04 - Nem sempre a verdade

1166 Palavras
Quando Sombra saiu do Centro Médico estava mais calado do que de costume. - Moleque, preciso que volte para mim, não estou pronto para te perder e Hermes não vai perdoar se tentar se vingar do Ceifador. - Eu não vou, padrinho, fique tranquilo, eu aceito que errei, deveria ter ligado para o chefe e comunicado a situação. - Também não quero que pense assim, você não errou, moleque. - Jurei não mentir e, não falei a verdade quando tive a oportunidade, mereci a punição, padrinho. - Filho, nem sempre a verdade é o melhor caminho. - O juramento, não podemos mentir. Para Sombra o código era tão claro quanto a água, não havia espaço para interpretações. Era isso que trazia segurança a Ethan, saber que existia uma base sobre a qual ancorar o comportamento. Os erros eram punidos e os acertos eram premiados, uma vida simples. - Filho, se eu disser que você estava em um hospital eu mentirei? - Não, por quê? - E seu eu disser que você estava com o seu pai eu mentirei? - Não, padrinho, eu estava com meu pai, ele é o responsável pelo Centro médico. - E se eu disser que você estava no condomínio da família? - Ainda seria verdade, padrinho. - Pois é, podemos falar a verdade de diversas formas, ou seja, podemos omitir o que precisamos sem mentir. Quando disse que o Ceifador ficou por estar bêbado você falou a verdade, mas poderia ter utilizado outra forma de dizer e evitar a ira do chefe. - O que eu falaria, padrinho? - Haveria muitas possibilidades, mas poderia ter falado apenas que a missão estava concluída e vocês estavam voltando. Assim como a verdade faz parte do juramento, há algo que precisa aprender, um soldado jamais entrega um irmão, se vir um soldado errar, você conserta o erro, mas não o expõe, compreende? - Sim, padrinho. Aquela foi uma lição que Sombra carregou em seu coração por toda a vida, ele nunca mentiu para o chefe, mas usou outras formas de dizer a mesma coisa, várias e várias vezes. Sombra ficava o dia inteiro no “stand” era responsável pelo treinamento dos demais soldados e gostava do isolamento que o protetor auricular proporcionava. Ali as palavras não eram necessárias, não cabiam naquele espaço onde o barulho dos disparos e o cheiro de pólvora inundavam o ar. Hermes enviou um aviso ao celular de Sombra, havia uma missão. Sombra colocou a pistola sobre a mesa de aço e retirou os protetores, estava evitando falar com o chefe desde que saiu do Centro médico, mas não podia recusar uma ordem direta. Na sala estavam Apollo, Ceifador, Hermes e dois conselheiros, Ethan completou o grupo e abaixou a cabeça. - Estou aqui, chefe! - Temos uma pista sobre a organização que levou Adrya, não sabemos se ela está cativa, ou se está morta, mas eu os quero aqui, vivos. Faço questão de retirar de cada um deles o dobro do que tiraram de mim. Ethan ergueu a cabeça, a ideia de vingar a morte de uma mulher lhe atraia, era como se pudesse vingar Alice várias vezes. Aquela sensação lhe trazia paz. - Eu vou chefe! Hermes concordou que o melhor homem para a missão era Sombra, o rapaz era discreto e tinha uma intuição invejável. - Pai quero ir! É sobre a nossa família, tenho direito. O chefe sentiu orgulho do filho, seria uma missão difícil e era totalmente investigativa, refletiu. - Vou pensar sobre vocês, não acho que estejam prontos para trabalhar juntos de novo, não ainda. Os homens ficaram quietos, mas Apollo estava preocupado, não queria o afilhado em campo com Ceifador. As chances de problemas eram gigantes. Assim que saíram da reunião, o subchefe chamou Sombra para conversar. - Filho, quero que fique dessa vez, deixe que ele faça a missão para o pai, precisamos de você na base. - Eu sei com o que está preocupado, padrinho, mas você criou um homem, se Hermes decidir que devemos trabalhar juntos, eu irei. Sombra não sabia o que era o medo, havia esquecido a sensação há muito tempo, ainda lembrava do dia em que perdeu a capacidade de temer a crueldade humana. Não acreditava que existisse dor maior do que a que sentiu na tarde em que perdeu a mãe, as vezes passava horas tentando lembrar os detalhes do que aconteceu, mas sua mente só lhe entregava um vazio como resposta. Benjamin foi o próximo a procurar o filho buscando por ajuda. - Ethan eu não consigo, não posso ficar aqui e assistir as loucuras de Hermes, aceitei isso por muito tempo em troca de uma proteção que nem se é real. Agora vejo os desmandos desse lunático brincando com a vida das pessoas como se fossemos peças em um tabuleiro de xadrez, precisamos ir embora. - Velho, não existe sair, ir embora, a única saída possível é a morte e eu ainda não estou pronto para ela. - Conheço a lei, Ethan, mas podemos parecer mortos sem realmente estarmos, Apollo vai nos ajudar, tenho dinheiro guardado, poderemos viver bem em algum país pequeno, sem chamar atenção. - Eu não sou um covarde e não traio o juramento que fiz, a minha palavra é uma só, eu não farei isso que me propõe, mesmo que a minha escolha me leve a morte. - Então me ajude, eu não posso ficar. Ethan não respondeu ao pai, não conseguia raciocinar direito, sentia que Lobo estava sendo indigno, mas também achava que homens deveriam ter o direito de escolher. - Padrinho, Lobo me falou sobre o plano e disse que o senhor iria ajudar. - Sim, moleque, se quiser ir terá meu apoio. - Eu não faria isso, não deixaria a madrinha aqui e fugiria como um covarde, também não trairia minha palavra para passar uma vida fugindo de Hermes e lembrando a minha própria vergonha. - Imaginei que diria algo assim, moleque, e é por isso que você será o melhor subchefe que essa organização já teve. Ethan estava sendo criado por Apollo para o suceder, não teve filhos homens e Sombra era como um filho que seu coração escolheu, ele era calmo e perspicaz, não perdia o controle, mesmo sob pressão e era honrado. - Ele pediu minha ajuda, padrinho e eu não sei o que responder, parte de mim diz que eu deveria ajudar, mas também não concordo com a escolha de Lobo. - Se Alice estivesse aqui, o que ela te diria? - Ela diria que as pessoas nascem livres e são escravizadas por outras pessoas, nossa missão é equilibrar o jogo. - Aí está sua resposta, moleque. Naquela noite, Lobo morreu para a máfia e nasceu Benjamin, o médico que passaria a trabalhar para pessoas simples. Era como ter Alice ao seu lado de novo. Lobo sabia que esse era o sonho da esposa, poder ajudar quem mais necessitava e acolher aqueles que não tinham como se defender da crueldade e ganância humana.
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