DESTINO

1007 Palavras
A quebrada acorda cedo. Mas eu nunca durmo. A noite é minha parceira. É nela que as promessas são feitas — e quebradas. Onde os ratos rastejam, os sangue-r**m traem, e os covardes se escondem atrás de discursos bonitos. Aqui, só existe uma lei: quem tem mais coragem segura a arma. E quem treme, morre. Meu nome é Vinicius. Mas ninguém me chama assim há anos. Pra favela e todos - eu sou Coringa. Não porque sou engraçado. Mas porque sou imprevisível. Tenho 27 anos, tatuagens até o pescoço — a mais famosa é o "HAHA" que grita na minha garganta. É um aviso. Eu m@to rindo. Cresci nessa mesma favela onde hoje comando. Vi meus pais morrerem por um comandante do BOPE. Quando eles atiraram, minha mãe foi atingida, meu pai no reflexo por vingança, ficou cedo e caiu junto. Não tinha ninguém por mim — então eu assumi o morro. Minha quebrada. Meu lar. E ao meu lado, só tinha o Matheus – Charada. É engraçado, mas de alguma forma, o universo uniu a gente desde pivete. Sempre juntos. Hoje, ninguém mexe comigo. Porque sabe o preço. Mas mesmo com poder, com grana, com respeito… tem noites que eu olho para o teto do meu barraco e me pergunto o que sobrou de mim – as vezes, por um milésimo de segundo, eu queria ter alguém. Mas na mesma hora, a imagem daquela v@dia volta e a minha raiva retorna maior. Essa noite, foi diferente. Tava na laje, fumando, ouvindo os rádios dos meninos, quando algum deles falou que alguém tinha puxado uma mina para o beco. Eu já tive vários problemas ali, era o ponto do ônibus e várias moradoras, já tinham reclamado. Fazia tempo que eu não brigav@ com alguém e resolvi cobrar essa fita. Desci com a Glock na cintura e o sorriso no rosto. Fui de moto até a barreira e desci correndo, atravessando a avenida sentido ao beco. No meio do beco, vi dois moleques tentando agarrar uma menina. Vi quando ela acertou o rosto do homem e em seguida tentou correr, porém, um dos caras alcançou ela e antes de eu chegar, acertou ela no t**a e ela apagou.Vi quando puxaram uma faca para ela – iam rasgar as roupas, eu conhecia esse tipo de homem, de lixo. Apontaram uma faca para ela. Eu apontei a minha arma para eles. — Sai de cima dela, agora! – Eu falei com a voz baixa, mas com ameaça. — Sai você daqui.. você não ta na sua fave.. – O cara quis me peitar e um barulho secou ecoou no beco. O corpo dele caiu duro, torto no chão. O outro com ele, soltou a faca e saiu correndo. Guardei a arma e fui ver a menina – só queria saber se ela estava viva ou machucad@. Mais aí irmão, o mundo parou. A rua silenciou. E naquele instante, entre o cheiro da pólvora e o corpo do homem morto, o meu coração palpitou tão alto – que se tivesse alguém ali, tinha ouvido. A menina era nova, não devia ter 20 anos. Cabelos ondulados, pretos. Tinha algumas curvas pelo corpo... e a boca dela, lembrava-me um coração. No impulso, peguei a mochila dela, coloquei nas costas e peguei ela no colo. Atravessei a avenida, subi na minha moto e subi com ela pra minha casa. Ninguém na barreira entendeu nada – e nem devia. Eu era o dono do morro e fazia o que quisesse, quando quisesse. Entrei em casa, fechei a garagem e desci com ela. Coloquei ela deitava no meu sofá e joguei a mochila em cima do outro. Sentei de frente pra ela. “Que porr@ eu to fazendo?” – pensei comigo, nenhuma mulher tinha entrado naquela casa. Antes, eu morava na casa do meu pai, até aquela v@dia me trair. Na mesma hora, ouvi a moto do Charada e ele entrou, sempre soltando as piadas e enigmas deles. — Eu tive que saber se era verdade ou buxixo. – Charada falava num tom sério. — Às vezes, queria meter uma b@la na sua testa. – Eu respondi friamente, ele era o único que me enfrentava – porque senão, o poder levava a sanidade embora. — Como você sobe com uma mina, sem saber nada dela, para o morro? Ainda mais pra dentro da sua casa? – Charada me olhava com o olhar que dizia que era burro ou inocente demais. Eu já conhecia ele. — Eu não sei porr@, ela ia ser atacada no beco. Eu só.. trouxe. – Pela primeira vez, eu estava sem palavras – talvez, perdido. — Você é maluco. Ela pode ser infiltrada, qualquer coisa. – Charada falava enquanto ia em direção a bolsa dela. — Vai fazer o que? – Perguntei, pegando uma cerveja na geladeira pra mim e pra ele. — Ela precisa ter algum documento, celular... qualquer coisa. – Charada respondia com um tom, como se fosse o mais esperto e eu – o mais idiot@. Eu sentei do lado dele e começamos a mexer na bolsa dela. A principio tinha algumas roupas surradas, meias, duas peças intimidas. Na parte da frente, tinha um RG. Laura Antunes. 18 anos, tinha feito na semana anterior. — Olha isso.. – Charada disse me entregando um documento. “Orfanato Santa Helena - Informamos que a jovem Laura Antunes ao completar 18 anos de idade na última semana, conforme previsto pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), não está mais apta a permanecer sob os cuidados da instituição de acolhimento. A partir desta data, a responsabilidade por sua moradia e sustento passa a ser de sua própria alçada” — Ela… É órfã?! – Eu pensei alto e aquilo foi como um choque para mim. Eu tive uma família, mas ela... nunca teve ninguém. Eu não sabia ainda, mas meu destino tomava um novo rumo. Logo Charada foi embora, ia puxar a ficha dela. Assim que ela saiu pela porta, ela gemeu e eu percebi que ela estava acordando.
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