Quando Sombra saiu do Centro Médico estava mais calado do que de costume.
- Moleque, preciso que volte para mim, não estou pronto para te perder e Hermes não vai perdoar se tentar se vingar do Ceifador.
- Eu não vou, padrinho, fique tranquilo, eu aceito que errei, deveria ter ligado para o chefe e comunicado a situação.
- Também não quero que pense assim, você não errou, moleque.
- Jurei não mentir e, não falei a verdade quando tive a oportunidade, mereci a punição, padrinho.
- Filho, nem sempre a verdade é o melhor caminho.
- O juramento, não podemos mentir.
Para Sombra o código era tão claro quanto a água, não havia espaço para interpretações. Era isso que trazia segurança a Ethan, saber que existia uma base sobre a qual ancorar o comportamento. Os erros eram punidos e os acertos eram premiados, uma vida simples.
- Filho, se eu disser que você estava em um hospital eu mentirei?
- Não, por quê?
- E seu eu disser que você estava com o seu pai eu mentirei?
- Não, padrinho, eu estava com meu pai, ele é o responsável pelo Centro médico.
- E se eu disser que você estava no condomínio da família?
- Ainda seria verdade, padrinho.
- Pois é, podemos falar a verdade de diversas formas, ou seja, podemos omitir o que precisamos sem mentir. Quando disse que o Ceifador ficou por estar bêbado você falou a verdade, mas poderia ter utilizado outra forma de dizer e evitar a ira do chefe.
- O que eu falaria, padrinho?
- Haveria muitas possibilidades, mas poderia ter falado apenas que a missão estava concluída e vocês estavam voltando. Assim como a verdade faz parte do juramento, há algo que precisa aprender, um soldado jamais entrega um irmão, se vir um soldado errar, você conserta o erro, mas não o expõe, compreende?
- Sim, padrinho.
Aquela foi uma lição que Sombra carregou em seu coração por toda a vida, ele nunca mentiu para o chefe, mas usou outras formas de dizer a mesma coisa, várias e várias vezes.
Sombra ficava o dia inteiro no “stand” era responsável pelo treinamento dos demais soldados e gostava do isolamento que o protetor auricular proporcionava. Ali as palavras não eram necessárias, não cabiam naquele espaço onde o barulho dos disparos e o cheiro de pólvora inundavam o ar.
Hermes enviou um aviso ao celular de Sombra, havia uma missão.
Sombra colocou a pistola sobre a mesa de aço e retirou os protetores, estava evitando falar com o chefe desde que saiu do Centro médico, mas não podia recusar uma ordem direta.
Na sala estavam Apollo, Ceifador, Hermes e dois conselheiros, Ethan completou o grupo e abaixou a cabeça.
- Estou aqui, chefe!
- Temos uma pista sobre a organização que levou Adrya, não sabemos se ela está cativa, ou se está morta, mas eu os quero aqui, vivos. Faço questão de retirar de cada um deles o dobro do que tiraram de mim.
Ethan ergueu a cabeça, a ideia de vingar a morte de uma mulher lhe atraia, era como se pudesse vingar Alice várias vezes. Aquela sensação lhe trazia paz.
- Eu vou chefe!
Hermes concordou que o melhor homem para a missão era Sombra, o rapaz era discreto e tinha uma intuição invejável.
- Pai quero ir! É sobre a nossa família, tenho direito.
O chefe sentiu orgulho do filho, seria uma missão difícil e era totalmente investigativa, refletiu.
- Vou pensar sobre vocês, não acho que estejam prontos para trabalhar juntos de novo, não ainda.
Os homens ficaram quietos, mas Apollo estava preocupado, não queria o afilhado em campo com Ceifador. As chances de problemas eram gigantes.
Assim que saíram da reunião, o subchefe chamou Sombra para conversar.
- Filho, quero que fique dessa vez, deixe que ele faça a missão para o pai, precisamos de você na base.
- Eu sei com o que está preocupado, padrinho, mas você criou um homem, se Hermes decidir que devemos trabalhar juntos, eu irei.
Sombra não sabia o que era o medo, havia esquecido a sensação há muito tempo, ainda lembrava do dia em que perdeu a capacidade de temer a crueldade humana. Não acreditava que existisse dor maior do que a que sentiu na tarde em que perdeu a mãe, as vezes passava horas tentando lembrar os detalhes do que aconteceu, mas sua mente só lhe entregava um vazio como resposta.
Benjamin foi o próximo a procurar o filho buscando por ajuda.
- Ethan eu não consigo, não posso ficar aqui e assistir as loucuras de Hermes, aceitei isso por muito tempo em troca de uma proteção que nem se é real. Agora vejo os desmandos desse lunático brincando com a vida das pessoas como se fossemos peças em um tabuleiro de xadrez, precisamos ir embora.
- Velho, não existe sair, ir embora, a única saída possível é a morte e eu ainda não estou pronto para ela.
- Conheço a lei, Ethan, mas podemos parecer mortos sem realmente estarmos, Apollo vai nos ajudar, tenho dinheiro guardado, poderemos viver bem em algum país pequeno, sem chamar atenção.
- Eu não sou um covarde e não traio o juramento que fiz, a minha palavra é uma só, eu não farei isso que me propõe, mesmo que a minha escolha me leve a morte.
- Então me ajude, eu não posso ficar.
Ethan não respondeu ao pai, não conseguia raciocinar direito, sentia que Lobo estava sendo indigno, mas também achava que homens deveriam ter o direito de escolher.
- Padrinho, Lobo me falou sobre o plano e disse que o senhor iria ajudar.
- Sim, moleque, se quiser ir terá meu apoio.
- Eu não faria isso, não deixaria a madrinha aqui e fugiria como um covarde, também não trairia minha palavra para passar uma vida fugindo de Hermes e lembrando a minha própria vergonha.
- Imaginei que diria algo assim, moleque, e é por isso que você será o melhor subchefe que essa organização já teve.
Ethan estava sendo criado por Apollo para o suceder, não teve filhos homens e Sombra era como um filho que seu coração escolheu, ele era calmo e perspicaz, não perdia o controle, mesmo sob pressão e era honrado.
- Ele pediu minha ajuda, padrinho e eu não sei o que responder, parte de mim diz que eu deveria ajudar, mas também não concordo com a escolha de Lobo.
- Se Alice estivesse aqui, o que ela te diria?
- Ela diria que as pessoas nascem livres e são escravizadas por outras pessoas, nossa missão é equilibrar o jogo.
- Aí está sua resposta, moleque.
Naquela noite, Lobo morreu para a máfia e nasceu Benjamin, o médico que passaria a trabalhar para pessoas simples. Era como ter Alice ao seu lado de novo. Lobo sabia que esse era o sonho da esposa, poder ajudar quem mais necessitava e acolher aqueles que não tinham como se defender da crueldade e ganância humana.