Estava em choque, de fato não imaginava que ia chegar um tipo de chefão de... O quê mesmo? Deixa eu falar com essa tal de singularidade:
- Você veio aqui para me proteger então? Legal da sua parte.
- Ha, engraçado. Você lembra um cara que conheci há muito tempo. Ele era um lorde? Um rei? Coisa assim, mas é o maior conquistador conhecido. Ele era valente, destemido e a morte nunca o impediu de agir e conquistar. Esse guerreiro, um espadachim, um mago? Ele conhece poderes ocultos e a sua paciência e inteligência para controlar tudo. Melhor: alguns detalhes deram origem a uma era bem interessante.
- Entendi, você é justamente aquilo que imaginei de deus. Um tipo de megalomaníaco, ou coisa do tipo. Alguém sádico ou coisa desse tipo, mas acho que é megalomaníaco. Então você vê as coisas acontecerem e escolhe exatamente em qual intervir? Agora conta a história de um louco que espalhava terror por tudo e só observou? Não ajudou ninguém?
- Nunca disse que sou deus, e não intervenho em nada. Acredita, não faço nada de mais! - Recrutou sorrindo abanando as suas mãos como se fosse inocente.
- Tu disse algo e agora se desfaz. Uma singularidade que está em tudo, mas mesmo assim não pode agir?
- Sim, na verdade, fico só observando coisas que podem afetar muitas outras coisas. Como, por exemplo, um garoto que pode saltar por aí e ver as coisas.
Definitivamente um cínico que nem liga para o tamanho do poder que tem e não sabe explicar nada do que está acontecendo. Como saio disso? Esse desgraçado só contou o que é, o que vai acontecer e algumas histórias das quais não tenho relação. Exceto caso de que lembro alguém. Ainda me restam dúvidas e preciso perguntar agora antes que essa singularidade só desapareça:
- Disse que lembro um lorde, mas não sou valente, tampouco conquistador ou coisas assim. Vou tornar-me ele, por acaso e por isso está me supervisionando?
- Ah...! - ele fez uma expressão desgraçada, como se estivesse zombando do que eu disse e retrucou - Com certeza não, você não é ele. Disse que lembra ele por outra coisa. Bom, tenho que ir. Você tem algo para decidir, e o meu tempo de fato pode ser valioso. Se você soubesse de tanta coisa que existe, com certeza teria me mandado embora há muito tempo. Talvez até aceitaria a morte de bom grado.
- Como é? Tu vai embora assim, sem falar mais nada, e deixando tudo mais confuso do que já tá?!
- Podemos concordar nisso.
- Espera!
Assim que gritei para essa coisa esperar e dar respostas, voltei para onde estava: em frente a minha casa prestes a ir à casa da Marcela, ou Eunice. Déjà vu? Enfim, olhei para tudo ao redor e lá estava o carro numa área escura, ainda ligado. Olhei o meu celular e ainda tinha a mensagem de Marcela. m***a, pensa, pensa, pensa! O que posso fazer que resulte uma diferença menos destrutiva? Ligar para a polícia? Gritar para vizinhança inteira? O que posso fazer que po... Espera! Eles invadiram e estavam esperando a gente voltar. Se isso se tratava de uma retaliação, então imagino o que queriam fazer. Sei o que fazer, e um detalhe é: levar Francisco. Uau! Definitivamente eu poderia ter feito isso antes, e não seria necessário ter mais tanta pressa, poderia ir lá e não gritar e esperar.
Entrei em casa novamente, coloquei uma roupa nele pacientemente. Mas espera... Eles poderiam entrar aqui e agora, certo? Melhor só me apressar. Agilizei tudo o que pude, sair às pressas novamente e assim foi.
O que mudou dos acontecimentos atuais é que não refleti como antes, óbvio! E Francisco estava comigo, não é Francisco? Sim, sim. Mas provavelmente teremos a mesma conversa, pois é necessário para possamos nos entender e evitar o suicídio.
Ao chegarmos, apenas enviei a mensagem para Marcela avisando que havia chegado e estava com Francisco. Demorou pouco tempo para que ela me respondesse ou demonstrasse que leu a minha mensagem. Assim que ela percebeu, a discussão com a sua mãe parou e escutei os seus passos vindo aqui com a sua mãe. Quer saber o que aconteceu? Quase a mesma situação. Ela falou comigo e usou as mesmas palavras, e é isso.
Fizemos o mesmo trajeto, mas dessa vez escolhi irmos lanchar e comer alguns salgados. Como citei antes, conversamos as mesmas coisas, nada diferente. Inclusive, a minha reação foi um pouco mais fria, pois, não se tratava de uma novidade. Tudo que estava prestes a acontecer era esperado, e não pensei em fazer nada diferente do que fiz. Cada ponto, cada vírgula, uma pausa, um pensamento. TUDO! Estava exatamente como tinha que acontecer. O que estava diferente era o fato de eu saber. Nada mais!
Entretanto, ainda devemos conversar e preciso que ela me conte o que preciso saber para agir e impedir que ela faça aquilo. Então assim que chegamos, pedimos alguns salgados e sentamos à mesa com o meu irmão. Então fui o mais delicado possível e perguntei:
- Ei Marcela, tu já pensou em desistir de tudo?
- O quê?
- Sei lá, às vezes não surge alguns pensamentos desse tipo? Alguns desejos de parar tudo agora.
- Hmmm...
- Nunca pensou num momento que se o mundo acabasse, seria espetacular. O que iríamos perder?
- Isso foi bem aleatório. Precisa de ajuda?
- Quem não precisa?
Essa p***a não responde a minha pergunta, não n**a se está ou não pensando nisso. Acho que devo usar outros artifícios para ajudar, contar alguma experiência própria sem meias verdades e reconhecer algo que de fato me marcou. Um conflito, na verdade, algo que ela sempre quis saber e escolhi guardar pra mim. Algo da nossa infância. Os salgados chegaram, e nossa! Está quentinho e senti o cheiro da carne de sol e queijo vindo. Nunca desejei tanto. Ah! Antes que perguntem, denunciei para polícia que havia um t****o na porta de casa, que estava próximo de casa nos observando. Agora só resta cruzar os dedos! E avisei a mamãe o mesmo, e disse onde estaria esperando. Voltando ao que importa, enquanto comíamos, soltei a bomba de uma vez:
- A minha infância não foi tão simples como parece.
- Nunca me contava as coisas, achava que fosse seu jeito.
- Na verdade, ficava muito aborrecido pelo fato de que... Você partia, todo mundo tinha atenção sua, menos eu. Tu namorava. conversava, etc. E quando eu tentava conversar, alguém roubava sua atenção e dizia "fica pra depois".
- O quê?
- Sim, sim... Nunca reclamei porque você faz o que quiser. Nunca tive chance de compartilhar a minha dor com você. Sempre escutei. Escutei em casa, escutei na escola e ainda continuo escutando.
- E por que agora?
- Porque disse que não demonstro o mínimo. Contou algo importante, um símbolo de boa-fé do que temos. Então não é justo continuar ocultando isso.
- Símbolo de boa-fé?
- É como vejo. Amizade não funciona como uma rua de mão única. É uma via de sentido duplo ou coisa assim. Quero dizer que não posso escutar apenas e achar que talvez seja desnecessário você saber algo sobre mim.
- Artur, não sei se está ajudando.
- Não sei se quero ajudar, talvez só precise escutar mais uma vez o que está acontecendo. Não respondeu o que perguntei antes, e agora está agindo assim desde o que falei.
- Acho melhor ir pra casa.
- Marcela, quero que entenda que estou contando isso porque sou seu amigo e quero consertar as coisas que baguncei. Sei que fui um i****a, tá, essas merdas que você tá passando não parece fácil. Jamais entenderia, mas permita-me ao menos provar que posso ser um bom amigo. Já disse isso antes, né? E digo de novo, esse mundo é uma m***a, mas com as coisas certas isso fica melhor.