Um propósito

1305 Palavras
A sua resposta trouxe um verdadeiro alívio para a minha ansiedade, e bem na hora! A mamãe estava saindo e talvez era questão de tempo até ela vir, se ela estivesse a vir de fato. Acessei as notificações do meu celular e li a sua mensagem pela barra de notificação, e nossa... Infortúnios são uma das piores coisas que podemos lidar, né? Quando tudo foge do que estamos construindo e planejando. Esse não é meu primeiro momento em que tudo sai diferente do que preciso. A minha vida toda lidou com imprevistos criados pela minha liberdade exercida em escolher. Chamo essas coisas de pontas soltas, uma ramificação que a suas escolhas cria no espaço e no tempo. Entretanto, cá estou a devanear e perdendo o foco do que está acontecendo. Agora o tempo exige quase 100% da minha dedicação a uma causa, um propósito. Ficou estranho? Talvez não, enfim. Marcela basicamente disse que ocorreu um imprevisto na sua casa e chegaria muito atrasada, ou talvez nem seria possível vir aqui. Não costumo jogar a toalha, mas pode ter certeza que sempre uso exploit de tudo. Se tem uma pequena falha do qual pode impulsionar o que você precisa fazer, melhorando as suas capacidades, deve abusar dessa oportunidade. Então, soltei o que precisava: - Realmente preciso da sua ajuda, então passarei na sua casa e ficarei aguardando! - O quê? Sério? Não precisa, talvez você espere muito. Não precisa passar por um estresse desnecessário. Não é seu feitio, Artur. - Não mesmo, mas a urgência do momento faz com que eu haja diferente. Estou saindo de casa. - O quê, espera! - Tô no caminho. - Nossa, tá bom... é... Fica na frente, ok? Logo, logo apareço e iremos juntos para a sua casa cuidar do seu irmão. - Ok. Deixei a bicicleta em casa, pois a sua casa ficava apenas algumas quadras da minha. Não era distante e o caminho, era tranquilo e trazia uma p**a lembrança das coisas. Durante as nossas infâncias, caminhamos muito por aqui e brincamos de muito. Erámos colados desde o que aconteceu. Cara, sabe de uma coisa? Certeza que muita lembrança minha é bem diferente de como foi. Sei que sim, mas tudo que já aconteceu é inútil revirar e remoer. O tempo é constante, e pensar que tudo foi razoavelmente bom é mais satisfatório. Não costumo ligar para o que estão fazendo, pensando ou sei lá. Não faz diferença se não me afeta, mas refletir em algumas pontas soltas pode ajudar a construir uma boa conversa para que eu a ajude, não é? Tipo um exercício de humanidade, talvez falte isso no mundo. Ah! Lá está a casa, as luzes estão ligadas, então imagino que estejam em casa, certo? Bom... Apressei os meus passos e me aproximei do muro. Quando ia bater palmas para anunciar a minha chegada, pausei imediatamente e concentrei-me em escutar alguns murmúrios. É uma discussão? Tá com cara de que realmente é uma discussão. Tá com uma baita cara de discussão, mas que p***a! Tá praticamente inaudível. Isso seria importante para resolver esse problema. Entretanto, como escutei muito por aí, se não pode ajudar, atrapalhe. O importante é participar. Acho que carreguei todo meu ki numa palma e um grito ensurdecedor, kkkkkk. p***a! Acho que toda a m***a da vizinhança escutou. Gritei: - MARCEEEEEELA! DONA EUNIIIIICE, OOOOOOI, TEM ALGUÉM AIIIIIIIIIIIIIIIII! Fudeu, p**a m***a! Outros estão olhando pela janela, e têm alguns xingando, mas de boa. Elas pararam de discutir, aparentemente. Sou f**a, mas também não sei o que deu em mim. A porta da casa da Marcela abriu, ou... Na verdade, da Eunice, f**a-se. As duas saíram da porta e caminharam na minha direção. Marcela parecia p**a da vida, veio em passos impacientes e acertou-me um soco no braço enquanto fazia uma bela cara de cu. Quero dizer; a sua feição estava nitidamente indignada com o que fiz, ela estava furiosa e esboçou em cada traço do seu rosto a sua descontentamento. Em seguida, disse: - Artur, que p***a foi essa? - Você parecia estar em apuros, e eu também estou muito em apuros. Você não faz ideia! - Cara! - Antes que ela terminasse de falar, a sua mãe a interrompeu, e com um belo sorriso, cumprimentou-me: - Artur, que alegria e... Visita inusitada. Mais inusitado ainda é esse seu... Entusiasmo? - Disse enquanto sorria. - Érrr... Então, dona Eunica, realmente precisei. Meio que paguei Marcela para cuidar do meu irmão. Tenho um problema para resolver (não era uma mentira, mas uma informação completa). - Sério?! Meu deus, desculpe-me, não sabia desse compromisso dela. Ela não avisou. Tem mais alguma coisa que eu precise saber Marcela? - Mãe, não enche. Eu sei, um climão. Talvez eu tenha jogado errado, mas ainda dava pra consertar: - Ela não deu a certeza, tia. Então vim aqui obrigar ela, tecnicamente. Não confio em mais ninguém de última hora para fazer uma tarefa desse tipo. - Entendo. Nesse caso, você não combinou direito. Tudo bem então, fico feliz por reaparecer. Nos visite mais vezes, precisamos conversar mais vezes, talvez possa até ajudar essa menina. - Mãe! - Retrucou Marcela. - Érrr, talvez. Realmente estou um pouco apressado, preciso voltar urgentemente. Se não for problema, podemos ir? - Tudo bem, tudo bem. Podem ir. Marcela, vai falando comigo. Mande lembranças minha para sua mãe, Artur. - Certo! E desculpa o escândalo, e até mais. Eunice voltou para casa e eu acenei com a cabeça para Marcela, dizendo algo como "bora, p***a". Quero dizer, dizendo algo como "podemos ir?". Na verdade, se trata de uma pergunta do que uma grosseria. Marcela estava aborrecida ainda, mas veio comigo e com passos impacientes ainda. O seu rosto ainda estava aflito, um silêncio constrangedor instaurou-se e quase tirou a minha oportunidade de falar alguma coisa, mas ia precisar de muito mais que isso para tirar o meu foco. Então perg... - Mas que p***a, por que você gritou desse jeito na porta de casa? Não combinamos uma coisa? - Você parecia em apuros. - Mas é problema meu, como você já disse. - Não está errada. - i****a. O que você quer, hein? - Como assim? Ela respirou fundo, e recrutou impacientemente: - NADA! Novamente esse silêncio constrangedor, que m***a. Dessa vez acho que posso terminar a minha linha raciocínio: - Não sou de me intrometer nas coisas, mas assim... - Fala o que você quer falar. - Retrucou p**a vida, quero dizer, de forma ríspida como se não quisesse ouvir nada meu. - Está tudo bem? Faltaste ao debate, a sua mãe parecia tá falando algo muito sério e você contou muitas outras coisas do qual eu não parecia nem me importar. Ela ficou em silêncio, encarou-me de um jeito diferente dessa vez. Não era raiva, ou qualquer tipo de angústia, ou coisa assim. Era diferente. Os seus olhos estavam lacrimejando, mesmo que quase imperceptível. Não vi algo assim, talvez nunca tenha observado alguém me olhando assim, como se... Sei lá. Eu fosse um alívio, como se uma simples pergunta i****a fosse um finalmente. Uma válvula, a p***a da luz para a mariposa ou a flor para o polinizador. Marcela não respondeu na hora, ela respirou bem, olhava-me e desviava o olhar, engolia a seco e parecia pensar em todas as formas de como descarregar o que tanto pensava. Cara, não acredito. Isso parece bem surreal. Fui eu o primeiro a tomar iniciativa e perguntar o que tem de errado com ela? O que atormentava seus pensamentos a ponto de fazer ela cometer suicídio? Melhor... Além de tudo que está pensando: o quê ou quem está atormentando ela a ponto de fazê-la decidir cometer algo dessa magnitude? E ainda, sim, indaguei algo dessa proporção e talvez isso salve a vida de alguém, mesmo que seja uma pessoa. Isso é bem legal até.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR