Ayla. A amiga já a esperava, sentada com uma pasta nas mãos. — Conseguiu o que pedi? — perguntou Valéria, a voz firme. Ayla assentiu. — Todos os registros do sistema da empresa nos últimos três meses. Movimentações, e-mails, acessos. Valéria abriu a pasta, os olhos percorrendo as linhas de códigos e números. Entre as informações, algo chamou sua atenção: uma sequência de e-mails enviados de um servidor anônimo, mas com assinatura criptografada. Ela reconheceu o formato. — Isso… — murmurou, — é o mesmo padrão usado nos contratos falsos. Ayla olhou-a, surpresa. — Você entende de auditoria? Valéria sorriu de leve. — Era o que eu fazia no Brasil. Antes de vir pra cá e me apaixonar pelo homem errado. — Não diga isso — respondeu Ayla. — Se ele é o homem errado, então não existe certo. Valéria fechou os olhos por um instante. — Talvez. Mas o que eu sei é que alguém usou meu nome e o dele para algo muito maior do que um escândalo romântico. Ela olhou novamente para os documentos e sentiu um arrepio. — Ayla, quem mais tinha acesso a essas informações? Ayla hesitou. — Além de Elif… apenas o senhor Kemal Demir. O nome caiu entre as duas como um trovão. --- Na sede da Demir Holdings, Arkan entrou na sala do pai sem bater. Kemal estava de pé, diante da janela, com as mãos cruzadas nas costas. Ao ouvi-lo entrar, falou sem virar o rosto: — Pensei que tivesse aprendido a não invadir o território dos outros. — E eu pensei que tivesse aprendido a não destruir a vida do próprio filho — retrucou Arkan. Kemal se virou lentamente. O olhar dele era o mesmo que Arkan temera desde a infância — frio, implacável. — Você realmente acredita que foi Elif quem fez tudo isso sozinha? — perguntou Arkan. Kemal arqueou uma sobrancelha. — Está insinuando o quê? — Que o escândalo foi orquestrado por alguém que tinha algo a perder — respondeu ele. — E ninguém tinha mais a perder do que você. O pai sorriu, sem humor. — Cuidado, Arkan. Está deixando a emoção turvar o raciocínio. — Eu encontrei rastros nos documentos. Transações que partem de contas vinculadas à diretoria da empresa. — E acha que isso me envolve? — Acho que você queria se livrar de mim — respondeu Arkan. — E usou Elif pra isso. O silêncio foi pesado. Por um momento, o velho Demir não respondeu. Depois, aproximou-se do filho e disse, em tom baixo, porém cortante: — Eu fiz o que precisava ser feito. Você está destruindo a herança da nossa família por causa de uma mulher estrangeira que nem entende o que é viver aqui. Arkan o encarou, incrédulo. — Então é verdade. — É verdade que você esqueceu quem é — retrucou Kemal. — E, sim, eu autorizei Elif a “ajudar” a empresa. Ela se excedeu, talvez. Mas o dano foi inevitável. Arkan deu um passo à frente, a voz tremendo de raiva. — Você jogou a honra da mulher que eu amo na lama! Kemal manteve-se imóvel. — E salvei o império que você estava prestes a perder. — À custa da minha alma — disse Arkan, com amargura. — Mas saiba, pai… eu vou expor tudo isso. Mesmo que o nome Demir arda junto. Kemal sorriu, um sorriso frio. — Você não tem coragem. Arkan o olhou por um instante, e o que o pai viu nos olhos dele o fez empalidecer. — Não duvide — respondeu Arkan, virando-se para sair. — Eu aprendi a ser implacável com o melhor. --- Enquanto isso, Valéria e Ayla caminhavam em direção a um prédio antigo, onde funcionava uma pequena redação independente. — Tem certeza disso? — perguntou Ayla. — Se entregar esses documentos à imprensa, não há volta. — Nunca houve — respondeu Valéria. Entraram e foram recebidas por um jornalista jovem, Emre Kaplan, conhecido por sua integridade e coragem. Valéria colocou a pasta sobre a mesa. — Aqui está a verdade. Contratos falsificados, e-mails internos, transferências. Tudo o que liga Elif Karahan e Kemal Demir ao escândalo. Emre folheou os papéis, impressionado. — Isso… isso pode derrubar a Demir Holdings. — Ou salvá-la — respondeu Valéria. — Depende de como você contar a história. Emre a observou por um instante, admirado. — Você sabe que vai se expor, certo? Vão te atacar ainda mais. — Já perdi tudo que podiam tirar de mim — disse ela, firme. — Agora só resta recuperar o que é verdade. --- Ao entardecer, Arkan recebeu uma ligação de número desconhecido. — “Senhor Demir? Aqui é Emre Kaplan, do jornal Hürriyet. Acho que o senhor gostaria de saber que uma mulher chamada Valéria Mancinni esteve hoje em nossa redação. E nos entregou provas que podem mudar tudo.” O coração de Arkan disparou. — Onde ela está agora? — Disse que iria até a ponte do Bósforo. Precisava ver o pôr do sol antes de decidir o próximo passo. Arkan pegou o casaco e saiu, o vento cortando o rosto enquanto dirigia pela cidade. --- Quando a encontrou, Valéria estava de costas para ele, olhando o horizonte avermelhado. Os cabelos dançavam ao vento, o lenço solto nas mãos. Arkan se aproximou, sem dizer nada, até que ela falou: — Eu contei tudo, Arkan. Ele parou. — Eu sei. Ela se virou para encará-lo. — Agora todos saberão o que seu pai e Elif fizeram. E talvez você me odeie por isso. — Eu nunca poderia te odiar. Ela deu um sorriso fraco. — Mesmo que isso destrua o nome da sua família? — Um nome que se constrói com mentiras não merece ser carregado. Valéria respirou fundo. — Eu fiz o que achei certo. — E eu faria o mesmo — disse ele, se aproximando. — Mas agora, eles virão atrás de você. — Eu sei — respondeu, com serenidade. — Mas, pela primeira vez, não tenho medo. Arkan a puxou para perto, envolvendo-a nos braços. — Eu juro, Valéria. Eu vou protegê-la. Não importa o que custe. Ela fechou os olhos, encostando o rosto no peito dele. E naquele instante, o pôr do sol sobre o Bósforo pareceu selar algo entre eles — não uma promessa de felicidade, mas de coragem. O amor deles não era mais um segredo, nem um escândalo. Era resistência. Mas, nas sombras de Istambul, alguém os observava de longe, com os olhos frios e o celular em mãos. Elif. E sua voz ecoou na gravação enviada a Kemal Demir: > “Eles pensam que venceram. Mas a guerra só começou.”
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