NARRAÇÃO DE BELA...
Eu me perguntava o que havia acabado de fazer… mas, pensando bem, eu nunca fazia nada.
Segui Kaito e a garota que não parava de falar, como se quisesse toda a atenção para si. Kaito, ao contrário, permanecia em silêncio. Caminhava decidido em direção ao fundo da escola, onde havia um terreno baldio e um portão de madeira gasto pelo tempo. Ele o empurrou, deixando apenas um espaço estreito para a nossa saída.
A garota tagarela, de mechas roxas, passou primeiro. Kaito continuou segurando a madeira, me encarando. Gesticulou com a cabeça, incentivando-me a sair.
Respirei fundo e atravessei. Agora não havia mais volta.
Do lado de fora, cerca de nove jovens nos aguardavam. Quatro garotas lançaram olhares claramente incomodados pela minha presença. Havia dois carros — uma picape e um conversível — e também uma moto. Tudo ali denunciava herdeiros. Era impossível não perceber.
Assim que Kaito passou, os rapazes o chamaram, animados, com bebidas nas mãos.
— Já está preparado para o mergulho! — disse um loiro, rindo, enquanto observava Kaito sem camisa.
As risadas cessaram quando notaram minha presença. O loiro saltou da caçamba da picape e se aproximou, analisando meu rosto com descaramento.
— É a gata que furou a bola…
Sorri por reflexo, mas meus olhos vagaram inquietos em direção à pista. Pensei no meu pai. No medo de ele descobrir onde eu estava — e com quem. Meus pensamentos se dissolveram quando Kaito colocou um capacete em minha cabeça.
— Vem comigo. Os dois carros já estão lotados.
Ajustei o capacete, nervosa. Nunca havia subido em uma moto. Minha respiração saiu descompassada. Meus pais sempre foram claros: moto e adolescentes não combinam. As garotas pareceram ainda mais irritadas. Talvez quisessem estar no meu lugar.
Para piorar, a moto era uma Kawasaki Ninja. Kaito subiu primeiro. Fiquei parada, deslocada, sem saber onde me apoiar. Os olhares estavam todos voltados para mim, aguardando minha iniciativa. Parei de enrolar e subi. A vergonha cresceu ao perceber como aquela moto me obrigava a arquear o corpo, empinando demais. Não havia onde segurar, a não ser ao redor da cintura dele. Fingi naturalidade. Fingi que era absolutamente normal tocar os gomos firmes do seu abdômen.
Os carros arrancaram, e Kaito foi logo atrás. Minhas mãos tremiam, suadas. Tinha medo de ele derrapar — ou de eu mesma escorregar e cair.
Estufei o peito antes de falar, enquanto ele ultrapassava os carros com uma naturalidade assustadora.
— Vai devagar! — gritei, mais alto do que pretendia.
Ele lançou um olhar de relance, mas o capacete ocultava sua expressão. Ignorou-me e ainda acelerou, provando ser completamente insano.
Nunca senti tanto alívio quanto ao vê-lo parar em frente à praia. Desci da moto como quem foge de um precipício.
O lugar era paradisíaco: areia branca, mar azul cristalino, sem ondas. Um refúgio perfeito. E o melhor… não havia seguranças. Larguei a mochila no chão, arranquei os sapatos e afundei os pés na areia.
As garotas passaram por mim entre risos, bebidas nas mãos. Logo depois vieram os rapazes. O loiro estendeu uma latinha de cerveja.
— Aceita?
— Eu não posso… — forcei um sorriso, imaginando meu pai farejando meu hálito, em busca de qualquer vestígio de álcool.
O rapaz insistiu, mas Kaito tomou a bebida da mão dele.
— A garota já disse que não pode.
Ele me lançou um sorriso de canto.
— Ela é praticamente uma prisioneira…
A provocação me atingiu em cheio. Respirei fundo e peguei a bebida da mão de Kaito. Dei um longo gole. O amargor da cevada não foi nada convidativo. Engoli com dificuldade, sob as risadas dos dois, e devolvi a lata, pressionando-a contra o peito dele.
— Não gostei — murmurei, passando por eles.
Apressando os passos, fui até o mar. Molhei os pés, sentindo algo próximo da liberdade. Abri os braços quando o vento trouxe a brisa salgada. O som das ondas era reconfortante. De longe, observei as garotas correndo entre gritos, fugindo dos rapazes.
Procurei Kaito com o olhar, mas apenas por um instante.
— Parece que nunca pisou numa praia antes… — sua voz soou ao meu lado, me fazendo sobressaltar.
Sorri, admirando os pequenos peixes próximos da água rasa.
— Nunca pisei sem nenhum segurança.
— Hum. Fiquei sabendo que as filhas do Dom Dawson eram superprotegidas, mas não imaginava que fosse tanto. Deve ser uma merda.
— É uma merda — resmunguei, esfregando os pés na areia molhada.
Eu me afastaria para explorar mais a praia, mas algo chamou minha atenção. A respiração de Kaito mudou. Tornou-se pesada, irregular. Os outros jovens já estavam longe demais para pedir ajuda. Seu rosto começou a ficar vermelho.
— O que foi? — me aproximei, alarmada.
Ele caminhou, desesperado, em direção à moto. Segui-o, o coração disparado. Nunca havia visto alguém passar m*l diante de mim. m*l alcançou a moto antes de cair de joelhos na areia.
— Kaito! SOCORRO! — gritei a plenos pulmões, vendo os outros sumirem de vista.
Com dedos trêmulos, ele apontou para a mochila. Corri até lá, abri sem pensar e revirei tudo até encontrar a bombinha de asma. Não sabia quem tremia mais — ele ou eu. Levei o inalador à sua boca e só me acalmei ao vê-lo recuperar o fôlego.
Sentei-me na areia, ainda sob o efeito da adrenalina. Ele estava suado, exausto, e me observava em silêncio.
— Acompanhe minha respiração — pedi, segurando sua mão.
Respirei devagar, e ele me imitou. Quando menos esperei, Kaito se deitou, apoiando a cabeça em minhas pernas. Fechou os olhos, ainda ofegante. Seus cabelos pretos, lisos, escorriam úmidos pela testa. Sem perceber, passei os dedos por eles, lentamente. E gostei. Até o suor em minha pele me fascinou.
Ele abriu os olhos. Ficamos nos encarando por alguns segundos. Meu estômago se contraiu, o coração acelerou. Então Kaito voltou a fechar os olhos, relaxando, à vontade — como se meu colo fosse um abrigo.
E, de alguma forma, era.
Acariciei seus cabelos, e ele não se afastou.
Pelo contrário.
Abriu os olhos devagar e murmurou, com a voz ainda rouca:
— Você devia saber… depois disso, eu não vou fingir que nada aconteceu.
Meu coração acelerou.
Porque eu também sabia.